As Comores, o Djibouti, a Somália e o Sudão estão entre as 14 nações que assinaram a Aliança Multinacional de Defesa Marítima, uma parceria que visa proteger o tráfego marítimo no Estreito de Bab el-Mandeb, no Golfo de Áden e no Mar Vermelho.
Outras nações participantes são o Bahrein, o Bangladesh, o Egipto, a Jordânia, o Kuwait, o Paquistão, o Qatar, a Arábia Saudita, a Turquia e o Iémen. Espera-se que os países colaborem na partilha de informações, em exercícios conjuntos e em patrulhas coordenadas, de acordo com a publicação digital Africa Ports & Ships.
As autoridades assinaram o pacto no final de Julho, num contexto de aumento de ataques piratas somalis, de ameaças contínuas por parte dos rebeldes Houthis do Iémen, apoiados pelo Irão, contra o transporte marítimo ligado à Arábia Saudita e de outras perturbações regionais. Entre Abril e Julho de 2026, o Gabinete Marítimo Internacional das Nações Unidas registou 24 incidentes, entre tentativas e actos consumados, de pirataria e assalto à mão armada contra navios no Mar Vermelho e no Golfo de Áden.
A situação é complicada por um acordo crescente entre o al-Shabaab, o grupo terrorista somali, e os rebeldes Houthis do Iémen. Esta relação emergente levou a que grupos piratas passassem a utilizar tecnologia mais sofisticada fornecida pelos Houthis, incluindo dispositivos de satélite GPS que permitem aos piratas localizar navios comerciais. Um relatório recente do grupo de reflexão Century International afirma que o al-Shabaab também procura drones e armas antiaéreas dos Houthis.
Omar Mahmood, investigador sénior sobre a Somália e o Corno de África no International Crisis Group, disse que as capacidades dos drones Houthis poderiam conferir ao al-Shabaab uma vantagem sobre as forças governamentais. Embora o grupo terrorista se concentre principalmente no sul da Somália, longe do Golfo de Áden, a tecnologia Houthi pode amplificar a sua presença, ainda reduzida, nas montanhas de Sanaag, no norte do país, Mahmood disse à revista The Africa Report.
“É possível que possam adquirir a tecnologia dos Houthis e utilizar essa área como base para lançar ameaças à navegação no Golfo de Áden,” disse Mahmood. “Mas provavelmente precisariam de expandir e estabilizar ainda mais a sua posição para representarem uma ameaça sustentada.”
O analista do Golfo, Alex Jalil, disse à revista que seria mais significativo se o al-Shabaab adquirisse os conhecimentos necessários para modificar, montar e fabricar drones localmente.
“A transferência de conhecimento é, em última análise, muito mais difícil de reverter do que a transferência de armas individuais,” disse Jalil.
A Ministra dos Negócios Estrangeiros do Iémen, Afrah Al-Zouba, disse que os Houthis estão a replicar a estratégia do Irão no Estreito de Ormuz no Mar Vermelho, ao perturbar o tráfego marítimo no estreito de Bab el-Mandeb. As ameaças dos Houthis levam alguns operadores de transporte marítimo comercial a evitar a zona, enquanto outros tomam precauções significativas durante a travessia. No final de Julho, dois petroleiros que transportavam petróleo bruto da Arábia Saudita para a Índia atravessaram o estreito de Bab el-Mandeb após desligarem os seus sistemas de identificação automática para evitar a detecção. Tal é invulgar no transporte marítimo comercial devido aos riscos de navegação.
“Mais significativo ainda, surgiram relatos de que os responsáveis Houthis estão a considerar a introdução de taxas de trânsito para os navios comerciais que utilizam o estreito de Bab el-Mandeb,” escreveram os analistas da Africa Ports & Ships.
Embora o número de ataques de piratas somalis esteja a aumentar, este flagelo não é tão grave como foi durante o seu pico na década de 2010. O consultor de segurança marítima, Andrew Mwangura, disse que os motivos da pirataria somali mudaram.
“Antes, as pessoas eram vigilantes levadas principalmente para o mar devido à pesca ilegal nas águas somalis e ao despejo de produtos químicos tóxicos,” Mwangura disse à Al Jazeera. “Agora, trata-se mais de capturar navios para obter resgate.”
Em Março de 2026, os piratas somalis libertaram um navio chinês capturado em Janeiro de 2026, após receberem cerca de 1,5 milhões de dólares em resgate.
No entanto, as ligações entre a pesca ilegal e a pirataria mantêm-se. O Centro de Cooperação e Sensibilização para a Informação Marítima da Marinha Francesa informou que os piratas somalis que operam em alto mar lançam normalmente ataques a partir de embarcações disfarçadas de barcos de pesca.
Abdifatah Mohamed Abdinur, Ministro de Estado da Casa do Estado da Puntlândia, disse que os piratas também estão ligados a outras redes criminosas na Somália e no Iémen, o que facilita operações mais próximas da costa iemenita, onde as taxas de sucesso nos sequestros são mais elevadas.
“Existe, sem dúvida, uma ligação, mas temos de juntar as peças para tornar o panorama geral mais claro,” Abdinur disse à Al Jazeera.
