Combates na Província de Ituri Provocam Deslocações Maciças na RDC

EQUIPA DA ADF

Desde meados de Março, dezenas de milhares de pessoas fugiram das comunidades da província de Ituri, no leste da República Democrática do Congo (RDC), tentando escapar aos ataques da CODECO, uma antiga cooperativa de agricultores que se tornou uma das dezenas de milícias armadas que desestabilizam a região.

Desde o início de 2017, os combates em Ituri forçaram cerca de 1,5 milhões de pessoas a abandonarem as suas residências, segundo as Nações Unidas.

Os combatentes da CODECO, que são membros do grupo Lendu, começaram por ser a Coopérative pour le développement du Congo (Cooperativa para o Desenvolvimento do Congo). Transformaram-se num grupo militante durante o período de intensos combates interétnicos entre os Lendu e os seus vizinhos pastores, os Hema, entre 1999 e 2003.

Nos últimos 50 anos, os combates entre os grupos têm-se multiplicado. A actual onda de violência começou em 2017. Em Novembro de 2022, a situação acelerou-se, com cada grupo a tentar conquistar terras e minas na região rica em minerais. A CODECO diz que está a defender o seu povo contra os Hema e os militares congoleses.

Os combates intensificaram-se depois de a RDC ter desviado as suas forças armadas para a província do Kivu do Norte para enfrentar os insurgentes do M23.

“Quando o exército saiu de Ituri, a primeira consequência foi que os grupos armados assumiram o controlo de todas as áreas que o [exército] costumava controlar,” Dieudonné Lossa Dhekana, coordenador provincial da Société Civile Forces Vives de L’Ituri, uma organização que reúne grupos da sociedade civil, disse à platafoma Devex. “Agora estão a saquear, a matar pessoas e a violar mulheres.”

Operando a partir da floresta de Wago, os membros da CODECO atacaram bases militares, queimaram aldeias e mataram residentes em Ituri. Os Hema formaram o seu próprio grupo de auto-defesa, conhecido como Zaire, para ripostar.

Rehema Dive fugiu da sua aldeia Hema depois de ter testemunhado vários ataques da CODECO, em 2018. Entre os mortos estava o seu tio, que foi morto e mutilado quando fugia com um grupo durante um assalto.

Dive procurou segurança na grande comunidade de Drodro, a cerca de 60 quilómetros da capital regional, Bunia. Actualmente, a violência esvaziou Drodro dos seus habitantes Hema, que fugiram para outros locais para se abrigarem das milícias saqueadoras.

Dive vive agora com o seu filho de 3 anos no acampamento de Rho, perto de uma base da ONU fora de Drodro.

“Se os combates chegarem aqui e, se por acaso sobrevivermos, teremos de fugir,” disse ela à Devex.

No hospital local, o Dr. James Semire vagueia pelos corredores escuros de um edifício praticamente vazio enquanto espera por possíveis pacientes. Ele vive no hospital depois de ter fugido de casa.

A maioria dos residentes de Hema saiu de Drodro em meados de Março, depois de os combatentes da CODECO terem montado posições de ataque numa colina perto da comunidade em plena luz do dia, disse à DW.

“De repente, alguém veio dizer-me que havia tiros lá fora,” disse Semire à DW. “Há ataques repetidos. Isto atrasa o regresso das pessoas porque cria dúvidas.”

Quase metade das pessoas deslocadas pelos combates — 690.000, segundo as Nações Unidas — vivem em campos de refugiados na zona de Djugu. São uma mistura de pastores e agricultores, muitos dos quais contam histórias sobre ataques nocturnos às suas comunidades por grupos armados.

A norte de Drodro, o acampamento de Rho triplicou de tamanho desde Novembro, atingindo mais de 65.000 pessoas. Um outro acampamento, Plaine Savo, foi atacado a 1 de Fevereiro pela CODECO e outras milícias armadas com pistolas e catanas. O ataque deixou 62 pessoas mortas e os abrigos em cinzas, disseram os sobreviventes à ONU.

Com mais de 120 milícias a competir por território no leste da RDC, o conflito Lendu-Hema em Ituri tem sido ofuscado por outros acontecimentos, como o esforço internacional para expulsar o grupo de milícias M23 da província vizinha de Kivu do Norte.

No entanto, as pessoas continuam a fugir da violência em Ituri.

“O movimento dos deslocados não parou,” disse à ONU um porta-voz da organização não-governamental Intersos, identificado como Adamu num acampamento nos arredores de Bulé. “A situação continua a ser precária e imprevisível.”

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