Os países africanos partilham muitos desafios que nenhum país consegue resolver sozinho, desde o terrorismo e o tráfico de droga até à pesca ilegal e à fraca segurança nas fronteiras. Ao enfrentarem esses desafios, as nações, muitas vezes, têm dificuldades em mobilizar a sua arma mais eficaz: a confiança.
Sem confiança, a cooperação transfronteiriça e a colaboração regional necessárias para enfrentar esses desafios ficarão sempre aquém do necessário, segundo os líderes militares que se reuniram em Luanda, Angola, na conferência dos Chefes de Defesa Africanos (ACHOD).
A conferência serve como fórum fundamental para que altos oficiais militares abordem ameaças de segurança comuns, melhorem a estabilidade regional e discutam quadros de colaboração que permitam o investimento a longo prazo e o crescimento económico em todo o continente.
“A partilha de informações já não é uma questão de escolha,” o General Jacob John Mkunda, chefe das Forças de Defesa Popular da Tanzânia, disse na conferência que reuniu líderes militares de 35 países africanos.
No entanto, a partilha nem sempre é tão simples como deveria ser, segundo observou.
“O maior obstáculo à partilha de informações nem sempre é a tecnologia, mas sim a confiança,” afirmou Mkunda. “Da mesma forma, a maior oportunidade que temos diante de nós não é apenas a aquisição de novos sistemas, mas a construção de uma cultura de cooperação em que a informação seja partilhada de forma segura, rápida e com um objectivo definido.”
Embora África tenha passado décadas a construir estruturas de colaboração regional, tais como as Comunidades Económicas Regionais, e acordos de segurança marítima, como o Código de Conduta de Yaoundé, os governos e as forças armadas mostram-se, por vezes, relutantes ou incapazes de partilhar informações e recursos com os seus vizinhos.
“A primeira barreira é a confiança. A segunda barreira é a confiança. A terceira barreira é a confiança,” explicou o Almirante Renato Rodrigues de Aguiar Freire, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas do Brasil, que participou na conferência. O Brasil está a colaborar com países africanos para impedir que os traficantes de droga transportem narcóticos entre os dois continentes.
Freire disse que a falta de confiança pode ter origens políticas, como a ruptura causada quando o Burquina Faso, o Mali e o Níger abandonaram a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) em 2025. Mas também pode ter origem em tecnologias incompatíveis, estruturas jurídicas divergentes ou capacidades de acção diferentes.
“Nem todos os países possuem as mesmas capacidades tecnológicas, conhecimentos analíticos ou infra-estruturas necessárias para recolher, processar e divulgar informações de forma eficaz,” observou Mkunda.
Os países precisam de saber que as informações que partilham serão recebidas, compreendidas e utilizadas de forma eficaz, mantendo-se ao mesmo tempo fora do alcance de terroristas, traficantes e outros alvos, de acordo com os líderes.
“A cooperação pode reforçar a segurança nacional,” disse Freire.
Embora tecnologias como a inteligência artificial possam superar alguns dos desafios que os países enfrentam quando se trata de trabalhar em conjunto, cada colaboração bem-sucedida depende do reconhecimento dos interesses comuns que os países africanos partilham, o vice-almirante Oumar Wade, chefe das forças de defesa do Senegal, disse à ADF.
Isso pode exigir a superação do peso da história entre países e populações, acrescentou.
O General Olufemi Oluyede, chefe de defesa da Nigéria, destacou a relação de segurança do seu país com o Níger — uma relação que está a ser reconstruída após a ruptura do Níger com a CEDEAO — como um exemplo em que o interesse comum de combater o terrorismo está a superar a desconfiança.
“Em termos de operações, continuamos a cooperar, embora possa não ser tão elaborada como gostaríamos que fosse,” Oluyede disse à ADF.
Para muitos líderes militares, encontros como esta conferência desempenham um papel importante no desenvolvimento das relações que poderão utilizar mais tarde para enfrentar ameaças comuns.
“É importante fazer um balanço dos pontos fortes e fracos e de como nos podemos complementar,” o General Mpho Churchill Mophuting, chefe do Estado-Maior da Defesa do Botswana, disse à ADF. “O principal obstáculo à confiança é o egoísmo. Precisamos de encontrar um equilíbrio entre olharmos para nós próprios e olharmos para o exterior.”
