Nas escolas ilegais de formação em crime cibernético da Nigéria, conhecidas como “hustle kingdoms,” não há fechaduras nas portas. No entanto, os jovens que são coagidos a uma vida de fraude online não saem.
São mantidos no local por algo mais duradouro do que uma fechadura e mais difícil de quebrar do que uma corrente. São mantidos por juramentos de macumba, uma prática ligada à espiritualidade tradicional da África Ocidental.
A macumba é normalmente utilizada como forma de protecção. No entanto, os operadores dos “hustle kingdoms,” conhecidos como “chairmen,” transformaram-no numa arma. Dizem às suas vítimas que quebrar um juramento de macumba, ao abandonarem o “hustle kingdom” ou ao denunciarem o que lá acontece, ameaçaria os seus espíritos e os dos seus familiares.
O resultado é uma forma de aprisionamento conhecida como impossibilidade de fuga, segundo o investigador Suleman Lazarus, que estuda os “hustle kingdoms” na Nigéria e no Gana.
“As ameaças espirituais têm um peso coercivo porque o sistema de crenças que as anima é amplamente partilhado,” Lazarus escreveu num relatório recente, em co-autoria com os investigadores Adebayo Benedict Soares e Mark Button, publicado pelo Taylor & Francis Group do Reino Unido.
“Os espíritos ancestrais são entendidos como agentes espirituais influentes,” escreveram os investigadores. “Acredita-se que sejam omniscientes e que nenhum infractor escape à sua vigilância. Em contextos em que o dano espiritual tem significado social, tais ameaças funcionam como uma tecnologia coerciva, mesmo na ausência de algemas.”
Lazarus estudou um incidente em que a Comissão de Crimes Económicos e Financeiros da Nigéria condenou pessoas envolvidas num “hustle kingdom.” Embora as vítimas de um “hustle kingdom,” muitas vezes, sejam vistas como participantes voluntárias, a coacção que sentem não é muito diferente das operações do crime cibernético na Ásia, onde as pessoas são mantidas sob vigilância, segundo Lazarus.
“A coacção física é visível: portas trancadas, guardas armados, documentos confiscados,” Lazarus escreveu recentemente para o The Conversation. “A coacção espiritual ou psicológica é invisível: o medo de consequências que ninguém consegue ver, mas em que muitos acreditam. Uma restringe o corpo. A outra restringe a mente. O resultado é o mesmo.”
Os esquemas fraudulentos online custam às vítimas cerca de 3 bilhões de dólares em toda a África e representam 30% de toda a criminalidade na África Ocidental, de acordo com uma análise recente da Interpol. Os esquemas fraudulentos, muitas vezes, envolvem e-mails que oferecem investimentos falsos em criptomoedas, esquemas românticos que levam as pessoas a fornecer informações bancárias e pessoais, e ameaças de extorsão sexual que utilizam imagens explícitas reais ou geradas por IA para forçar as vítimas a pagar.
Os autores dos esquemas, conhecidos como Sakawa Boys no Gana e Yahoo Boys na Nigéria, normalmente são jovens no final da adolescência e na casa dos 20 anos, à procura de trabalho ou formação em países com elevadas taxas de desemprego juvenil. Muitos “hustle kingdoms” promovem-se como academias gratuitas que ensinam competências online, apenas para atrair as suas vítimas para o crime, segundo Lazarus.
“A pobreza, o desemprego juvenil e a ausência de sistemas de segurança social são o terreno fértil em que estas escolas crescem,” acrescentou. “Estes mecanismos [dos “hustle kingdoms”] geraram medo, dependência e autonomia restrita, sem qualquer restrição visível e consistente.”
Controlar os “hustle kingdoms” é complicado porque operam na clandestinidade e ameaçam os seus trabalhadores. As abordagens legais variam. A Nigéria, por exemplo, reprime os “hustle kingdoms,” mas o Gana tende a ser mais indulgente, segundo Lazarus.
Os criminosos cibernéticos nigerianos mudam-se para o Gana para explorar a diferença na aplicação da lei. Como resultado, as autoridades enfrentam grandes dificuldades para encerrar os “hustle kingdoms,” segundo Lazarus.
“A ausência de mais casos levados a tribunal reflecte lacunas na aplicação da lei, não a escassez do fenómeno em si,” escreveu.
