A descoberta e o desmantelamento de uma célula terrorista ligada ao Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), afiliado à al-Qaeda, constituíram uma notícia surpreendente na Guiné, em Março. Semanas mais tarde, o governo anunciou a criação de um Comando de Operações Especiais interagências para prevenir e combater a propagação do terrorismo.
O Chefe do Estado-Maior Geral das Forças Armadas, o General Ibrahima Sory Bangoura, elogiou o comando como um símbolo da modernização das forças de defesa da Guiné face aos novos desafios de segurança.
“A criação desta nova ferramenta de comando responde a um grande desafio: a necessidade de enfrentar ameaças que se tornaram mais complexas e híbridas,” disse numa cerimónia realizada a 4 de Setembro para a tomada de posse do novo comandante do comando, o Brigadeiro-General Mouctar Kaba. Num discurso, Kaba explicou que o comando de operações especiais irá complementar e coordenar, e não substituir, as estruturas existentes no seio das forças de segurança da Guiné.
“Pelo contrário, deve ajudar a reunir conhecimentos especializados, reforçar a coordenação, desenvolver a interoperabilidade e dotar o comando nacional de uma capacidade especializada, ágil e coerente,” afirmou. “Temos de tornar a interoperabilidade uma verdadeira cultura de trabalho.”
Os especialistas afirmam que os ataques do JNIM perto da vasta e porosa fronteira do Mali com a Guiné têm vindo a aumentar em frequência nos últimos dois anos. Mas a maior mudança em 2026 surgiu com o bloqueio económico imposto pelo JNIM à capital do Mali, Bamako. Desde o início de Maio, os militantes têm atacado e interrompido colunas de mercadorias que passam por Kourémalé, uma cidade situada na fronteira entre o Mali e a Guiné e que funciona como uma importante artéria económica entre Bamako e a capital da Guiné, Conacri.
Até Maio, tratava-se de um corredor relativamente seguro para o comércio. Actualmente, o bloqueio do JNIM empurrou grande parte desse tráfego para as economias informais e ilícitas, numa altura em que o grupo militante está prestes a expandir-se para as regiões fronteiriças da Guiné.
Os investigadores Hassane Koné, Paulin Maurice Toupane e Felix Fodé Bongono, do escritório regional da África Ocidental do Instituto de Estudos de Segurança, em Dakar, elogiaram a abordagem proactiva da Guiné no que diz respeito à expansão das forças especiais e à colaboração entre agências. Alertaram também para áreas de fragilidade que o JNIM procurará explorar.
“Estas importantes iniciativas de segurança partem do princípio de que a ameaça é um fenómeno externo a ser neutralizado pela força quando atravessa a fronteira para a Guiné,” escreveram num relatório de 11 de Agosto. “Esta abordagem ignora as vulnerabilidades internas inerentes ao país, algumas das quais exigem intervenções não relacionadas com a segurança para impedir que os grupos armados ganhem terreno.”
As autoridades do Sahel alertam há anos para o facto de o JNIM e o grupo Estado Islâmico estarem a tentar expandir-se para os países costeiros da África Ocidental, com os seus portos movimentados e redes de tráfico bem estabelecidas. O antigo oficial dos serviços secretos mauritanos, Ahmed Mbarek, disse que a expansão dos militantes tem sido lenta, mas constante.
“O Mali continua a ser o centro de gravidade, mas a pressão no seu interior está a levar as partes a expandirem-se, em vez de se contraírem,” disse ao portal de notícias árabe Voice of Emirates, num artigo publicado em Maio. “À medida que este caminho prossegue, já não basta falar de uma ameaça local no Sahel, mas sim de uma remodelação gradual de um espaço de segurança mais vasto que se estende para a África Ocidental e o Sahel, com todas as implicações que isso tem para a estabilidade regional nos próximos anos.”
Os investigadores do ISS afirmaram que as tensões comunitárias ao longo da fronteira entre a Guiné e o Mali são alimentadas, em parte, por disputas relacionadas com a exploração mineira de ouro e pela falta de regulamentação e supervisão por parte de ambos os países. Os grupos extremistas costumam explorar as queixas locais à medida que se enraízam nas economias ilícitas.
“O tráfico ilícito de armas e as redes de contrabando, que são altamente prevalentes nesta região fronteiriça, representam um risco de segurança tangível,” escreveram. “Aproveitando-se das fronteiras porosas, os extremistas violentos podem integrar-se nestas economias ilegais para sustentar as suas próprias necessidades logísticas, reflectindo um padrão documentado em toda a região.”
Os investigadores apelaram às autoridades guineenses para colaborarem com os seus homólogos do Mali e do Senegal no sentido de formalizar, regulamentar e monitorizar a mineração artesanal, a fim de impedir que esta se torne uma fonte de financiamento do terrorismo.
Recomendaram ainda um esforço concertado para envolver as comunidades locais na vigilância e na partilha de informações. Melhorar a cooperação civil-militar, afirmaram, irá criar confiança e conferir à população local um papel activo na prevenção do recrutamento para o terrorismo.
“É necessária uma estratégia nacional holística de combate ao terrorismo que integre operações militares com reformas de governação mais abrangentes,” escreveram. “Sob os auspícios do novo Comando de Operações Especiais, esta estratégia deverá, a curto prazo, reforçar a segurança nas fronteiras e intensificar a vigilância para neutralizar células adormecidas e bloquear a infiltração terrorista.”
