Enquanto Vladimir Putin se prepara para acolher a sua terceira Cimeira Rússia-África no final de Outubro, os observadores analisam as cimeiras anteriores em busca de pistas sobre como avaliar as promessas e os acordos que se espera que sejam assinados em Moscovo.
A primeira cimeira, realizada em Sochi em 2019, foi recebida com “entusiasmo” pelos 43 chefes de Estado africanos que nela participaram, segundo o Dr. Joseph Siegle, director de investigação do Centro de Estudos Estratégicos de África.
“Havia a sensação de que a Rússia poderia representar uma nova fonte de investimento e comércio que abriria mais oportunidades económicas,” Siegle disse à ADF.
Até ao momento, essas oportunidades não se concretizaram. Na primeira cimeira, a Rússia comprometeu-se a duplicar o comércio com África em cinco anos, passando de cerca de 20 bilhões de dólares para 40 bilhões de dólares. O que aconteceu, em vez disso, foi uma contracção do comércio para 14 bilhões de dólares ao longo de cinco anos. Desde então, o comércio recuperou para cerca de 27 bilhões de dólares, mas esse total é desequilibrado a favor de Moscovo, que exporta cerca de sete vezes mais do que importa de África. A Rússia representa menos de 1% do investimento directo estrangeiro no continente.
“Havia o reconhecimento de que a Rússia não tinha realmente muito a oferecer economicamente ao continente,” afirmou Siegle, acrescentando que, “em 2023, havia muito mais cepticismo em relação a Moscovo.”
A cimeira de 2023, em São Petersburgo, ocorreu um ano após a invasão da Ucrânia pela Rússia, com a presença de apenas 17 chefes de Estado. A reunião teve lugar enquanto a Rússia atacava navios comerciais no Mar Negro e bloqueava carregamentos vitais de cereais e fertilizantes destinados ao continente.
Um dos pontos altos da cimeira foi a promessa de Putin de doar entre 25.000 e 50.000 toneladas de cereais a seis países africanos. No entanto, os observadores salientaram que esta promessa a países preferenciais representava apenas uma pequena fracção das centenas de milhares de toneladas retidas pelo bloqueio russo aos carregamentos no Mar Negro.
“As doações foram uma gota no oceano face às restrições aos cereais, aos fertilizantes e ao combustível que foram causadas,” afirmou Siegle.
Em 2026, os ataques a navios comerciais continuam. Só em Julho, a Rússia lançou pelo menos 23 ataques contra infra-estruturas portuárias da Grande Odessa, onde a maior parte do trigo e dos produtos agrícolas da Ucrânia é armazenada e expedida. As mercadorias destinadas a África e a outras partes continuam retidas em instalações de armazenamento na Ucrânia e na Rússia devido à guerra. Os preços dos alimentos e dos fertilizantes continuam elevados.
O Egipto, o principal comprador mundial de trigo da região, receberá cerca de um décimo da quantidade que recebeu no ano passado, segundo noticiou a Reuters.
“Quando a Rússia ataca navios na Baía de Odessa, não está apenas a perturbar as exportações da Ucrânia — está a aumentar o risco de uma verdadeira crise alimentar global,” Illia Kabachynskyi escreveu para a United24 Media. “Este efeito nos preços globais recai com maior severidade sobre os países que já gastam uma parte desproporcionalmente grande dos seus orçamentos em importações de alimentos.”
A cimeira de 2023 ficou marcada por um compromisso de perdoar 23 bilhões de dólares em dívida da era soviética contraída pelos países africanos. No entanto, os observadores salientaram que esta dívida era tão antiga que se tornava impossível de ser paga pela Rússia moderna.
Siegle classificou o compromisso como “simbólico.”
“Essas dívidas foram contraídas há tanto tempo que, na realidade, já não contribuíam para os encargos com juros e dívida que os países africanos estavam a suportar e, por conseguinte, não alteraram o panorama económico com que se deparam,” afirmou. “Assim, oficialmente, apaga o passado e permite que as relações avancem, mas, de um ponto de vista prático, não significou grande coisa.”
Outra característica das cimeiras tem sido a assinatura de acordos de cooperação militar. Mais de 40 países africanos terão, alegadamente, assinado tais acordos com a Rússia.
No entanto, os especialistas têm salientado que a cooperação entre as forças armadas continua a ter um âmbito muito reduzido. A principal ferramenta de intervenção continua a ser o recurso a mercenários, com o Africa Corps, apoiado pelo Estado, presente na República Centro-Africana, na Líbia, no Mali e noutros locais.
Num artigo publicado no site de notícias nigeriano This Day, o investigador Oumarou Sanou disse que a proposta apresentada às nações africanas na cimeira consiste, principalmente, na “protecção do regime,” dirigida ao número crescente de líderes que assumem o poder através de golpes de Estado ou outros meios não democráticos.
“A proposta de Moscovo para África assenta numa premissa mais restrita do que a sua retórica sugere: não se trata de desenvolvimento, nem de prosperidade partilhada, mas sim de protecção, prestada por meio de empresas militares privadas e, agora, do Africa Corps, gerido pelo Estado,” escreveu Sanou.
Numa altura em que a terceira cimeira se aproxima, os observadores constatam a ausência de resultados tangíveis dos eventos anteriores, incluindo a proposta de que as cimeiras passariam em breve a realizar-se em África.
“Entre a promessa de um país anfitrião rotativo que nunca se concretizou, objectivos comerciais não cumpridos e compromissos económicos que continuam a ser limitados, vários anúncios feitos em cimeiras anteriores têm dificuldade em produzir os resultados esperados,” o analista Mustapha Bature Sallama escreveu para o site Modern Ghana.
Aproximadamente 17 chefes de Estado confirmaram a sua presença no evento de 2026, com algumas delegações a questionarem, alegadamente, a razão pela qual lhes é pedido que voem para uma zona de guerra activa. Sallama disse que o próprio local destaca o que ele descreve como uma parceria desigual.
“O facto de se realizar na Rússia a terceira cimeira consecutiva ilustra a desconexão entre a retórica de uma ‘parceria entre iguais’ e uma relação cujas agenda, prioridades e organização continuam a ser definidas, em grande parte, a partir de Moscovo,” afirmou Sallama.
Análise comparativa: PAs promessas defrontam-se com a realidade à medida que se aproxima a terceira cimeira Rússia-África
Compromisso
Em 2019, a Rússia prometeu duplicar o comércio com África para 40 bilhões de dólares por ano.
Realidade
O comércio caiu para 14 bilhões de dólares e recuperou apenas parcialmente para 27 bilhões de dólares, com a balança comercial fortemente a favor das exportações russas.
Compromisso
A Rússia afirmou que doaria trigo e fertilizantes para fazer face às perturbações causadas pela sua guerra contra a Ucrânia.
Realidade
Os bloqueios continuam a perturbar o transporte marítimo no Mar Negro e os ataques à infra-estrutura comercial causaram um abalo nos mercados de cereais e fertilizantes. A Rússia entregou entre 25.000 e 50.000 toneladas de cereais a seis países, mas isso representa uma pequena fracção das exportações anteriores à guerra.
Compromisso
A Rússia anunciou um programa de perdão da dívida para países africanos
Realidade
Os 23 bilhões de dólares em dívida perdoada datavam da era soviética e, segundo os especialistas, eram incobráveis e não afectam o peso da dívida dos países africanos actuais.
Compromisso
A Rússia anunciou acordos de cooperação militar com 40 países africanos.
Realidade
O envolvimento de Moscovo em matéria de segurança no continente continua a ser conduzido, em grande parte, por mercenários do Africa Corps, que operam num punhado de países. Apresentados como forças antiterroristas, não conseguiram travar a propagação do terror no Sahel e, actualmente, oferecem principalmente “protecção do regime” a líderes autocráticos.
Compromisso
As declarações da cimeira de 2023 indicavam que uma futura cimeira teria lugar no continente africano.
Realidade
A cimeira de 2026 deverá acontecer em Moscovo, obrigando os participantes a viajar para uma zona de guerra activa.
