Daniel Uyirwoth Welo, vestido com equipamento de protecção de corpo inteiro, pode ser visto num vídeo viral recente a correr para salvar a sua vida quando uma multidão num cemitério se tornou violenta durante o enterro de uma vítima do Ébola. Ele foi um dos quatro voluntários da Cruz Vermelha que ficaram feridos no ataque de Junho na cidade de Bunia, na República Democrática do Congo. O ataque foi desencadeado por rumores de que o caixão estava vazio.
“Agarraram-me por trás e começaram a dar-me socos, a bater-me com pás e catanas,” contou à BBC para um artigo de 9 de Julho, recordando como as pessoas na multidão diziam: “O Ébola não existe,” enquanto outras afirmavam que os trabalhadores humanitários estavam ali “para ganhar dinheiro.”
O ataque foi um dos vários incidentes ligados a informações falsas desde que a RDC declarou o surto, no dia 8 de Maio. O medo e a desconfiança em relação às organizações externas espalharam-se pelas comunidades nas províncias orientais. Em Maio, manifestantes incendiaram um centro de tratamento, uma das pelo menos uma dezena de instalações que foram atacadas.
Os profissionais de saúde e as organizações humanitárias afirmam que a disseminação de informações falsas, tanto a nível local como online, dificulta os seus esforços para conter o vírus. Entretanto, a doença mortal continua a alastrar-se. Com mais de 1.500 mortes até ao final de Julho, o surto tornou-se o segundo mais mortífero da história da RDC e o que cresce mais rapidamente de que há registo.
Num comunicado de 5 de Junho, a Cruz Vermelha manifestou-se chocada com o ataque em Bunia, no qual dois dos quatro voluntários feridos ficaram tão gravemente feridos que tiveram de ser transportados por via aérea para a capital, Kinshasa, para receberem tratamento.
“Reconhecemos o medo, a incerteza e a frustração sentidos por muitas pessoas,” afirmou a Cruz Vermelha. “Construir confiança e manter o diálogo com as comunidades, através do envolvimento comunitário, continuam a ser essenciais para controlar o surto. Os ataques contra voluntários não só põem vidas em perigo, como também comprometem os esforços para conter o surto e proteger as comunidades.”
Nas redes sociais, têm circulado rapidamente alegações falsas, incluindo afirmações de que o Ébola não é real, de que os profissionais de saúde estão a infectar deliberadamente as pessoas ou de que a resposta humanitária é um esquema para ganhar dinheiro. Segundo relatos, os médicos têm recorrido à desmistificação dessas alegações na plataforma WhatsApp, que alberga grupos centrados no leste da RDC, alguns dos quais com milhares de membros.
“Nesta era das redes sociais, a informação espalha-se rapidamente,” Mohammed Saani Yakubu, director da ActionAid na RDC, disse ao The Wall Street Journal para um artigo de 16 de Julho. “Num espaço de tempo muito curto, estas notas de voz circulam por grupos inteiros do WhatsApp. São muito prejudiciais.”
O porta-voz da Cruz Vermelha, Alex Lock, disse que os ataques prejudicam os esforços de contenção e colocam os membros da comunidade em maior risco.
“Um colega imobilizado significa uma redução directa na capacidade de resposta,” disse ao The Guardian numa reportagem de 10 de Julho. “Isso prejudica a nossa eficácia operacional e não beneficia ninguém, nem a comunidade necessitada nem aqueles de nós que trabalham incansavelmente para os apoiar na contenção e erradicação do vírus.”
Numa conferência de imprensa a 30 de Julho, o director-geral do Centro Africano de Controlo e Prevenção de Doenças, Jean Kaseya, disse que os líderes comunitários devem ser mobilizados para ajudar a prevenir ataques contra profissionais de saúde, garantir enterros seguros e incentivar os contactos dos casos a apresentarem-se para acompanhamento.
“Precisamos de repensar a forma como trabalhamos com a comunidade se quisermos realmente travar este surto,” recomendou. “Não há solução mágica, a menos que trabalhemos verdadeiramente com as comunidades.”
