EQUIPA DA ADF
Uma série de ataques devastadores por parte de grupos terroristas do Sahel no Burquina Faso, no Mali e no Níger demonstrou a incapacidade dos mercenários russos de garantir a segurança. Agora, a Rússia parece estar a mudar para uma estratégia alternativa.
Joseph Siegle, director de investigação do Centro de Estudos Estratégicos de África, explicou que o Kremlin está a utilizar o seu modelo bem estabelecido de lançar propaganda e desinformação como precursor para expandir a sua presença.
O alvo: a costa da África Ocidental.
“A estratégia da Rússia no Sahel está a desmoronar-se, mas isso não abrandou as suas ambições em África,” escreveu numa publicação nas redes sociais em Julho. “Mesmo com a sua influência no Sahel a desmoronar-se, a Rússia está a redobrar os esforços para fomentar a desconfiança nas instituições democráticas e a preparar o terreno para um regime militar — num esforço para ganhar uma posição nas democracias da África Ocidental costeira.”
Este ano, grupos terroristas afiliados à al-Qaeda lançaram ataques audaciosos contra Bamako, no Mali, e Niamey, no Níger, tendo cortado o abastecimento de combustível e outros fornecimentos essenciais à capital do Mali. Nos três países liderados por juntas militares, grupos terroristas rivais expandiram o seu controlo territorial sobre vastas áreas rurais.
Entretanto, Siegle afirmou: “As contas das redes sociais ligadas à Rússia e às juntas exaltam o desenvolvimento e a estabilidade fictícios alcançados pelos regimes militares.”
Uma fuga de dados de 1.400 páginas obtida pelo meio de comunicação pan-africano, The Continent, e partilhada com várias redacções internacionais detalhou uma rede de influência russa que se autodenominava “A Empresa.” Os documentos revelaram como agentes russos publicam centenas de artigos em órgãos de comunicação social da África Ocidental como parte do seu “Projecto África,” em curso, no âmbito do qual a rede identifica, recruta e coopta jornalistas, activistas e membros de organizações não-governamentais.
De acordo com os documentos, a “A Empresa” inseriu 644 artigos contendo propaganda ou informação falsa em pelo menos 35 meios de comunicação social na África Central e Ocidental entre Junho e Novembro de 2024. As campanhas custaram mais de 300.000 dólares.
O Senegal é um alvo-chave do Kremlin, devido ao seu acesso ao Oceano Atlântico e à fronteira comum com o Mali, mas a sua democracia relativamente estável constitui um obstáculo. Em Março, repórteres da France 24 informaram a Ibrahima Lissa Faye, director de notícias do meio de comunicação senegalês, PressAfrik, que o seu site de notícias tinha publicado 13 artigos com propaganda russa.
“Esses artigos parecem ter escapado ao nosso processo de validação editorial,” Faye disse à televisão France 24 numa reportagem de 17 de Julho. “Quando se lêem artigos como estes, fica-se definitivamente com a impressão de que se destinam a manipular a opinião pública. Retirámos imediatamente os artigos do ar, porque foram publicados no site sem o nosso conhecimento.”
Documentos que vazaram revelam que a empresa russa pagou à PressAfrik 6.500 dólares para publicar os 13 artigos, mas Faye negou que o dinheiro tenha chegado à conta bancária do meio de comunicação.
A influência da Rússia na região tem sido amplificada por projectos coordenados de desinformação, incluindo meios de comunicação pró-Rússia e campanhas online no Facebook, TikTok e Telegram, capazes de dominar o panorama informativo. Mas Jean-Hervé Jezequel, director do projecto Sahel do grupo de reflexão Crisis Group, disse que o desejo da Rússia de expandir a sua presença física é limitado pela falta de oportunidades nos países mais seguros da região.
“A expansão da influência russa na África Ocidental costeira tem sido, até agora, menos impressionante do que no Sahel central,” escreveu num ensaio publicado em Fevereiro para o Carnegie Russia Eurasia Center. “Tal pode reflectir uma limitação estrutural: o apelo da Rússia é mais forte onde a violência e a desordem política abrem portas, e mais fraco onde as instituições políticas permanecem relativamente resilientes.”
Jezequel acredita que a Rússia possa já ter atingido o auge do seu apelo como parceiro de segurança e económico. A sua presença militar não inverteu de forma decisiva a maré do terrorismo no Sahel, e a sua economia de guerra em frangalhos impede-a de oferecer ajuda ao desenvolvimento ou reconstrução em grande escala.
“As campanhas de informação podem ajudar a sustentar a sua imagem, mas não podem substituir resultados concretos no terreno,” escreveu.
Siegle instou os “governos de orientação democrática” nos países costeiros visados pela Rússia, tais como o Benin, a Costa do Marfim, o Gana, a Nigéria e o Senegal, a unirem-se para desmascarar o “Projecto Afrika” do Kremlin.
“Os democratas africanos e os defensores internacionais da estabilidade têm o imperativo de apoiar os países da África Ocidental visados pela desestabilização russa,” escreveu. “Para tal, devem trabalhar colectivamente para desmascarar as narrativas falsas patrocinadas pela Rússia e educar os cidadãos para resistirem ao canto de sereia do autoritarismo. O legado de governos militares na África Ocidental já é suficientemente longo e sombrio.”
