Quando dois grupos armados lançaram ataques coordenados em todo o Mali a 25 de Abril, incluindo um assalto impressionante à capital, Bamako, Saheed Babajide Owonikoko pensou na Nigéria.
Investigador do Centro para a Paz e Estudos de Segurança da Universidade Modibbo Adama, no Estado de Adamawa, no leste da Nigéria, Owonikoko disse que o Mali e a Nigéria têm muito em comum:
múltiplos grupos insurgentes extremistas, fronteiras porosas e uma presença governamental mínima nas zonas rurais, o que torna ambos os países vulneráveis a ataques.
“Como académico que tem acompanhado o desenrolar dos acontecimentos no Sahel, retiro lições para a Nigéria dos ataques de Abril no Mali,” escreveu num artigo de 24 de Maio para a The Conversation. “Essas lições incluem a possibilidade de aliança entre grupos armados, o perigo de os jihadistas avançarem para outros países do Sahel, a audácia dos grupos e a possibilidade de que os ganhos do JNIM [Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin] no Mali possam incitar grupos rivais na Nigéria.”
Nos últimos anos, o JNIM evoluiu de um grupo terrorista rural para uma força insurgente capaz de travar uma guerra urbana e económica complexa. O seu objectivo principal é derrubar o governo militar do Mali. Entre os seus objectivos mais amplos está a expansão para sul, rumo aos Estados costeiros do Golfo da Guiné, na África Ocidental, ricos em comércio.
Em Outubro de 2025, o JNIM reivindicou o seu primeiro ataque na Nigéria, matando um soldado na remota aldeia de Nuku, no Estado de Kwara, a cerca de 10 quilómetros da fronteira com o Benin. Os especialistas observaram com preocupação que a expansão do grupo para além dos seus bastiões no Sahel, de forma a ameaçar a Nigéria, poderia sinalizar um novo capítulo no terrorismo regional.
A lição mais importante a retirar dos ataques do JNIM em Abril, no Mali, é que o grupo continua a evoluir, de acordo com o analista de segurança independente Daniele Garofalo.
“A organização está a evoluir progressivamente para um actor armado híbrido, capaz de integrar a guerra de guerrilha, assaltos coordenados em grande escala, cooperação táctica com outros grupos armados, operações com recurso a drones, comunicação estratégica e influência psicológica numa campanha militar coerente,” disse à ADF num e-mail.
“Igualmente importante é o facto de o JNIM operar cada vez mais simultaneamente em vários domínios. … Isso representa uma evolução significativa na natureza da ameaça.”
Com o JNIM a pressionar para derrubar o governo militar do Mali, Owonikoko receia que o colapso do Estado transforme o Mali num refúgio e num campo de treino para terroristas que ameaçam toda a região.
“Se o Mali cair, o Burquina Faso e o Níger ficarão ameaçados,” escreveu. “A ameaça ao Níger é um problema significativo, porque se trata de uma zona-tampão para a Nigéria.”
Se os grupos armados na Nigéria unirem forças, tal como o JNIM fez com a Frente de Libertação do Azawad na sua mais recente ofensiva no Mali, Owonikoko acredita que tais alianças possam revelar-se extremamente difíceis de conter pelas forças de segurança da Nigéria.
“Há indícios de uma aliança em desenvolvimento entre terroristas do nordeste e bandidos das regiões centro-norte e noroeste da Nigéria,” escreveu. “Essas alianças, muitas vezes, têm-se traduzido em cooperação táctica, bem como na troca de membros e armas.”
Os grupos armados prosperam em zonas fronteiriças e áreas remotas onde a presença governamental e militar é escassa. Aproveitam-se das queixas da população local e, normalmente, posicionam-se como um sistema alternativo de autoridade.
“Há uma localização da jihad no Sahel central,” Jean-Herve Jezequel, director de projectos do grupo de reflexão Crisis Group, disse à Agence France-Presse para um artigo de 24 de Junho. “Existe uma grave crise de governação … os Estados, muitas vezes, têm negligenciado as zonas rurais e não têm conseguido resolver os conflitos relacionados com terras e recursos.”
Os especialistas instam os governos a empregarem uma combinação de abordagens militares e não militares para combater a propagação dos grupos armados. Muitos afirmam que a resolução das questões económicas fortaleceria as zonas rurais vulneráveis aos grupos extremistas.
Outros insistem que a Nigéria e outros países costeiros devem assumir papéis de liderança numa região que necessita desesperadamente de mais cooperação em matéria de segurança. Na Nigéria, Owonikoko acredita que as forças de segurança devem passar à ofensiva.
“A Nigéria também precisa de reestruturar a sua estratégia de combate ao terrorismo para ser mais ágil,” escreveu. “Em vez da sua actual postura defensiva, que dá aos jihadistas a oportunidade de planear, a Nigéria deveria adoptar uma estratégia antiterrorista ofensiva, sofisticada e estratégica, que leve a guerra até aos jihadistas.”
