Dezenas de famílias angustiadas de quenianos enganados para lutar pelo Exército Russo na Ucrânia realizaram uma vigília em Nairobi para exigir acção do governo. Alguns apelaram pelo regresso em segurança dos seus familiares. Outros apenas queriam informações ou os restos mortais.
Bibiana Wangari disse que o seu filho de 31 anos, Charles Waithaka, estava entre os mortos nos combates depois de ter sido atraído para a Rússia com falsas promessas de um emprego lucrativo como mecânico. À chegada, foi-lhe entregue um contrato em russo para assinar e foi enviado para uma base militar. Relatando a sua última mensagem para casa, Wangari disse à televisão France 24: “Ele disse: ‘Neste preciso momento, estou em treino de combate. As coisas não parecem boas para mim. Rezem por mim.’”
Charles Ojiambo Mutoka, que perdeu o seu filho, Oscar, tinha uma mensagem para o presidente russo, Vladimir Putin: “Devia ter vergonha de levar alguém para a linha da frente, porque essa guerra não nos diz respeito a nós, africanos,” disse numa conferência de imprensa a 27 de Janeiro, em Nairobi. “Então, por que levar o nosso povo?”
O Exército Russo tem lançado ondas de pequenos ataques de infantaria contra as linhas ucranianas, uma táctica dispendiosa concebida para vencer uma guerra de desgaste. Desde que invadiu a Ucrânia em 2022, as baixas da Rússia até Janeiro de 2026 foram cinco vezes superiores às de todas as guerras russas e soviéticas combinadas desde a Segunda Guerra Mundial, de acordo com o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.
As estimativas alarmantes do centro — 2,1 milhões de baixas russas, incluindo soldados mortos, feridos e desaparecidos — explicam a razão para o recrutamento de africanos.
“O Kremlin provavelmente tentará alistar mais africanos em 2026, à medida que a Rússia luta para encontrar um número suficiente de recrutas nacionais em meio a perdas crescentes no campo de batalha,” a analista do Atlantic Council, Katherine Spencer, escreveu num artigo de 19 de Fevereiro. “O recrutamento estrangeiro é cada vez mais popular junto do regime de Putin, uma vez que permite a Moscovo evitar mais uma ronda de mobilização politicamente arriscada, que poderia facilmente desestabilizar a sociedade russa.”
À medida que centenas, talvez milhares, de africanos foram vítimas de esquemas de recrutamento russos e acabaram, sem o saber, na linha da frente da sua guerra brutal, a indignação cresce por todo o continente e os governos estão a reagir.
Os protestos em Nairobi coincidiram com a divulgação de um relatório do Serviço Nacional de Informações, que revelou que 1.000 quenianos foram enganados e levados a alistar-se no serviço militar russo por uma extensa rede de funcionários, pessoal de embaixadas e centros culturais, intermediários e empresas fantasmas que agem em conluio com sindicatos de tráfico e trabalham com recrutadores russos e locais movidos pelo lucro.
De acordo com um relatório de 11 de Fevereiro do grupo de investigação suíço INPACT, mais de 1.400 africanos de 35 países assinaram contratos com o Exército Russo entre Janeiro de 2023 e Setembro de 2025, incluindo mais de 300 que foram mortos poucos meses após chegarem à frente de batalha.
“O recrutamento de cidadãos africanos não é um fenómeno isolado, mas sim o núcleo de uma estratégia deliberada e organizada,” lê-se no relatório.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia afirmou, a 25 de Fevereiro, ter identificado mais de 1.700 cidadãos de 36 países africanos nas fileiras russas, mas acredita firmemente que o número real de combatentes poderá ser significativamente superior.
“Notámos um número crescente de africanos nas linhas da frente,” o embaixador ucraniano no Quénia, Yurii Tokar, disse à France 24. “É uma pena dizer que são enviados como carne de canhão.”
Após uma onda de exigências formais por parte de países para que cessasse o recrutamento dos seus cidadãos para a guerra contra a Ucrânia, a Rússia estará, alegadamente, a restringir o âmbito e a escala dos seus esforços de alistamento de estrangeiros. Uma investigação de 23 de Fevereiro realizada pelo site de notícias independente russo, Important Stories, revelou uma “lista negra” de 36 países nos quais os recrutadores russos já não estão autorizados a operar.
A lista incluía Argélia, Angola, Etiópia, Egipto, Gana, Guiné, Quénia, Moçambique, Namíbia, Nigéria, África do Sul, Tanzânia e Uganda. Em Fevereiro, um blogueiro iraquiano que expõe as redes de recrutamento russas no seu país citou um oficial russo que afirmou que a lista tinha sido alargada para incluir os Camarões, a Líbia e a Somália.
O esquema de recrutamento da Rússia é uma tragédia para os africanos de todo o continente, afirmou Lou Osborne, analista do colectivo de jornalismo de investigação All Eyes on Wagner.
“As famílias não fazem, na verdade, ideia do que está a acontecer,” disse à France 24 numa entrevista a 16 de Fevereiro. “Não existe qualquer mecanismo para repatriar os corpos. Não sabem a quem recorrer para obter informações. Não só são usados como carne de canhão, como as famílias não fazem ideia do que está a acontecer aos seus entes queridos.”
