Quando os terroristas atacaram Bamako e Niamey no início deste ano, os líderes militares do Níger e do Mali não recorreram às suas próprias tropas nem à força em estado de alerta da recém-criada Aliança dos Estados do Sahel. Em vez disso, solicitaram assistência aos mercenários do Africa Corps. Os especialistas em segurança afirmam que isto revela uma dependência da Rússia por parte dos líderes das juntas, que alegam estar a procurar a independência em relação às potências estrangeiras.
“A principal preocupação reside no impacto que este nível de dependência tem na coesão e na soberania dos vulneráveis Estados clientes da Rússia,” o investigador Zikora Ibeh escreveu num artigo de 11 de Setembro para a revista International Politics and Society. “Como demonstra a revolta no Níger, existe uma fragilidade preocupante no cerne da confederação saheliana. …
“À medida que os seus exércitos continuam a suportar o peso da violência jihadista e separatista em expansão, estes Estados estão a tornar-se demasiado fracos e vulneráveis para cumprir a mais elementar obrigação de um governo, ou seja, garantir a integridade territorial, a protecção de vidas e bens e a prestação de assistência social básica, para não falar da defesa regional.”
Desde 2021, o Mali pagou pelo menos 1 bilhão de dólares a mercenários do Grupo Wagner e ao pessoal do Africa Corps. Os pagamentos efectuados pelo Burquina Faso e pelo Níger não são divulgados publicamente, mas Ibeh disse que estes países têm vindo a adoptar recentemente uma política de nacionalismo dos recursos, sugerindo “que as concessões mineiras podem ser utilizadas como moeda de troca para acordos militares.”
Jacob Boswall, um analista de segurança que acompanha a actividade militante para o serviço de monitorização de meios de comunicação social da BBC, disse que o modelo russo de parceria militar no continente tem demonstrado dar prioridade à extracção de recursos minerais em detrimento da garantia de segurança aos civis.
“O Grupo Wagner — e agora Africa Corps — sempre tiveram um interesse muito transaccional em África,” disse num artigo da BBC de 5 de Setembro. “Se conseguirem obter recursos minerais em troca da prestação de protecção e defesa, então fá-lo-ão. Vemos isso no Mali com o ouro… e, depois, no Níger, é realmente o urânio [que] parece ser o principal recurso que o Africa Corps está a proteger.”
Desde que o Burquina Faso, o Mali e o Níger recrutaram combatentes russos, os ataques terroristas têm vindo a aumentar. Em 2024, só a região da tríplice fronteira de Liptako-Gourma foi responsável por mais de metade de todas as mortes relacionadas com o terrorismo a nível mundial.
Ibeh observou que o pessoal do Africa Corps raramente abandona a sua base operacional em Bamako na sequência de uma série de derrotas no campo de batalha, preferindo utilizar drones para mitigar as perdas operacionais. Em Abril, os russos retiraram-se do reduto de Kidal, no norte do Mali, deixando uma cidade inteira e as comunidades circundantes à mercê de terroristas e separatistas.
“O Africa Corps perdeu muita credibilidade,” Ulf Laessing, responsável pelo programa da África Ocidental do grupo de reflexão Konrad-Adenauer Stiftung, sediado em Bamako, disse à Al Jazeera. “Eles nem sequer ofereceram resistência… deixaram para trás muito equipamento, uma estação de drones inteira. Isso dá a impressão de que não se importam tanto.”
Tal como o Grupo Wagner antes dele, o Africa Corps tem um longo historial de atrocidades contra civis e violações de direitos humanos, e tem-se revelado incapaz de melhorar a segurança em áreas disputadas. Ibeh adverte que os fracassos da Rússia em matéria de segurança no Sahel, até ao momento, apenas reforçam ainda mais a dependência dos três regimes de junta militar em relação aos mercenários para a sua sobrevivência.
“O que isto retrata é um ecossistema extremamente frágil que aumenta a propensão para uma dependência crónica das juntas do Sahel, fracas e instáveis, em relação às baionetas russas,” escreveu. “Mas, a par desta propensão, existe o risco de as nações que dependem da Rússia para a sua segurança se transformarem em protectorados russos de facto.”
