Os opiáceos e outras drogas sintéticas estão a invadir cada vez mais partes de África, atraindo o crime organizado e sobrecarregando as instalações médicas dos países, de acordo com um novo estudo.
A proliferação de drogas sintéticas tornou-se uma ameaça complexa à saúde pública e à segurança regional, a Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional escreveu num relatório de Março de 2026. O documento “Síntese — Mapeamento dos Mercados de Drogas Sintéticas na África Ocidental” conclui que as drogas tradicionais à base de plantas, controladas por redes criminosas tradicionais, “estão gradualmente a dar lugar a um mercado fragmentado e descentralizado de compostos psicoactivos sintéticos.”
Os investigadores afirmaram que as drogas sintéticas são responsáveis por overdoses, doenças crónicas, perturbações mentais graves e pela deterioração das condições de vida. Os jovens, geralmente subempregados, são as principais vítimas. As drogas ameaçam a estabilidade a longo prazo e o desenvolvimento económico.
As drogas são classificadas como opióides, substâncias potentes utilizadas para tratar dores moderadas a intensas através do bloqueio de receptores no cérebro, na medula espinhal e no corpo. Aliviam a dor e produzem euforia, mas também acarretam riscos elevados de sedação, depressão respiratória grave, dependência e morte. A sua disseminação na África Ocidental e noutras partes do continente é relativamente recente, com versões produzidas localmente a começarem a surgir por volta de 2022, de acordo com o relatório da Iniciativa Global.
De particular preocupação na África Ocidental é a droga sintética kush, uma mistura de substâncias que inclui opióides criados em laboratório chamados nitazenos, que podem ser até 25 vezes mais potentes do que o fentanil. Essas drogas também incluem canabinóides sintéticos, concebidos para imitar os efeitos da marijuana, mas com muito menos previsibilidade e toxicidade muito maior, de acordo com a revista canadiana Geopolitical Monitor. Uma droga semelhante na Nigéria é chamada de Colorado.
Os investigadores afirmam que a fórmula da kush está em constante evolução, o que dificulta o seu estudo. Mas, em todas as suas variações, é barata de fabricar, altamente viciante e quimicamente perigosa. Uma dose pode ser vendida por apenas 1 cêntimo.
“Estas características permitem que a kush se consolide rapidamente nos mercados de narcóticos,” relatou a Geopolitical Monitor. “E, uma vez consolidado, não demora muito para que surjam repercussões sociais, uma vez que os efeitos incapacitantes da kush, que vão desde o comprometimento cognitivo até à perda total de consciência, conduzem a uma marginalização socioeconómica generalizada.”
Embora as receitas de kush variem, a droga produzida por gangues criminosas locais na Serra Leoa é geralmente uma mistura de cannabis, fentanil, tramadol, formaldeído e alguns excipientes. Acredita-se que o fentanil tenha origem em laboratórios ilegais na China. Alguns dos agentes de processamento também podem ser adicionados ao produto, reduzindo a sua potência, mas tornando-o mais perigoso no processo.
Na Serra Leoa, a droga é consumida principalmente por homens com idades entre os 18 e os 25 anos, de acordo com um relatório publicado pela revista The Conversation. A kush “faz com que as pessoas adormeçam enquanto caminham, caiam, batam com a cabeça em superfícies duras e entrem no trânsito em movimento,” relatou a organização noticiosa.
A droga produzida na Serra Leoa espalhou-se pela Guiné e pela Libéria, de acordo com notícias da imprensa.
Um estudo no distrito de Kambia, na Serra Leoa, publicado em 2023, constatou uma prevalência de 86,7% do consumo de substâncias entre motociclistas comerciais, informou a Biblioteca Nacional de Medicina. A kush e a marijuana foram identificadas como as substâncias mais consumidas. Outro estudo realizado no Hospital Universitário Psiquiátrico da Serra Leoa, que analisou o consumo de substâncias psicoactivas, constatou que 59% dos 719 pacientes internados eram consumidores de kush.
O relatório da Iniciativa Global enfatizou que os mercados de drogas sintéticas da África Ocidental estão a expandir-se, a diversificar-se e a “causar consequências cada vez mais devastadoras para a saúde pública, concentradas nos jovens e nas comunidades marginalizadas.” O relatório observou que a relativa facilidade de entrar no mercado está a criar “novos actores criminosos.”
“A resposta regional está a ficar para trás face à rápida evolução do mercado de drogas sintéticas, deixando as autoridades de segurança e de saúde pública com dificuldades em responder,” relataram os investigadores, apelando a uma acção regional coordenada que recorra a coligações de múltiplas partes interessadas.
Um estudo da Public Health Challenges recomendou investir em infra-estruturas de saúde mental, formar especialistas em saúde mental e oferecer mais serviços de reabilitação. O controlo dessas drogas exigirá a colaboração entre as autoridades policiais, os prestadores de cuidados de saúde e as organizações comunitárias.
Os investigadores concluíram no estudo que o controlo de drogas sintéticas, como a kush, exigirá a melhoria da gestão das fronteiras, o reforço da cooperação regional e internacional e a implementação de “mecanismos robustos de monitorização e fiscalização.”
Uma dessas operações de fiscalização cooperativa é o Airport Communication Project, uma iniciativa global que ajuda os aeroportos internacionais a detectar e interceptar drogas, outros bens ilícitos e passageiros de alto risco. A Operação Harmattan do projecto, em 2025, reuniu autoridades do Benin, da Costa do Marfim, da Gâmbia, da Guiné-Bissau, do Mali, da Nigéria e do Togo para combater o tráfico de drogas sintéticas através de envios postais e carga aérea. A operação resultou em 13 detenções nos países participantes, juntamente com a apreensão de fentanil, tramadol, tabaco, cannabis, cocaína e dinheiro.
