A instabilidade tem sido uma constante na República Centro-Africana, pelo menos desde 2004, quando uma guerra civil de três anos assolou o país, seguida de anos de combates com grupos insurgentes. Num esforço para restaurar a ordem, o governo convidou mercenários do Grupo Wagner, da Rússia, para actuarem como formadores no início de 2018.
Em 2019, o Grupo Wagner contava com mais de 1.000 mercenários na RCA, onde se integraram nas instituições políticas, económicas e sociais do país, visando a extracção de ouro, diamante e madeira. O que surgiu foi uma economia de conflito, na qual mercenários e outros lucram com o caos contínuo no país.
“O Grupo Wagner não só se infiltrou nos mercados locais através da força e da intimidação, como também assegurou uma posição no governo do presidente Faustin-Archange Touadéra, nomeando um cidadão russo como seu conselheiro-chefe de segurança,” Christopher Faulkner e Raphael Parens escreveram na revista Georgetown Journal of International Affairs.
Em 2021, o Grupo Wagner e as forças governamentais lançaram uma operação militar a nível nacional apresentada como uma campanha de estabilização, mas que “ultrapassou a contra-insurgência, transformando-se num processo mais amplo de consolidação territorial, política e económica,” de acordo com um relatório de Junho de 2026 para a Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional.
Actualmente, as forças governamentais e do Grupo Wagner uniram-se para transformar uma economia que outrora sustentava grupos rebeldes em redes que apoiam o governo de Touadéra e enriquecem a Rússia.
“As elites locais, juntamente com parceiros de segurança estrangeiros, grupos armados cooptados e operadores económicos, têm recorrido à coacção e ao crime organizado para consolidar o poder, controlar recursos e promover os seus interesses financeiros, transformando a RCA num nó de poderosas redes criminosas transnacionais,” de acordo com o relatório da Iniciativa Global, “Mercados Maliciosos: Mapeamento do ecossistema criminoso violento na República Centro-Africana,” de autoria de Nathalia Dukhan e Ruben De Koning. O Ruanda, a Turquia e os Emirados Árabes Unidos estão entre os outros países que exercem influência no país.
O envolvimento de mercenários russos na RCA é abertamente transaccional. O seu crescimento visa combinar segurança, economia e política para controlar os recursos naturais, a fim de “consolidar a influência russa a longo prazo,” lê-se no relatório de 72 páginas.
“Com o apoio russo, Touadéra consolidou a sua autoridade política, e actores ligados ao Grupo Wagner e seus aliados integraram-se em ministérios-chave, no aparelho de segurança, na administração aduaneira e em sectores de recursos estratégicos,” escreveram Dukhan e De Koning. “Em vez de proporcionarem estabilidade, Bangui e Moscovo aprofundaram e sistematizaram padrões de coacção, exploração e pilhagem.”
O relatório defende que os avanços do governo contra os grupos armados não eliminaram a “especulação com o conflito” nas minas, nas rotas comerciais e na tributação, mas sim a transferiram para “actores ligados ao governo, redes e indivíduos dentro do governo que estão a lucrar com diferentes sectores,” De Koning disse à revista The Africa Report.
A Rússia, em particular, tem lucrado com o comércio de ouro e combustível da RCA. O Grupo Wagner construiu uma “cadeia de abastecimento ilícita de combustível” para sustentar as suas operações militares conjuntas com o governo e as suas operações mineiras, de acordo com a Iniciativa Global.
De Koning disse à The Africa Report que a amplitude do envolvimento do Grupo Wagner no comércio de ouro da RCA o surpreendeu. “O que me chocou foi a extensão e o volume enorme, em particular do ouro que tem sido extraído do país,” referiu, acrescentando que os interesses controlados pelo Grupo Wagner produzem cerca de 5 toneladas métricas de ouro por ano.
“Trata-se de ouro com um valor de exportação de cerca de 250 milhões de dólares, mas que, no mercado internacional, pode facilmente atingir os 500 milhões de dólares,” afirmou.
Desde 2021, segundo relata a Iniciativa Global, as forças russas e ruandesas reconquistaram áreas mineiras estratégicas em todo o país, impedindo os grupos armados de exercerem controlo territorial. Consequentemente, tem sido exportado mais ouro proveniente de fontes artesanais através de canais formais. Em 2023, as exportações de ouro atingiram 1,7 toneladas métricas. Previa-se que as exportações totalizassem cerca de 2,5 toneladas métricas em 2025, mas atingiram cerca de 7 toneladas métricas no final do ano.
Isso está “muito além da capacidade de produção artesanal, pelo que deve incluir ouro industrial e, muito provavelmente, ouro proveniente das concessões do Grupo Wagner,” De Koning disse à The Africa Report.
Embora o acordo de segurança entre a Rússia e a RCA seja, de certa forma, único no continente, o desejo do Kremlin de esgotar os recursos dos países africanos, particularmente o ouro, não o é. As forças russas retiraram mais de 2,5 bilhões de dólares em ouro de África entre Fevereiro de 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia, e o final de 2023, de acordo com o The Blood Gold Report.
A especulação russa com o ouro provém principalmente da RCA, do Mali e do Sudão. O Grupo Wagner obteve direitos exclusivos sobre a mina de Ndassima, a maior da RCA, e a Rússia controla uma importante refinaria e é o “comprador dominante de ouro sudanês não processado” naquele país, de acordo com o relatório. No Mali, os mercenários russos recebem milhões de dólares por mês em dinheiro da junta governante, que depende das empresas de exploração de ouro para a maior parte das suas receitas fiscais. Este acordo contorna as sanções, que são contornadas por “rotas complexas de contrabando e tácticas corporativas de subterfúgio” na RCA e no Sudão, segundo o relatório.
