A Rússia trava uma guerra contra a Ucrânia por mais de quatro anos, sem que se vislumbre um fim. Mas os especialistas afirmam que, quando os combates terminarem, armas e soldados com experiência em guerra com drones poderão inundar as zonas de conflito em todo o mundo.
Os investigadores Will Brown e Lena Krause, do Conselho Europeu de Relações Exteriores, alertam que um enorme stock de armas e de empresas militares com experiência de combate chegará aos mercados globais e provavelmente acabará no continente africano.
“Se a história servir de referência, os países africanos absorverão uma quantidade considerável deste excedente, aumentando significativamente o risco e a intensidade dos conflitos no continente,” escreveram num artigo de 15 de Junho.
Referiram ainda que o Kremlin enganou, coagiu e recrutou um grande número de combatentes africanos com experiência de combate: “Uma série de relatórios recentes revelou redes de tráfico que levam milhares de homens e mulheres africanos para posições na linha da frente ou para condições semelhantes à escravatura em fábricas de armamento russas. Muitas destas pessoas acabarão por regressar a casa.”
James Njogu Wangui analisou e escreveu sobre este assunto no seu país natal, o Uganda, onde é advogado no Tribunal Supremo. Ele está particularmente preocupado com os seus concidadãos, dos quais cerca de 100 foram destacados para a linha da frente na Ucrânia. Njogu considera-os vítimas de redes russas de tráfico de seres humanos e dos horrores da guerra.
“Os países africanos poderão enfrentar desafios de segurança significativos assim que o conflito terminar, se os combatentes que regressam não forem reintegrados com sucesso na vida civil ou absorvidos por empregos legítimos,” disse à ADF numa correspondência escrita. “A história mostra que os conflitos, muitas vezes, produzem veteranos com experiência avançada em combate que, se ficarem desempregados e sem apoio, podem tornar-se vulneráveis ao recrutamento por redes criminosas, grupos insurgentes ou actores militares privados.”
Os combatentes que regressam podem ter adquirido conhecimentos especializados na construção e utilização de drones, guerra electrónica, alvos de precisão, comunicações encriptadas e informações recolhidas através de tecnologias digitais.
“Estas são capacidades que permanecem relativamente limitadas nas forças armadas de muitos Estados africanos,” explicou Njogu. “Consequentemente, os combatentes que regressam podem possuir competências operacionais que excedem as das instituições de segurança locais em determinadas áreas especializadas.”
A história oferece paralelos e lições infelizes, segundo Brown e Krause. As redes de armas ilícitas expandiram-se pelas zonas de conflito africanas após a queda da União Soviética, enquanto combatentes altamente treinados da África do Sul e da Rodésia procuravam outras oportunidades na sequência do fim dos conflitos internos nos seus países.
“Ex-soldados passaram a participar activamente em conflitos e tentativas de golpe de Estado em todo o continente, nomeadamente através de empresas militares privadas como a sul-africana Executive Outcomes,” escreveram os investigadores.
A Rússia tem uma presença militar considerável no continente, sob a forma de milhares de mercenários do Grupo Wagner e do seu sucessor, agora com nova designação, o Africa Corps. Esses números poderão disparar após o fim da guerra na Ucrânia.
“O presidente Vladimir Putin, que já sobreviveu a um motim armado (liderado pelo falecido chefe do Grupo Wagner, Yevgeny Prigozhin, em Junho de 2023), pode ver vantagens em manter um grande número de combatentes desmobilizados e contratados militares ocupados no estrangeiro, em vez de lhes permitir regressar a casa em massa,” sugeriram Brown e Krause.
No que diz respeito aos combatentes africanos que poderão um dia regressar a casa após a guerra na Ucrânia, Njogu adverte que alguns terão adoptado ideologias políticas e militares extremistas, moldadas pelas suas experiências durante a guerra.
“Mesmo um número relativamente pequeno de indivíduos altamente treinados e ideologicamente motivados poderá ter um impacto desproporcional em Estados frágeis,” disse. “Mas estes riscos não são inevitáveis. A sua gravidade dependerá do número de combatentes que regressarem, da eficácia dos controlos nas fronteiras, da disponibilidade de programas de reintegração e emprego, da capacidade das agências de informações e das forças da ordem, e da vontade dos governos africanos de coordenarem a nível regional.”
