Algumas semanas depois de os combatentes Tuaregues terem expulsado o Exército do Mali e os seus apoiantes russos da cidade de Kidal, no norte, centenas de esferas metálicas do tamanho de laranjas choveram sobre a comunidade vizinha de Tadjmart.
O Exército do Mali anunciou em breve o que os residentes de Tadjmart rapidamente descobriram: as forças armadas lançaram bombas de fragmentação contra comunidades na região norte controlada pela Frente de Libertação do Azawad (FLA).
O ataque a Tadjmart ocorreu após um ataque semelhante, alguns dias antes, na comunidade de Oubder, na região de Tombuctu.
“Esta é a primeira vez que vemos estas bombas de fragmentação,” Tilla Ag Zeini, secretário-geral do Colectivo para a Defesa dos Direitos do Povo de Azawad/Norte do Mali (CD-DPA), disse à Radio France International (RFI).
“É perigoso para civis e para crianças que possam brincar com elas ou tocá-las. Pode ser mortal,” acrescentou Ag Zeini. “Pastores e outras pessoas que não sabem com o que estão a lidar também podem tornar-se vítimas.”
O Mali está entre os mais de 100 países que aderiram à Convenção sobre Munições de Dispersão, também conhecida como Convenção de Oslo, que proíbe as bombas de fragmentação devido ao risco que representam para os civis. A Rússia não faz parte do acordo.
“Mesmo que tenham sido as forças russas aliadas a realizar o bombardeamento, o facto de as FAMa terem reivindicado a responsabilidade por estes ataques numa declaração oficial pode ser considerado uma violação da convenção,” Julien Antouly, especialista em direito internacional humanitário, disse à RFI.
Testemunhas em Oubder e Tadjmart publicaram imagens nas redes sociais que especialistas dos grupos de investigação online Bellingcat e Jeune Afrique identificaram como submunições ShOAB-0.5 de fabrico russo contidas numa arma russa RBK-500. Uma única RBK-500 pode lançar cerca de 565 destas bombas.
As bombas foram provavelmente lançadas por um bombardeiro russo Su-24 pertencente ao Africa Corps, de acordo com a RFI. O Africa Corps é uma empresa militar privada controlada pelo governo russo que substituiu os mercenários do Grupo Wagner em 2025.
Um vídeo publicado no X a 17 de Maio mostra uma pessoa a manusear partes de uma submunição não detonada com o texto “Os azawadianos não fabricam armas; pelo contrário, desmantelam-nas!”
O bombardeamento em Oubder matou uma criança de 7 anos e feriu três mulheres, enquanto os residentes examinavam os objectos misteriosos que se espalhavam pela sua comunidade. Foi a primeira utilização de bombas de fragmentação contra civis registada desde que os combatentes russos chegaram ao Mali.
O ataque a Oubder, durante a noite de 16 para 17 de Maio, ocorreu cerca de três semanas depois de uma força conjunta de combatentes da FLA e da Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) ter expulsado soldados malianos e mercenários russos de Kidal.
Oubder foi o primeiro ataque com bombas de fragmentação das forças armadas malianas contra a FLA e a JNIM, marcando uma escalada da campanha da junta governante para assumir o controlo da região norte do Mali. Em Janeiro de 2024, a junta abandonou o acordo de paz de 2015, conhecido como Acordo de Argel, que tinha concedido aos Tuaregues maior controlo sobre a região de Kidal.
A escalada em Kidal ecoou o uso de bombas de fragmentação e bombas-barril pelo governo sírio, apoiado pela Rússia, contra rebeldes naquele país. A Rede Síria para os Direitos Humanos condenou as bombas-barril como “armas rudimentares e indiscriminadas” que não conseguem distinguir entre alvos civis e militares.
A junta maliana descreveu os ataques a Oubder como ataques cirúrgicos dirigidos a terroristas na região. Imagens de munições de bombas de fragmentação nos pátios das casas e nos campos em torno da comunidade sugerem o contrário.
“Foram observadas graves violações do direito internacional na área, e foi acrescentado mais um modus operandi criminoso,” Ag Zeini disse à RFI. “Os civis continuam a pagar um preço elevado nesta guerra.”
