O Gana está a liderar um esforço para impedir o recrutamento ilegal de jovens pela Rússia para combater na sua guerra contra a Ucrânia. Agências de monitorização independentes estimam que 37 países africanos tenham sido afectados por esquemas generalizados e coordenados destinados a enganar jovens desesperados em busca de emprego.
Pelo menos 272 ganeses já combateram pela Rússia. Este é o terceiro maior número de recrutas entre as nações africanas. O Egipto registou o número mais elevado, 361, enquanto 335 camaroneses foram recrutados, de acordo com o grupo de investigação INPACT. Também são recrutados em grande número combatentes da Argélia, da Gâmbia, do Quénia, do Mali, da Nigéria e da África do Sul.
Quando o número de ganeses que morreram enquanto lutavam pela Rússia atingiu os 62 em meados de Agosto, o Ministro dos Negócios Estrangeiros do Gana, Samuel Okudzeto Ablakwa, reuniu-se com o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergey Lavrov, em Moscovo, e instou a Rússia a “pôr fim ao recrutamento ilegal destes ganeses.”
“Enquanto governo responsável, não podemos fechar os olhos a estas estatísticas chocantes,” Ablakwa disse num relatório do INPACT. “Esta não é a nossa guerra e não podemos permitir que os nossos jovens se tornem escudos humanos para outros.”
Embora a Rússia tenha prometido cessar o recrutamento de ganeses, a prática continua.
Isso levanta “questões sobre a eficácia com que os acordos alcançados entre os governos estão a ser aplicados no terreno,” o jornal queniano The Star escreveu num editorial.
Richmond Acheampong, editor-chefe da plataforma digital de notícias ganesa, The International Lens, questionou se a Rússia fez ou não o suficiente para prevenir, investigar ou punir práticas de recrutamento enganosas.
“Essa distinção é crucial,” Acheampong escreveu para o site de notícias Modern Ghana. “Um parceiro credível não se limita a negar uma alegação; ajuda a apurar os factos. Identifica redes de recrutamento, coopera com as investigações, presta contas sobre os cidadãos estrangeiros que servem nas suas forças armadas e fornece informações transparentes aos governos cujos cidadãos estão envolvidos.”
Uma investigação recente realizada pelo iLAB, a equipa de investigações técnicas da Code for Africa, revelou que o Kremlin está a utilizar ferramentas digitais — incluindo sites da internet, domínios falsos e perfis nas redes sociais — para induzir africanos a lutarem pela Rússia. Estas campanhas de recrutamento tiveram origem na Rússia e na Bielorrússia e recorrem a publicidades enganosas, recomendações falsificadas e promessas de benefícios generosos.
A investigação do iLAB revelou que muitos cidadãos africanos foram induzidos a alistarem-se nas forças armadas russas após responderem a anúncios relativos a trabalhos na construção civil, assistência na obtenção de vistos ou mesmo papéis em filmes. Muitos dos sites partilhavam endereços IP comuns e baseavam-se em sites “descartáveis,” uma estratégia que os investigadores caracterizaram como “queimar e substituir.”
Os analistas afirmam que é tempo de o Gana e outros países reavaliarem a sua relação com a Rússia, que procura expandir a sua influência no continente através de parcerias militares, extracção de recursos e projectos de infra-estruturas. O embaixador da União Europeia no Gana, Rune Skinnebach, disse numa reportagem de Setembro publicada pelo jornal ganês, The Diplomatic Times, que a Rússia “não era um parceiro credível nem fiável” para o Gana.
Skinnebach citou vários compromissos que não foram cumpridos, incluindo um projecto de energia nuclear, um Centro de Exportação Russo no valor de 1 bilhão de dólares e um projecto ferroviário de 12,5 bilhões de dólares que ligaria Acra a Paga.
Acheampong concordou com Skinnebach.
“Uma parceria diplomática não se mede por apertos de mão, comunicados ou pelo número de acordos assinados,” Acheampong escreveu no site de notícias Modern Ghana. “Mede-se pela confiança, pelo cumprimento e pela responsabilidade. Nesse teste, Moscovo ainda não demonstrou ser um parceiro estratégico credível e fiável para o Gana.”
Acheampong reconheceu que a Rússia, ao apresentar-se como um parceiro alternativo para as nações africanas, pode parecer atraente, mas argumentou que os seus compromissos devem ser cuidadosamente analisados.
“Se os governos ocidentais anunciarem projectos e não os concretizarem, o Gana deve examiná-los minuciosamente. Se a China assinar acordos de infra-estruturas que fiquem paralisados, o Gana deve perguntar porquê,” escreveu Acheampong. “A Rússia deve receber exactamente o mesmo tratamento. … Isso não é hostilidade para com a Rússia. É simples diplomacia.”
