Em partes do mundo como a Ucrânia, Mianmar e o Japão, o governo chinês tem sido acusado de recorrer a uma “diplomacia de duas caras.” Trata-se de uma estratégia que consiste em prometer publicamente paz, cooperação económica e estabilidade regional, enquanto posiciona agressivamente as suas forças armadas e toma medidas que alimentam a violência.
Existem também exemplos em África, onde as posições oficiais de Pequim estão em contradição directa com as suas acções. Na guerra civil do Sudão, a China afirma procurar a paz na qualidade de potencial mediador. Mas essa posição contrasta fortemente com a proliferação de armas fabricadas pelas suas empresas estatais, que prolongam o conflito ao abastecer ambos os lados.
O analista geopolítico Samir Bhattacharya afirma que a diplomacia de duas caras da China está em acção na República Democrática do Congo, onde estabeleceu uma parceria com o governo, mantendo simultaneamente laços económicos e de defesa com o Ruanda e o Uganda. Peritos independentes das Nações Unidas acusam ambos os países africanos de apoiarem a insurgência do M23 na RDC.
“As crescentes actividades militares e da indústria de defesa de Pequim na região sinalizam uma viragem estreita e oportunista que corre o risco de alimentar ainda mais a instabilidade,” Bhattacharya, investigador associado da Observer Research Foundation, escreveu num ensaio de 11 de Maio. “Esta diplomacia de duas caras — concebida para proteger investimentos e reforçar a influência — corre o risco de, em última análise, minar os próprios investimentos que procura garantir.”
Os principais interesses da China na RDC são de natureza económica. Empresas estreitamente ligadas a Pequim controlam a maioria das minas de cobalto, coltan, cobre e urânio, e as forças armadas congolesas têm sido repetidamente destacadas para locais de exploração mineira no leste, a fim de proteger os activos chineses.
No leste, os combates mortíferos em curso na RDC com os rebeldes do M23 contam com drones e armamento chinês em ambos os lados, enquanto a RDC, o Ruanda e o Uganda adquiriram quantidades significativas de armas chinesas.
“[A China] tem apoiado programas de formação para o pessoal de segurança congolês, prestado assistência logística e incentivado o destacamento de tropas locais para proteger as instalações mineiras operadas por chineses,” escreveu Bhattacharya. “Esta abordagem permite a Pequim salvaguardar os seus interesses, mantendo simultaneamente a imagem de um país que adere à não-intervenção como política oficial.”
Os especialistas afirmam que, ao manter laços de segurança simultaneamente com a RDC e os seus rivais, a China está a prolongar o conflito, enquanto alega procurar a paz. Nos últimos anos, a Norinco, o maior fornecedor de armas da China, e outras empresas chinesas venderam sistemas de artilharia e outras armas ao Ruanda. Entretanto, a RDC adquiriu o seu primeiro lote de três sistemas de drones de ataque CH-4 à China Aerospace Science and Technology Corp. em 2024.
“Por um lado, a China procura a estabilidade na RDC para proteger os seus avultados investimentos na indústria mineira,” escreveu Bhattacharya. “Por outro lado, o seu envolvimento contínuo com os Estados vizinhos limita a sua disposição para assumir uma posição definitiva em disputas regionais. O resultado é uma forma de ambiguidade estratégica que preserva o acesso e a influência, mas que também pode limitar os esforços de resolução de conflitos.”
