Os grupos terroristas do Sahel estão a expandir o seu alcance e influência, realizando ataques em grande escala em vastas faixas de território nos países liderados por juntas militares — Burquina Faso, Mali e Níger —, enquanto avançam progressivamente sobre os Estados costeiros da África Ocidental. Em muitas áreas, impõem interpretações rigorosas do Islão aos civis e cobram impostos para financiar as suas operações.
Em todo o Mali, os civis são agora obrigados a seguir as regras de vida impostas pelo grupo terrorista Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), um afiliado da al-Qaeda, que está associado a 78% das mortes causadas pela violência islamita militante na região no ano anterior, segundo relatou o Centro de Estudos Estratégicos de África em Abril. Muitas vezes, o JNIM trabalha em estreita colaboração com os combatentes da Frente de Libertação do Azawad.
O JNIM tomou recentemente a cidade de Nioro du Sahel, no oeste do Mali, 441 quilómetros a nordeste de Bamako, a capital. Assumiu o controlo da cidade, situada perto da fronteira com a Mauritânia, após celebrar acordos com líderes locais.
“Há novas regras,” um residente disse à Agence France-Presse (AFP). “Uma mulher não pode ser vista com um homem com quem não seja casada ou com quem não tenha laços de parentesco. Não pode sair sem véu, nem mesmo para os campos.”
O JNIM também cobra impostos de cerca de 10% sobre as colheitas e os rendimentos, alegadamente a título de protecção.
“Sinceramente, a cidade está a morrer,” afirmou o residente anónimo. “Tudo é triste.”
O JNIM impôs um bloqueio de combustível que já dura há meses em Bamako e controla agora tantas áreas que os analistas alertam que o país poderá estar à beira do colapso. Mas as operações do grupo não se limitam ao Mali. O JNIM saqueou e incendiou a cidade de Dourtenga, na região central do Burquina Faso, em Abril. Os residentes locais afirmam que o ataque incutiu medo nas crianças em idade escolar, que se lembram do som das motas a aproximarem-se antes de o ataque ter começado.
“Uma manhã, arrastaram um alfaiate para a praça e açoitaram-no” por ter cigarros na sua loja, um comerciante contou à AFP. “Disseram que era um aviso para todos.”
O JNIM tem explorado a repressão e a violência das forças armadas contra civis no Burquina Faso e no Mali para impulsionar o recrutamento. Na cidade de Farabougou, no centro do Mali, bloqueada pelo JNIM, um residente chamado Aly contou que o grupo age com severidade se as regras forem violadas.
“São violentos quando precisam de punir,” disse à AFP. “Mas, fora isso, são corteses e justos. Não cometem abusos como a gendarmaria.”
O Boko Haram e o grupo Estado Islâmico (EI) também desalojaram comunidades inteiras em toda a região, que agora é considerada o epicentro do terrorismo mundial. Os ataques terroristas em todo o Sahel duplicaram desde 2020, de acordo com o Projecto de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos (ACLED).
“O que antes se concentrava principalmente no norte do Mali espalhou-se por grande parte do Sahel central … e, cada vez mais, para as zonas fronteiriças da África Ocidental costeira,” Heni Nsaibia, analista sénior do ACLED, disse à AFP. Os grupos podem agora operar “em vastos territórios, realizar ataques em grande escala e desafiar cada vez mais o controlo do Estado nas zonas rurais.”
O Estado Islâmico (EI) explora o vazio de segurança criado quando as tropas internacionais abandonaram a região. Opera principalmente na região da tríplice fronteira entre o Burquina Faso, o Mali e o Níger. O EI afirmou que 86% das suas operações globais no início de 2026 ocorreram em África, cerca do dobro do registado no mesmo período de 2024, segundo noticiou a AFP.
Em 2025, a Bacia do Lago Chade registou um aumento de 28% no número de mortos devido à violência de militantes islamitas em relação ao ano anterior, segundo informou o Africa Center em Abril. Isso deveu-se principalmente aos ataques do Boko Haram e do Estado Islâmico na Província da África Ocidental (ISWAP) no nordeste da Nigéria.
O Boko Haram opera de forma semelhante ao JNIM e ao Estado Islâmico. No Estado de Borno, na Nigéria, nas margens do Lago Chade, os líderes locais também fizeram acordos para permitir que os terroristas operassem, enquanto os residentes afirmam que os agricultores têm medo de cuidar dos seus campos por receio de serem raptados ou mortos. Um camionista chamado Goni disse que perdeu todos os seus camiões em ataques terroristas. Outrora, transportava regularmente mercadorias entre a cidade de Maiduguri e os Camarões vizinhos, mas todos os seus camiões foram incendiados.
“A situação tem vindo a piorar cada vez mais para mim e para a minha família ao longo do último ano, devido a um aumento dos ataques do Boko Haram,” Goni disse à AFP.
Um ataque ocorrido em Abril no Estado de Adamawa, no nordeste da Nigéria, na fronteira com os Camarões, matou pelo menos 29 pessoas num campo de futebol. O ISWAP reivindicou a autoria do ataque.
As vítimas eram “jovens, incluindo algumas mulheres que estavam a assistir a um jogo de futebol,” o residente Joshua Usman disse à AFP. “Eles também incendiaram locais de culto, casas e motociclos.”
