O grupo terrorista Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), afiliado à al-Qaeda, atacou, a 18 de Junho, o Aeroporto Internacional Diori Hamani, em Niamey, capital do Níger, matando 11 soldados e dois civis.
Testemunhas relataram tiros e explosões durante o confronto com as forças de segurança. As autoridades afirmaram ter matado 22 terroristas.
O aeroporto é um centro estratégico que alberga bases militares, o quartel-general da Força Conjunta Níger-Burquina Faso-Mali e uma reserva de urânio. O rival do JNIM, o Estado Islâmico na Província do Sahel (ISSP), atacou uma base militar perto do aeroporto no final de Janeiro. As autoridades afirmaram que os soldados mataram 20 terroristas e detiveram outros 20. O ataque feriu quatro soldados e danificou uma aeronave.
Os ataques no Níger e outros assaltos recentes a centros urbanos do Sahel demonstram a capacidade de ambos os grupos para lançarem operações complexas para além das áreas rurais e carenciadas que historicamente têm aterrorizado. Sabe-se que ambos os grupos atacam civis, forças estatais e mercenários do Africa Corps da Rússia. Além disso, combatem-se entre si.
O JNIM é considerado o grupo terrorista dominante no Sahel. No ano passado, iniciou um cerco a Bamako, a capital do Mali, bloqueando as principais estradas e atacando colunas de combustível, o que provocou uma escassez significativa de combustível e cortes de energia. Os especialistas afirmam que a estratégia consiste numa guerra económica destinada a perturbar a vida na capital e a minar a confiança na junta governante.
Em Abril, o JNIM e o grupo rebelde Frente de Libertação do Azawad (FLA) lançaram ataques coordenados contra várias cidades e vilas malianas, incluindo Bamako; Gao, que foi parcialmente tomada; e Kidal, que os grupos conquistaram.
“O facto de a coligação do JNIM ter como alvo as principais rotas comerciais e os camiões de combustível visa cortar Bamako das suas linhas de abastecimento, ao mesmo tempo que afirma o controlo sobre os centros populacionais e as regiões adjacentes à capital,” o analista Daniel Eizenga escreveu para o Centro de Estudos Estratégicos de África. “Sem combustível, matérias-primas e outros bens, as famílias e as empresas nas regiões mais populosas do país enfrentarão dificuldades crescentes. Isso reproduz uma estratégia de cerco semelhante observada no Burquina Faso.”
O JNIM e a FLA deram seguimento aos ataques de Abril com uma ofensiva no início de Julho que teve como alvo várias posições militares e pró-governamentais nas cidades de Anefis, Aguelhoc e Gao, no norte, em Sévaré, no centro do Mali, e em Kenioroba, a sul de Bamako.
Daniele Garofalo, especialista em terrorismo e contra-insurgência no Sahel, considera que estes ataques recentes indicam que as estratégias de combate do JNIM estão a evoluir.
“A organização está a evoluir de um movimento insurgente predominantemente rural para um actor armado híbrido, capaz de integrar a guerra de guerrilha, assaltos coordenados em grande escala, operações com recurso a drones, comunicação estratégica, governação local e influência cognitiva numa abordagem operacional coerente,” Garofalo disse à ADF num e-mail.
O ISSP também está a aperfeiçoar as suas tácticas militares através de meios assimétricos, o analista Wassim Nasr escreveu para o The Soufan Center. Em Fevereiro de 2026, o grupo utilizou um carro-bomba suicida para atacar as forças malianas e russas em Ménaka, no Mali. O ISSP e o JNIM disputaram o controlo da região de Ménaka antes de o JNIM abandonar a luta em 2023.
O ISSP atacou Ménaka na sequência dos assaltos do JNIM-FLA em Abril. O ISSP controla agora a maior parte do território de Ménaka, na fronteira com o Níger, onde o grupo tem raptado viajantes estrangeiros, mineiros e camionistas.
Devido a um aumento dos ataques do ISSP e do JNIM, a região ocidental de Tillabéri, no Níger, emergiu no ano passado como a zona mais mortífera do Sahel central para os civis. De acordo com o Projecto de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos (ACLED), mais de 1.200 das 1.939 mortes violentas registadas no Níger no ano passado ocorreram em Tillabéri. O ISSP foi responsável pelo maior número de vítimas mortais em ataques contra civis.
Os combates entre o ISSP e o JNIM têm sido esporádicos desde 2019.
“O Níger é um território de rivalidade entre eles,” Nasr disse à The Associated Press. “Se o JNIM perder a vantagem no Níger face ao Estado Islâmico, isso comprometerá a sua vantagem no Mali e no Burquina Faso. … Trata-se de um espaço aberto, como o Velho Oeste, onde cada um procura marcar o seu território.”
No início de Abril, o ISSP atacou uma posição do JNIM na região de Tillabéri. O ISSP afirmou ter matado 35 membros do JNIM em retaliação a um ataque deste último. Héni Nsaibia, analista sénior do ACLED para a África Ocidental, disse que a violência entre os dois grupos sublinha a falta de controlo estatal em grande parte do Sahel.
“Esta competição irá provavelmente continuar a alimentar o recrutamento, a expansão e a violência, tornando a insurgência jihadista cada vez mais difícil de conter,” Nsaibia disse à Reuters.
