À medida que o surto de Ébola na República Democrática do Congo se tornava um dos mais mortíferos de que há registo, as autoridades do vizinho Uganda recorreram a uma série de tácticas para manter o vírus sob controlo.
Até ao momento, as medidas têm dado frutos. No dia 16 de Julho, o Uganda iniciou uma contagem decrescente de 42 dias até que o surto seja oficialmente declarado erradicado dentro das suas fronteiras. A Organização Mundial de Saúde (OMS) exige que os países completem dois períodos de incubação consecutivos de 21 dias sem registarem novos casos antes de declarar o fim de um surto. No entanto, as condições não são as mesmas na República Democrática do Congo.
A RDC registou 2.073 casos confirmados da rara estirpe Bundibugyo até 14 de Julho, de acordo com um relatório do Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças. Desses, 796 tinham falecido. O Uganda registou 20 casos confirmados, com duas mortes, desde o início do surto.
O Uganda tem sido, há muito, um líder no combate ao Ébola. Registou o seu primeiro surto em 2000 e, desde então, tem enfrentado vários outros. O Instituto de Investigação Virológica do Uganda (UVRI), em Entebbe, tem ajudado o país a descobrir, isolar e responder a várias doenças, tais como a chikungunya, a febre do Nilo Ocidental e a febre de Bwamba.
Quando o Ébola atingiu a África Ocidental, a União Africana recorreu ao Major-General Julius Facki Oketta, do Uganda, antigo director do Centro Nacional de Coordenação e Operações de Emergência do Uganda, para liderar a sua resposta multinacional, o Apoio da UA ao Surto de Ébola na África Ocidental, conhecido como ASEOWA. Profissionais de saúde integraram as unidades de tratamento nas áreas afectadas.
As medidas tomadas pelo Uganda no actual surto suscitaram uma mistura de elogios e críticas. No final de Maio, o Ministério da Saúde descentralizou a realização de testes, transferindo-os do UVRI para laboratórios regionais em Arua, Fort Portal, Gulu, Mbale e Mbarara. Esta medida permitiu que os resultados dos testes fossem obtidos em horas, em vez de dias.
Esta medida ajuda as autoridades a “detectar, isolar e tratar os casos de Ébola na fase mais precoce possível,” segundo o ministério, o que acelera a capacidade das autoridades de rastrear os contactos das pessoas infectadas. O Ébola transmite-se através do contacto directo com os fluidos corporais de pessoas infectadas. Certas práticas funerárias tradicionais, como a lavagem dos corpos dos entes queridos, podem levar à infecção.
O Centro de Investigação e Política em Doenças Infecciosas da Universidade do Minnesota informou, a 10 de Julho, que o surto na RDC é o terceiro maior de que há registo e poderá ultrapassar a pandemia de Ébola na África Ocidental de 2014-2016, que causou a morte de 11.325 pessoas, principalmente na Guiné, na Libéria e na Serra Leoa. A RDC registou 1.596 casos nas primeiras seis semanas do actual surto. Apenas 994 casos tinham sido registados durante o mesmo período na África Ocidental, em 2014.
As autoridades ugandesas têm trabalhado de forma enérgica para travar a propagação do vírus. O presidente Yoweri Museveni e outros líderes governamentais delinearam várias medidas numa reunião realizada a 10 de Junho, em Entebbe, com o director-geral da OMS, o Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus. Uma delas foi a decisão do governo de cancelar a celebração do Dia dos Mártires do Uganda, a 3 de Junho, no Santuário dos Mártires de Namugongo. Este evento festivo anual atrai mais de 3 milhões de pessoas do Uganda e de outros países e poderia ter sido um “evento superpropagador,” afirmou Tedros.
A Dr.ª Diana Atwine, secretária permanente do Ministério da Saúde do Uganda, informou aos participantes da reunião que o ministério identificou quatro locais no interior da RDC para a instalação de acampamentos médicos destinados a apoiar a gestão de casos de Ébola. O objectivo, segundo ela, era reduzir o número de doentes que atravessam a fronteira para o Uganda em busca de tratamento.
“Até ao momento, enviámos 50 profissionais de saúde com quatro laboratórios, que foram instalados em quatro locais diferentes,” o Ministro da Saúde do Uganda, o Dr. Chris Baryomunsi, disse ao jornal britânico The Guardian, numa reportagem de 16 de Julho. “Acordámos que, caso necessitem de recursos humanos adicionais, enviaremos mais, dependendo da evolução da situação.”
As incursões transfronteiriças provenientes da RDC são motivo de particular preocupação. O Dr. Daniel Kyabayinze, director de saúde pública do Uganda, disse ao The Wall Street Journal que o seu país tinha encerrado os postos fronteiriços com a RDC. O Centro Africano de Controlo e Prevenção de Doenças (Africa CDC) opõe-se às proibições de viagem e ao encerramento de fronteiras, alegando que a experiência demonstra que essas tácticas têm poucos benefícios. Em vez disso, os países devem melhorar os rastreios e a vigilância da doença.
“Estar preparado reduzirá o risco de propagação local do vírus no caso de um caso importado,” Salim Abdool Karim, presidente do Grupo Consultivo de Emergência do Africa CDC, disse num comunicado de imprensa. “A preparação reforça a confiança na resposta local e reduz a ansiedade e a preocupação da comunidade que, muitas vezes, se seguem à descoberta de um caso importado da doença do Ébola.”
O Uganda proibiu ajuntamentos e eventos públicos e deportou cidadãos congoleses que atravessaram a fronteira. As autoridades também enviaram profissionais de saúde com megafones para aconselhar os cidadãos a evitarem abraços e apertos de mão, segundo noticiou o Journal. Museveni dirige-se regularmente à nação pela televisão para promover a higiene. “Temos de pôr fim aos comportamentos descuidados,” afirmou, segundo o Journal. “Por que é que apertam as mãos? Basta acenar.”
