Membros das forças armadas da Líbia e da Costa do Marfim afirmam que a edição de 2026 do Flintlock demonstrou como os operadores das forças especiais de nações africanas podem estabelecer parcerias transfronteiriças para enfrentar as crescentes ameaças terroristas no continente.
Oficiais dos dois países intervieram num painel de discussão em Tampa, na Flórida, no final de Maio, após a conclusão do exercício realizado entre 14 e 30 de Abril. Cerca de 1.500 militares de mais de 30 países africanos e parceiros internacionais participaram no exercício organizado pela Costa do Marfim e pela Líbia.
A Líbia acolheu o Flintlock pela primeira vez. Foi também a primeira vez que as duas facções militares rivais da Líbia participaram num exercício deste tipo, treinando lado a lado. A participação das duas forças militares da Líbia foi possibilitada pelo Comité Militar Conjunto 3+3 da Líbia, que consiste em seis oficiais superiores — três do Exército Nacional da Líbia (LNA), com base no leste, e três do Governo de Unidade Nacional (GUN), alinhado com o oeste. A Missão de Apoio das Nações Unidas na Líbia apoiou a participação das duas facções e renovou o seu apoio à eventual unificação do país.
As duas facções líbias estabeleceram um centro de operações conjuntas em Sirte, onde trabalharam com países parceiros no planeamento e coordenação. Os cenários de treino em ambos os centros centraram-se na incorporação de técnicas de inteligência, vigilância e reconhecimento com pequenos drones, e no cumprimento do direito internacional.
O exercício tornou a integração civil-militar uma prioridade. Os organizadores do treino afirmaram que o exercício ajudou a garantir que as acções tácticas pudessem transitar legalmente para os sistemas judiciais.
Construir confiança e laços duradouros entre os países participantes foi “uma das maiores conquistas” do exercício, afirmou o Coronel Kitchafolwori Sekongo, comandante-adjunto das Forças Especiais da Costa do Marfim. Ele afirmou que os países trabalharam bem em conjunto, apesar de “cada país ter a sua própria doutrina, a sua própria cultura.” As ligações estabelecidas durante o exercício, disse ele, “devem ser mantidas.”
“É fácil lutar ao lado de alguém com quem se treinou,” afirmou.
Desde a queda de Muammar Kadhafi em 2011, a Líbia tem estado dividida entre o que evoluiu para duas coligações militares rivais. Embora o panorama político no país continue a evoluir, a divisão militar fundamental tem-se mantido constante. A Segunda Guerra Civil da Líbia terminou em 2020, mas a existência de exércitos rivais continua a ser um dos principais obstáculos à reunificação e estabilidade da Líbia.
O Tenente-Coronel Mohamed Dakhel Musbah, do LNA, afirmou que o exercício anual Flintlock constrói uma base de “respeito e profissionalismo,” acrescentando que “a cooperação em matéria de segurança tem a ver com confiança, não apenas com equipamento.”
Sekongo afirmou que o Flintlock deste ano foi uma revelação em termos de avanços tecnológicos. Ele afirmou que, nos anos anteriores, esses avanços eram considerados “fora do nosso alcance,” mas algumas armas modernas, particularmente os drones, “podem ser adquiridas prontas a usar,” o que alterou o ambiente operacional.
“O Flintlock deu-nos mais capacidade para lidar com esta tecnologia,” disse, acrescentando que mais países africanos precisam de fazer “parte do processo de inovação.”
Os participantes do fórum de Tampa afirmaram que a utilização de drones na guerra entre a Rússia e a Ucrânia, bem como o uso crescente de drones por parte de terroristas, demonstra que os exércitos modernos precisam de saber como utilizar as novas tecnologias e como as combater.
“Precisamos de ter as nossas próprias soluções,” afirmou Sekongo, acrescentando que a necessidade de pessoas com competências tecnológicas alterou a forma como o seu país recruta membros para as suas forças armadas.
Os participantes do painel afirmaram que as discussões com outros países durante o exercício lhes mostraram que o terrorismo é agora uma ameaça para todo o continente, e não apenas para países individuais.
O Tenente-Coronel Abdalla Ramandan Emhend Elmasudi, do GUN, afirmou que a participação da Líbia no Flintlock demonstrou que o país era “capaz de fazer parte de algo desta magnitude.” O treino, considerou, ajudará nas futuras preocupações de segurança da Líbia.
Dakhel disse que a Líbia quer continuar a desempenhar um papel construtivo nesse tipo de treino.
“Só podemos estar optimistas,” disse Sekongo. “Agora percebemos que uma nação sozinha não pode ter sucesso nesta luta. Precisamos de nos unir mais.”
