Ao saírem do aeroporto de Durban sob o olhar atento de equipas de filmagem e repórteres, alguns dos homens esconderam os rostos. Um deles era empurrado numa cadeira de rodas. Os 11 homens sul-africanos, vítimas de um elaborado esquema de recrutamento que os levou ao Exército Russo, regressaram a casa a 25 de Fevereiro, tendo sobrevivido aos combates brutais na Ucrânia.
Faziam parte de um grupo de 17 homens que afirmaram ter sido enganados para viajar para a Rússia para um suposto treino para serem guardas de segurança e para empregos lucrativos quando regressassem. No dia seguinte, depois de reunir-se com os homens e as suas famílias, o Ministro dos Negócios Estrangeiros da África do Sul, Ronald Lamola, afirmou que o governo está profundamente preocupado com as “circunstâncias suspeitas” e as tácticas de recrutamento predatórias utilizadas para atrair cidadãos para combater no Exército Russo.
“Todos os envolvidos neste esquema devem ser responsabilizados,” disse numa conferência de imprensa de última hora. “Se uma oferta de emprego no estrangeiro parece boa demais para ser verdade, provavelmente é.”
Quem é o alvo?
Os especialistas afirmam que, para adquirir mão-de-obra para a sua máquina de guerra, a Rússia desenvolveu um sistema explorador de recrutamento das populações mais vulneráveis de África, utilizando falsas promessas de dinheiro fácil e oportunidades de emprego ou educação. No início da guerra, a Rússia utilizou tácticas como ameaças de deportação e prisão para recrutar africanos que já trabalhavam ou estudavam no país, afirmou o investigador Thierry Vircoulon.
“Longe de ser suficiente, Moscovo activou redes de recrutamento no continente africano,” escreveu num relatório de Dezembro de 2025 para o Instituto Francês de Relações Internacionais. Ao estudar as redes complexas e opacas da Rússia, Vircoulon estimou que entre 3.000 e 4.000 africanos estavam entre os 18.000 a 20.000 combatentes estrangeiros no Exército russo.
Lideradas pelo governo russo, as redes de recrutamento têm visado sistematicamente jovens africanos do sexo masculino que lutam contra o desemprego, a pobreza e o aumento do custo de vida. Estes representam um vasto e facilmente acessível reservatório de recrutas com um forte desejo de emigrar. Na maioria dos casos, os homens ou as famílias que deixaram para trás afirmam que foram enganados para lutar.
“Estes recrutas não eram combatentes motivados ideologicamente, mas foram atraídos principalmente por meio de ofertas de emprego enganosas,” o Instituto Robert Lansing escreveu num relatório de 23 de Fevereiro. “Este recrutamento tem sido impulsionado por incentivos económicos, pela exploração de populações vulneráveis e por redes que envolvem intermediários privados com vários níveis de cumplicidade por parte de actores estatais e não estatais.”
Os esquemas fraudulentos visam homens africanos com promessas de empregos lucrativos na construção civil, trabalho fabril, condução, segurança e logística na Rússia. As ofertas de emprego, muitas vezes, são apresentadas como escassas e com prazos curtos para exercer pressão. Nenhuma menciona o serviço militar na linha da frente.
Como são recrutados?
Os esforços de recrutamento da Rússia exploram jovens vulneráveis, homens e mulheres, com ofertas de emprego falsas e enganosas e salários muito superiores à remuneração média nos seus países de origem. Assim que chegam à Rússia, o esquema de “propaganda enganosa” torna-se evidente, pois os passaportes são apreendidos e as vítimas são coagidas ou enganadas a assinar contratos militares antes de serem enviadas para a linha da frente na Ucrânia.
O Observatório Africano da Democracia Digital (ADDO), uma coligação de organizações de investigação forense, afirmou que um “ecossistema em camadas” de redes russas e africanas conduz campanhas de recrutamento através de intermediários, agências de viagens falsas e outras empresas fantasmas. Esta abordagem obscurece deliberadamente qualquer tentativa de ligar as redes directamente ao Kremlin.
“Facilitadores freelancers da diáspora africana em Moscovo trabalham com agências de viagens locais, assistidas pelo Africa Corps em toda a África Ocidental e no Sahel, juntamente com grupos de afinidade apoiados pela embaixada russa e grupos armados não estatais africanos, para recrutar e transportar homens discretamente,” o ADDO disse num relatório de 20 de Fevereiro.
Em Setembro de 2025, a polícia de Nairobi deteve um empresário russo que alegadamente estava ligado a um esquema de recrutamento. Foi expulso do país. A imprensa local noticiou que ele tinha sido funcionário da Embaixada da Rússia, alegação que a embaixada negou.
Outro esquema, denominado programa Alabuga Start, foi concebido para visar mulheres africanas entre os 18 e os 22 anos com promessas de emprego nos sectores da hotelaria e automóvel. Em vez disso, foram colocadas numa fábrica de montagem de drones num enorme complexo industrial militar na República do Tartaristão, na Rússia central.
“Este recrutamento é muito mais público e institucional, sendo conduzido directamente através de embaixadas russas, ministérios da educação africanos, universidades, empresários, organizações de mulheres e de jovens e grupos da sociedade civil pró-Rússia que promovem o esquema como bolsas de estudo e oportunidades de carreira,” afirmou o ADDO. “Algumas empresárias africanas assinaram memorandos de entendimento para fornecer milhares de trabalhadores, alegando posteriormente que elas próprias foram ‘manipuladas’.”
No seu relatório, Vircoulon descreveu os dois lados destas redes de recrutamento. Na Rússia, as redes para o exército contam com mercenários do Africa Corps e do Grupo Wagner, representantes diplomáticos e entidades culturais como as Casas da Rússia. Do lado africano, encontram-se intermediários individuais, agências de emprego locais e organizações de jovens e de mulheres.
“Estas práticas de recrutamento abusivas e enganosas assemelham-se a uma forma de tráfico de seres humanos, cuja consequência mais trágica é o envio de mercenários amadores para a linha da frente como ‘carne de canhão’,” escreveu. “Para alguns, esta aventura migratória numa guerra estrangeira é uma viagem sem regresso e, para muitos, a guerra é uma armadilha que se fecha sobre eles.”
