Vários países africanos assinaram acordos de cooperação militar com a Rússia, depositando as suas esperanças em Moscovo enquanto enfrentam insurgências jihadistas. Até agora, porém, isso não parece ser uma estratégia vencedora, de acordo com os analistas.
Em 2025, o Togo juntou-se à lista de países africanos que procuram treino militar e partilha de informações de inteligência da Rússia, numa altura em que lida com a violência que se espalha do Sahel para a sua província mais setentrional.
A Rússia tem mercenários — primeiro o Grupo Wagner, agora o Africa Corps — estacionados no Burquina Faso, no Mali e no Níger há vários anos. Os combatentes foram convidados a entrar na região para ajudar as juntas governantes a derrotar grupos terroristas como o Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) e o grupo Estado Islâmico.
Até à data, a brutalidade e a violência indiscriminada dessas forças russas têm servido principalmente para exacerbar as tensões com a população civil e aproximá-la dos insurgentes jihadistas. Nos três países, os mercenários russos parecem agora estar a concentrar os seus esforços mais na protecção das juntas governantes do que na eliminação da ameaça terrorista.
“Bamako, Niamey e Ouagadougou têm contado com a Rússia para obter assistência no campo de batalha, mas a Rússia tem demonstrado pouca capacidade ou interesse em ajudar estes regimes a avançar para acordos políticos com grupos armados ou a resolver as falhas de governação que alimentam a insurgência,” o investigador Jean-Hervé Jezequel escreveu recentemente para o grupo de reflexão Carnegie Endowment for International Peace.
A análise de Jezequel fazia parte de um relatório mais abrangente, “A Rússia em África: Analisando a influência de Moscovo e os seus limites,” que reuniu múltiplas perspectivas sobre o impacto da presença da Rússia no continente.
A Rússia construiu as suas relações africanas recorrendo a campanhas de desinformação para apresentar Moscovo como a resposta aos problemas persistentes da região com as insurgências e o terrorismo. Até ao momento, a Rússia parece ser a maior beneficiária desses acordos, segundo o analista Priyal Singh, analista de risco no Instituto de Estudos de Segurança (ISS).
“Embora a Rússia obtenha benefícios simbólicos e geopolíticos amplos, tais como um perfil internacional reforçado, estes compromissos são, na sua maioria, oportunistas e transaccionais,” Singh escreveu recentemente para o ISS. “A sua assistência alargada em matéria de segurança parece ser motivada, por um lado, pelas preocupações de alguns líderes africanos quanto à sobrevivência dos seus regimes e, por outro, pelo acesso da Rússia a recursos naturais essenciais.”
A presença da Rússia na República Centro-Africana constitui um exemplo de como as suas relações na África Ocidental poderão evoluir. Os combatentes do Grupo Wagner chegaram a Bangui em 2018 ao abrigo de um acordo que remunerava os seus serviços através de concessões de exploração de ouro e diamante.
O Grupo Wagner tornou-se rapidamente uma componente fundamental do governo, assegurando a segurança do Presidente Faustin-Archange Touadéra, desempenhando funções de conselheiro de segurança nacional e chegando mesmo a supervisionar a segurança aduaneira e fronteiriça. Ao mesmo tempo, os combatentes do Grupo Wagner juntaram-se às forças armadas nacionais em campanhas contra grupos rebeldes que resultaram em execuções sumárias, violência contra civis e outras violações de direitos humanos.
“Moscovo continua a tentar expandir a sua influência por todo o continente com base neste manual de estratégias,” Singh escreveu para o Carnegie Endowment.
A Rússia celebrou um acordo em 2024 com a Guiné Equatorial e destacou forças do Africa Corps para apoiar o governo do presidente Teodoro Obiang Nguema Mbasogo. Aproximou-se da junta governante na Guiné e do governo da República do Congo, procurando acordos semelhantes.
No Sahel, as juntas optaram por expulsar as forças francesas e norte-americanas, bem como as forças de manutenção da paz das Nações Unidas. Ao fazê-lo, as juntas tornaram-se exclusivamente dependentes da Rússia no que diz respeito à ajuda militar e, potencialmente, à ajuda económica.
“Estão em conflito com toda a gente. Estão encurraladas,” o analista Wassim Nasr, do Soufan Center, disse à ADF.
No entanto, a Rússia parece ter cada vez mais dificuldade em cumprir a sua parte nos acordos que celebrou com os países africanos. Os esforços militares da Rússia no Sahel pouco contribuíram para travar a expansão do JNIM ou do EI. Com os seus recursos financeiros dedicados à invasão da Ucrânia, Moscovo tem pouco a contribuir para a reconstrução ou para a ajuda ao desenvolvimento, observou Jezequel.
A propaganda pode polir a imagem da Rússia em África, mas não pode substituir progressos tangíveis, acrescentou.
“A Rússia pode já ter atingido o auge da sua popularidade,” escreveu Jezequel.
