O Chade restabeleceu as suas relações militares com a França quase 18 meses depois de ter exigido que as forças francesas abandonassem o país, no âmbito de um diferendo sobre a partilha de informações na Bacia do Lago Chade.
As tropas francesas regressaram ao Chade em Abril, com foco no treino, na recolha de informações e em destacamentos limitados. Esta medida visa responder às necessidades do Chade, que enfrenta o Boko Haram e o Estado Islâmico na Província da África Ocidental na região do Lago do Chade, bem como potenciais problemas de segurança ao longo da sua fronteira oriental com o Sudão.
“Os observadores chadianos consideram que esta reaproximação reflecte um desejo mútuo de preservar os canais de cooperação militar e de segurança, tendo simultaneamente em conta as mudanças políticas e regionais que redefiniram a natureza das relações entre a França e vários Estados do Sahel nos últimos anos,” o analista Hassan Yusuf Zarma escreveu recentemente para o The Brown Land, um site de notícias sudanês independente.
Nos termos do acordo, a França não tem planos para estabelecer bases militares permanentes no Chade.
“A França está a tentar restabelecer a cooperação militar com o Chade, mas não no formato anterior,” o analista Aleksander Olech escreveu para o Defense24. “Não se trata de um regresso total da França ao Chade. É uma tentativa cautelosa de regressar pela porta das traseiras, com menos soldados, menos visibilidade e maior dependência do consentimento político do Chade.”
As autoridades chadianas expulsaram 1.000 soldados franceses em Janeiro de 2025, à medida que o sentimento antifrancês se espalhava pelo Sahel. A saída pôs fim a 65 anos de presença militar francesa no país. Na altura, as autoridades francesas afirmaram que a mudança não significava o fim da cooperação militar com o Chade.
A viragem contra a França foi alimentada, em parte, pela propaganda russa, segundo analistas. Após a saída da França, o Chade recorreu à Rússia, à Turquia e aos Emirados Árabes Unidos (EAU) em busca de assistência, mas rapidamente se deparou com problemas com os três países, segundo o jornal francês Le Monde.
A incapacidade dos mercenários do Africa Corps da Rússia de subjugar os insurgentes no Mali dissuadiu os líderes chadianos de colaborar com eles. Os drones de ataque turcos ANKA-S e Aksungur, fornecidos pela Turkish Aerospace Industries em 2024, revelaram-se demasiado caros para o Chade operar. O apoio dos EAU às Forças de Apoio Rápido (RSF) do Sudão, que incluiu o abastecimento da milícia paramilitar através de um aeroporto em território chadiano, tornou-os um parceiro pouco atraente. Os EAU negam apoiar as RSF.
À medida que a França regressa ao Chade, a primeira área de cooperação será provavelmente o apoio aéreo, segundo Olech.
“Desde a saída dos franceses, o Chade tem enfrentado dificuldades com a evacuação médica rápida, o apoio aéreo às forças terrestres e a recolha de informações. Estas são exactamente as áreas em que a assistência francesa era anteriormente importante,” escreveu Olech.
Para além do treino, dos exercícios e do apoio à recolha de informações, a França e o Chade têm discutido a possibilidade de as forças armadas chadianas adquirirem helicópteros e aeronaves francesas.
O acordo revisto poderá dar à França a capacidade de conduzir operações aéreas a partir da sua antiga base Sargento Adji Kosseï, na capital do Chade, N’Djamena. Adji Kosseï foi a última base francesa entregue ao Chade no âmbito da retirada de 2025.
“Isso daria a Paris um ponto de apoio útil na África Central sem reproduzir o antigo modelo de base que se tornou politicamente tóxico no Sahel,” escreveu Olech.
