Daniel Ángel Masie Nchama é um dos poucos afortunados. O estudante de ciências da computação de 22 anos, natural da Guiné Equatorial, foi enganado e levado a lutar pela Rússia na linha da frente na Ucrânia, mas sobreviveu para contar a sua história.
Um camaronês chamado Fabrice recrutou Nchama com a promessa de um emprego como guarda-costas na Rússia. Partiu com outros 37 recrutas africanos em Dezembro de 2025. Quando chegaram a Murmansk, no extremo norte, foi-lhes entregue um contrato em russo para assinarem.
“Dissemos que não podíamos assinar documentos que não compreendíamos,” Nchama disse à Agence France-Presse. “Eles insistiram, dizendo que era tarde demais para os traduzir.”
Ele pegou no telemóvel para traduzir. Um soldado russo colocou a arma em cima da mesa.
“Foi uma ameaça. Por isso, tivemos de assinar,” disse, acrescentando que os seus passaportes foram confiscados e não lhes foram devolvidos.
Tendo-lhe sido prometidos oito a dez meses de treino, Nchama passou algumas semanas em Murmansk antes de ser enviado para uma base militar russa em Donetsk, no leste da Ucrânia. Com ele estavam “muitos africanos,” incluindo “outro equato-guineense, mas também camaroneses, nigerianos, líbios e também colombianos,” disse.
Segundo a Ucrânia, mais de 1.700 africanos estão a combater pela Rússia, embora alguns especialistas tenham estimado que cerca de 4.000 africanos se encontrem entre os cerca de 20.000 combatentes estrangeiros do Exército russo.
Atormentado pela fome e pelo medo no frio glacial de Donetsk, Nchama arriscou a vida para gravar um apelo em vídeo.
“Venham ajudar-me! Estou na linha da frente na Ucrânia. Estou a lutar pela Rússia,” apelou. “Precisamos de encontrar uma forma de me tirar daqui rapidamente, porque se me mandarem para a linha da frente, vai ser muito difícil. Quando lá estiver, não haverá volta a dar, a menos que a guerra acabe.”
O vídeo tornou-se viral nas redes sociais no seu país. Depois de uma reportagem televisiva também ter chamado a atenção, o governo da Guiné Equatorial confirmou, num comunicado, a existência de uma rede de recrutamento russa gerida por um camaronês. Nessa altura, Nchama já tinha sido enviado para o combate.
“Percebi que estávamos na linha da frente quando um míssil atingiu o nosso veículo e matou dois dos meus camaradas,” contou.
Inicialmente, Nchama foi destacado para um batalhão de 424 combatentes em Donetsk, todos os quais foram mortos no espaço de duas semanas. Ele afirma ser o único sobrevivente.
Em Março, o governo da Guiné Equatorial prometeu tomar “medidas diplomáticas” para garantir a sua libertação, e o vice-presidente Teodoro Nguema Obiang Mangue deu as boas-vindas a Nchama quando este chegou ao Aeroporto Internacional de Malabo, no dia 27 de Junho.
“O que passaste deve servir de alerta para todos os jovens, pais e encarregados da Guiné Equatorial, para que evitem confiar em qualquer proposta,” escreveu numa publicação no X.
Dois dias depois, Nchama e os seus pais reuniram-se com Mangue, que manifestou preocupação com outros compatriotas que foram enganados para lutarem pelo exército russo. Nchama disse que o outro equato-guineense no seu voo para a Rússia chamava-se Djefri. Foram separados à chegada e, mais tarde, Nchama soube que Djefri tinha morrido no campo de batalha.
O pai de Nchama declarou-se o “homem mais feliz do mundo” após o regresso do filho. Ele exortou os jovens e as suas famílias a terem cuidado ao perseguir empregos prometidos na Rússia.
“Estas promessas são uma morte garantida,” afirmou.
