As Nações Unidas alcançaram um marco histórico com a transferência de sete bases militares na República Centro-Africana para o governo local e as forças de segurança.
Durante uma cerimónia de 10 de Junho em Mbaïki, Valentine Rugwabiza, chefe da Missão da ONU na República Centro-Africana (MINUSCA), disse que a transferência vai muito além dos edifícios físicos.
“Estamos a transferir as tarefas desempenhadas pela MINUSCA para as autoridades nacionais nas zonas,” afirmou. Isso, acrescentou, inclui “garantir a segurança, proteger os civis, apoiar as autoridades civis e fazer a manutenção das vias de acesso.”
A MINUSCA foi criada em 2014, durante uma crise que deixou grande parte da RCA nas mãos de grupos rebeldes e obrigou centenas de milhares de civis a fugir para países vizinhos. A missão de manutenção da paz conta com 16.000 membros uniformizados e tem supervisionado a implementação de um acordo de paz assinado por 14 grupos rebeldes e pelo governo. Um processo de desarmamento levou mais de 5.000 combatentes a depor as armas e a começar a regressar à vida civil.
A realização pacífica de eleições nacionais em Dezembro de 2025 foi aclamada como um marco importante para o país.
A MINUSCA está agora a trabalhar para reduzir a sua presença no terreno. Das cerca de 100 bases, 21 foram encerradas este ano, e a missão planeia transferir mais 27 para as autoridades da RCA até ao final de 2026, segundo noticiou a emissora Radio France Internationale (RFI). A MINUSCA enfrenta também cortes orçamentais de 15%.
Mas Rugwabiza insistiu que as forças de manutenção da paz continuarão o seu trabalho. A ONU afirmou que a sua futura presença no país dará prioridade à “mobilidade,” com mais forças de manutenção da paz em patrulhas de longo alcance e uma capacidade reforçada de destacamento rápido.
“Passar o testemunho não significa a saída da MINUSCA,” referiu. “Reestruturar não significa ausência.”
Alguns civis manifestaram preocupação com a saída das forças de manutenção da paz de locais distantes da capital nacional, onde estão vulneráveis a ataques por parte de grupos armados.
“Durante uma década, a presença da ONU tranquilizou-nos,” Yowan Mambissi, um residente de Mbaïki, disse à RFI. “Pedimos às forças de segurança que assumam rapidamente o controlo, o que é ainda mais importante visto que, nos últimos dias, assistimos a um ressurgimento de actos de banditismo que têm de cessar.”
Grupos de defesa de direitos humanos alertam que o país continua a correr um grave risco devido aos confrontos internos entre grupos rebeldes e às repercussões da guerra civil que se trava no vizinho Sudão. No dia 30 de Junho, combatentes das Forças de Apoio Rápido do Sudão e aliados do grupo rebelde Seleka da RCA atacaram uma base da MINUSCA perto da fronteira, em Am Dafock. Cerca de 16.000 pessoas deslocadas tinham-se reunido na base em busca de protecção. O ataque causou a morte de pelo menos três pessoas e feriu três membros da força de paz da ONU, originários da Zâmbia.
Existem também sérias dúvidas quanto à capacidade das Forças Armadas da RCA (FACA) de assumir as responsabilidades de segurança. As FACA têm sido criticadas por violações de direitos humanos, bem como pela sua relação estreita com mercenários russos e membros de certos grupos rebeldes.
Na cerimónia de transferência em Mbaïki, os cidadãos manifestaram cepticismo e receio quanto ao que viria a substituir a força da ONU.
“O apelo que gostaria de fazer às autoridades é para que zelem por nós,” Ulrich Mambaye, um residente de Mbaïki, disse à France 24. “Se não fizerem um esforço para enviar forças armadas aqui para Mbaïki, continuaremos sempre a sofrer.”
Durante o seu discurso, Rugwabiza assumiu um tom optimista e destacou os avanços significativos, mas frágeis, que estão a ser alcançados no país.
“A República Centro-Africana fez progressos notáveis e tangíveis no sentido de uma paz e uma segurança duradouras,” explicou Rugwabiza. “Estes avanços têm agora de ser preservados e consolidados.”
