A decisão da Argélia, em Agosto, de mobilizar elementos das suas forças armadas para apoiar a junta governante do Níger foi mais do que uma simples mudança de política: demonstrou que uma das forças armadas mais poderosas de África está preparada para projectar o seu poder em nome da manutenção da estabilidade no Sahel, segundo analistas.
No dia seguinte ao motim de 29 de Agosto, protagonizado por um grupo de soldados nigerinos, a Argélia enviou quatro caças Sukhoi Su-30 e um avião de reabastecimento aéreo para a Base Aérea 101 do Níger, em Niamey. A base, localizada junto ao aeroporto internacional do Níger, é o principal posto avançado militar do país e a base dos caças do Africa Corps da Rússia.
As aeronaves chegaram acompanhadas de pilotos e pessoal de apoio. Seguiram-se também a quatro helicópteros que a Argélia enviou para o Níger no início de Agosto. Esta foi a primeira mobilização da Argélia para além das suas fronteiras desde 1973.
“Por trás da ajuda prestada ao Níger pode estar uma ambição mais ampla: dispor de uma profundidade estratégica a sul do Sahara que a Argélia se tinha recusado, até agora, a exercer militarmente,” o analista argelino Akram Kharief escreveu recentemente no MenaDefense, a sua publicação no Substack.
“A importância deste gesto reside, em primeiro lugar, na sua rapidez,” acrescentou Kharief. “O que acontece em Niamey pode, portanto, ser considerado em Argel, quase de imediato, uma questão de segurança nacional.”
A Argélia partilha uma fronteira porosa de 951 quilómetros com o Níger. Partilha também uma fronteira de 1.359 quilómetros com o Mali, um dos parceiros do Níger na Aliança dos Estados do Sahel (AES). Em Julho, a Argélia e o Mali anunciaram planos para restabelecer as relações que se deterioraram desde o golpe de Estado de 2023 no Mali.
Juntamente com o terceiro membro da AES, o Burquina Faso, o Mali e o Níger têm passado anos a combater uma onda crescente de terrorismo por parte do Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) e do Estado Islâmico na Província do Sahel (ISSP). Os líderes argelinos encaram cada vez mais a instabilidade na AES como uma potencial ameaça à sua própria segurança nacional, observou Kharief.
A Argélia tem provavelmente uma razão mais abrangente para apoiar a junta governante do Níger: o Níger situa-se no centro do futuro Gasoduto Trans-saariano, que se estende por mais de 4.100 quilómetros, desde os campos petrolíferos do Delta do Níger, na Nigéria, até à costa do Mar Mediterrâneo, na Argélia.
Cerca de 2.400 quilómetros do gasoduto já foram construídos na Argélia e na Nigéria. Grande parte dos restantes 1.600 quilómetros atravessa o Níger.
O gasoduto faz parte de um sistema de transportes trans-saariano multifacetado que poderá também incluir uma linha ferroviária, estradas e tecnologia de comunicações. Mas tudo isso depende da segurança no Níger, escreveu Kharief.
“A estabilidade do Níger já não é apenas uma questão de boas relações de vizinhança para Argel,” escreveu Kharief. “Nesta perspectiva, o interesse de uma presença militar argelina no Níger é imediatamente evidente.”
A Argélia já não pode defender a sua segurança apenas protegendo as suas próprias fronteiras, mas deve adoptar uma abordagem mais ampla, segundo Riccardo Fabiani, director de projectos para o Norte de África, no International Crisis Group.
A Argélia deixou clara a sua intenção de apoiar a estabilidade no Níger quando o seu Major-General Rachid Cheblaoui compareceu numa conferência de imprensa com responsáveis nigerinos após a chegada das novas aeronaves e das equipas de apoio, no di 30 de Agosto.
“Isso faz parte de uma nova política externa, mais pragmática, na qual a Argélia está disposta a desempenhar um papel de segurança e militar — e já não exclusivamente diplomático —, a fim de prosseguir os seus objectivos num ambiente que está a mudar muito rapidamente,” Fabiani disse ao Middle East Eye.
A partir da Base Aérea 101, a Argélia pode adicionar drones e operações de inteligência para apoiar as forças armadas regionais em todo o Sahel e na Bacia do Lago Chade contra múltiplos grupos terroristas, segundo Kharief.
Até ao momento, a Argélia não demonstrou qualquer interesse em adoptar essa abordagem. No entanto, a decisão de destacar elementos militares para o Níger continua a ser significativa, acrescentou ele, visto que rompe com uma política de longa data.
“Existe também uma diferença fundamental entre a instalação permanente de uma força estrangeira e o destacamento de uma força de um Estado fronteiriço a pedido de um Governo vizinho,” escreveu Kharief. “Mas parece que um tabu perdeu a sua força.”
