O Ministro dos Negócios Estrangeiros do Gana, Samuel Okudzeto Ablakwa, assumiu uma posição firme face às práticas de recrutamento enganosas que levam dezenas de jovens ganeses a morrer pela Rússia nos campos de batalha na Ucrânia.
Ele levantou a questão pela primeira vez em Fevereiro, afirmando que 272 ganeses tinham combatido ao lado da Rússia na guerra. No entanto, apresentou números actualizados numa reunião realizada a 17 de Agosto, em Moscovo, com o seu homólogo Sergei Lavrov — mais sete ganeses tinham sido mortos nos combates, elevando o total para 62, e 15 estavam desaparecidos.
Ablakwa saiu da reunião e deu uma conferência de imprensa à comunicação social russa, informando que Lavrov “se comprometeu a que possamos trabalhar em conjunto para pôr fim a estes recrutamentos ilegais.”
“Esta não é a nossa guerra e não deveria estar a ceifar vidas ganesas,” Ablakwa escreveu numa publicação nas redes sociais no dia 18 de Agosto. “O Governo do Gana continuará a liderar a defesa desta causa e a garantir que os nossos jovens sejam protegidos de qualquer perigo.”
Muitos ganeses estão indignados agora que conhecem a extensão das tácticas de recrutamento do Kremlin e as mortes dos seus compatriotas nas linhas da frente da guerra da Rússia. Rejeitam a alegação de Lavrov de que todos os contratos militares da Rússia são legais e voluntários.
“Enquanto Moscovo fala de livre escolha, os relatos que surgem de muitos países africanos pintam um quadro diferente: jovens atraídos por promessas de emprego ou formação, apenas para se virem nas linhas da frente,” o analista de informações, Mustapha Bature Sallama, escreveu num artigo de 25 de Agosto para o site de notícias Modern Ghana. “O Gana, desta vez, recusa-se a aceitar isso. Exige que se tomem medidas.”
Num relatório de 2025 para o Instituto Francês de Relações Internacionais, o investigador Thierry Vircoulon descreveu como as redes de recrutamento têm origem na Rússia e contam com mercenários do Africa Corps, representantes diplomáticos e entidades culturais, tais como as Casas da Rússia.
Em 2025, um diplomata russo anunciou que Moscovo se preparava para abrir uma Casa da Rússia na capital do Gana, Acra. Olena Snigyr, investigadora do Instituto de Investigação em Política Externa, caracterizou em 2024 a acção cultural do Kremlin através das Casas da Rússia como “uma frente humanitária para as actividades do antigo Grupo Wagner.”
Vircoulon documentou as extensas redes de recrutamento da Rússia no continente e estima que entre 3.000 e 4.000 africanos se encontrem entre os 18.000 e 20.000 combatentes estrangeiros do exército russo.
“Estas práticas de recrutamento abusivas e enganosas assemelham-se a uma forma de tráfico de seres humanos, cuja consequência mais trágica é o envio de mercenários amadores para a linha da frente como ‘carne de canhão’,” escreveu. “Para alguns, esta aventura migratória numa guerra estrangeira é uma viagem sem regresso e, para muitos, a guerra é uma armadilha que se fecha sobre eles.”
Os números tornaram-se demasiado elevados para serem ignorados. Este ano, a organização de investigação INPACT identificou 1.417 recrutas africanos, incluindo 361 egípcios, 335 camaroneses e 234 ganeses.
“Estes recrutas foram integrados em ondas de assalto destinadas a sobrecarregar as linhas defensivas ucranianas, contribuindo para uma estratégia de desgaste,” lê-se no relatório. “Do ponto de vista dos recrutas, o recrutamento é motivado por um desejo de mobilidade social e geográfica, num contexto marcado pela pobreza estrutural, pela instabilidade política e por crises recorrentes no continente africano.”
