Mais de 400 congoleses foram mortos em bombardeamentos e execuções em oito cidades da província de Kivu do Sul durante um período de uma semana no início de Dezembro de 2025.
A violência obrigou centenas de milhares de pessoas a fugir para o vizinho Burundi e outras áreas, e levou a uma avaliação contundente das Forças Armadas da República Democrática do Congo (FARDC) por parte da Comissão de Defesa e Segurança da Assembleia Nacional, que se reuniu na sequência da carnificina.
Analisada pela revista The Africa Report, a avaliação destacou a falta de uma política militar para manter uma presença de segurança em áreas cruciais, a fraca coesão, a frágil cadeia de comando, a má rotação de tropas, a escassa adaptação de novas tecnologias e o uso ineficaz de informações de inteligência.
O relatório também revelou relações tensas com o Exército ugandês, destacado para a RDC para combater o notório grupo M23, as Forças Democráticas Aliadas e outras facções rebeldes.
Levantou ainda a possibilidade de espiões se terem infiltrado nas forças armadas e destacou a má gestão das forças Wazalendo, milicianos locais que colaboram com as FARDC.
“Sem medidas fortes, coordenadas e imediatas, o país está exposto a uma crise generalizada de segurança interna com graves consequências políticas, sociais e económicas,” afirmou o Ministro do Interior da RDC, Jacquemain Shabani Lukoo, segundo a The Africa Report.
Durante a reunião da Comissão de Defesa e Segurança, Lukoo afirmou que a violência não se limitava ao leste da RDC, estendendo-se à província de Ubangi do Norte, no noroeste, e à província de Tanganhica, onde tropas zambianas apoiam as FARDC. Lukoo lamentou a proliferação de armas de pequeno calibre, a corrupção entre os serviços de segurança, a pobreza entre os jovens e a mobilização inadequada das forças de defesa e segurança.
O Ministro da Defesa, Guy Kabombo Muadiamvita, lamentou que, embora as FARDC tivessem recebido drones estratégicos de longo alcance e meios aéreos de combate, as forças opositoras adquiriram capacidades de interferência e antiaéreas que neutralizam o armamento militar. Muadiamvita apelou a uma nova abordagem de combate ao terrorismo que combine informação, diplomacia e política económica com acção militar.
O sucesso “só será alcançado através de uma profunda reforma do sector da segurança em geral e do sistema de defesa militar em particular,” afirmou Muadiamvita, segundo a The Africa Report.
A situação continua agravada pelo não pagamento de um subsídio especial de combate mensal de 320 dólares a 18.000 soldados. Em Dezembro, estes soldados tinham a receber 150 milhões de dólares. No final de Abril, o dinheiro continuava por pagar, segundo a The Africa Report, que acrescentou que foram aprovados mais 5,1 milhões de dólares para esforços de guerra, mas esse dinheiro não foi utilizado.
Na reunião de Dezembro, o Ministro do Orçamento, Adolphe Muzito, revelou que apenas 74% do orçamento da defesa, no valor de 7,8 biliões de francos congoleses (3,42 milhões de dólares), foram gastos no ano passado. O Ministro das Finanças, Doudou Fwamba, informou que 4 milhões de francos congoleses (1.750 dólares) mensais foram destinados aos Wazalendo, que a Comissão de Defesa e Segurança caracterizou como mal geridos, “desorganizados” e “incontroláveis.”
No que diz respeito aos Wazalendo, Fwamba referiu as preocupações levantadas por organizações de direitos humanos sobre “a dificuldade de distinguir patriotas disciplinados de perpetradores oportunistas de violência,” de acordo com a The Africa Report. Tal como os soldados das FARDC e o M23, os Wazalendo têm sido acusados de violar mulheres e de cometer outras violações generalizadas dos direitos humanos contra civis.
“As relações formais entre os Wazalendo e as FARDC não podem ser institucionalizadas,” afirmou Fwamba. Ele instou que as operações evoluíssem “no âmbito de um sistema de defesa popular regido por regras de combate e pelo respeito pelo direito humanitário.”
Em algumas partes da província de Kivu do Sul, alguns membros dos Walazendo desertaram e formaram gangues armadas que extorquem a população local, enquanto outros se juntaram ao M23, informou a Agência de Notícias Fides em Abril.
Segundo Lukoo, os efectivos policiais eram insuficientes para cobrir eficazmente todo o país, e cerca de 12.000 recrutas aguardavam formação.
A violência na RDC continua a expandir-se para além da fronteira oriental em conflito. No dia 31 de Maio, combatentes das Forças Democráticas Aliadas invadiram Beni, na fronteira ocidental com o Uganda, e mataram pelo menos 15 civis e um soldado durante o primeiro ataque à cidade em três anos. Os sobreviventes reagiram com uma mistura de confusão e raiva.
“Membros da minha família foram mortos, mas eu consegui escapar,” um sobrevivente disse ao canal de notícias France 24. “Estamos a pedir ajuda ao governo. Não compreendemos por que nos massacraram, nos mataram — assim, sem mais nem menos.”
Outro sobrevivente apelou à substituição dos comandantes militares responsáveis pelas operações locais e pelos serviços de informação.
“O ataque ocorreu às 22h00, mas ninguém veio ajudar-nos,” o homem disse à France 24.
