A África Austral continua a ser uma fonte significativa de chifres de rinoceronte que entram nos mercados chineses, apesar de uma diminuição geral da caça furtiva de rinocerontes no continente nos últimos anos.
Um relatório de Março de 2026 da Agência de Investigação Ambiental (EIA) analisou 258 processos judiciais chineses envolvendo o tráfico de chifre de rinoceronte que foram publicados no China Judgements Online entre 2013 e Outubro de 2025. No entanto, esse total não representa todos os casos de tráfico de chifres de rinoceronte.
Dos casos estudados, Moçambique e a África do Sul representam os países africanos de origem e de trânsito mais prevalentes para o chifre de rinoceronte. “Os veredictos judiciais de 2013 a 2025 revelam que o chifre de rinoceronte entra e é transportado por toda a China através de uma rede complexa de rotas internacionais e domésticas que ligam África, o Sudeste Asiático e os principais mercados chineses,” lê-se no relatório.
O chifre de rinoceronte pode ser vendido por até 20.000 dólares por quilograma no mercado negro. Os chifres podem pesar cerca de 3 quilogramas. São comumente utilizados na medicina tradicional chinesa, embora não tratem eficazmente nenhuma doença. A sua composição é semelhante à do cabelo e das unhas humanas.
Não foram relatados usos em produtos medicinais tradicionais nos casos estudados, e as apreensões de chifre em pó foram mínimas, segundo o relatório. Isto pode dever-se à baixa procura de produtos medicinais ou ao facto de alguns restos de chifre terem sido moídos em pó para outros usos após chegarem aos compradores.
Quase todos os produtos de chifre apreendidos provinham de espécies africanas, de acordo com sentenças em que essa informação foi divulgada. O chifre de rinoceronte branco foi mencionado em 91 casos e o de rinoceronte negro em 25. Outro caso envolveu o rinoceronte-indiano. A maior parte dos chifres apreendidos tinha sido transformada noutros produtos, incluindo pingentes, pulseiras, copos, contas e taças de libação. Chifres inteiros e pó representaram 14 e 18 apreensões, respectivamente.
Os chifres originários de Eswatini e Moçambique entram na África do Sul antes de seguirem directamente para a China ou, por vezes, para um país de trânsito do Médio Oriente, como o Qatar ou os Emirados Árabes Unidos. Alguns chifres moçambicanos passam pelo Quénia, que está listado como país de trânsito, antes de seguirem para a China.
“Vinte e dois casos documentam cargas de chifres de rinoceronte a entrar na China com um país africano especificamente identificado como o país exportador e representam as remessas de maior volume registadas no conjunto de dados,” de acordo com o relatório. “Todos estes casos ocorreram entre 2013 e 2019 e incluem a África do Sul, Moçambique e Eswatini como países exportadores.” Eswatini foi mencionado em apenas um caso.
A África do Sul registou uma diminuição de 16% na caça furtiva de rinocerontes em 2025, de acordo com uma reportagem da Reuters. Os caçadores furtivos mataram 352 rinocerontes, uma redução em relação aos 420 em 2024 e aos 499 em 2023. Apesar dessa queda geral, o número de rinocerontes mortos no Parque Nacional Kruger, naquele país, aumentou acentuadamente, passando de 88 em 2024 para 175 em 2025.
Ao longo do tempo, a caça furtiva colocou em perigo três das cinco espécies de rinocerontes existentes, de acordo com o Mongabay, um site de notícias sobre a natureza. Estima-se que cerca de 500.000 rinocerontes vivessem em estado selvagem no início do século XX, de acordo com a International Rhino Foundation. Actualmente, restam menos de 27.000. Um rinoceronte é morto a cada 15 horas.
Um relatório de 2022 da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies de Fauna e Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção (CITES) deixa claro que o tráfico de chifres de rinoceronte é mais do que apenas uma tragédia ambiental. Trata-se de uma verdadeira ameaça à segurança, entrelaçada com redes criminosas organizadas internacionais que também traficam marfim, heroína e outros produtos.
“Os dados relativos às apreensões indicam que poderá também haver convergência de crimes com armas de fogo, drogas ilícitas e outras mercadorias em aproximadamente 10% dos casos,” afirma o relatório da CITES. “São necessárias mais informações e análises de inteligência para compreender a natureza e o âmbito desta ameaça.”
A CITES apela aos países de origem, de trânsito e de destino “para que intensifiquem e reorientem os seus esforços, de modo a garantir que o crime seja combatido de forma eficaz, coordenada e duradoura.”
Susan Lieberman, vice-presidente de política internacional da organização sem fins lucrativos Wildlife Conservation Society, disse ao Mongabay que o relatório da EIA fornece informações sobre o tráfico na China. “A análise de processos judiciais pode ajudar a compreender as rotas e os padrões do tráfico, bem como os resultados dos processos criminais,” afirmou. “Trata-se, no entanto, da ‘ponta do icebergue’ e depende dos esforços de fiscalização e da natureza dos casos que chegam efectivamente a tribunal.”
