De acordo com a revista Defense News, estes voos coincidiram aproximadamente com as entregas de vários tipos de aviões de guerra de fabrico russo à Argélia, onde os jactos foram vistos e ouvidos a rugir sobre o campo perto da Base Aérea de Oum El Bouaghi. A misteriosa frota do Kremlin é conhecida como “Air Wagner,” em referência aos mercenários russos envolvidos em zonas de conflito africanas. Os padrões de voo da frota sugerem que esta fornece apoio logístico ao Africa Corps, o sucessor do Grupo Wagner.
“Argel parece ser uma base de operações conveniente para as operações na África Ocidental, e uma que pode estar sob menos escrutínio do que algumas outras bases de operações anteriormente utilizadas pela Rússia para abastecer os seus mercenários no continente,” escreveu Linus Höller, correspondente da Defense News.
A Rússia é o principal fornecedor de armas da Argélia, e Argel está actualmente a receber caças russos Su-57 e Su-35, enquanto continua a operar uma frota de cerca de 60 caças multifuncionais Su-30 e cerca de 40 caças de superioridade aérea MiG-29, segundo o relatório. O Kremlin utiliza bases aéreas na Argélia e noutras partes do continente para evitar as sanções impostas após a Rússia ter atacado a Ucrânia. As vendas de armas russas financiam a sua guerra.
Muitas das aeronaves russas a operar na Argélia pareciam tentar evitar a detecção, falsificando o seu itinerário e desligando os seus transponders de Vigilância Automática Dependente-Transmissão (ADS-B). No entanto, a Defense News rastreou aeronaves russas a caminho da Guiné e de outros países africanos depois de saírem da Argélia. Moscovo está fortemente envolvida no sector mineiro da Guiné, e o país é um ponto de trânsito para entregas de armas russas no Sahel.
A Argélia é uma das várias paragens dos voos russos pelo continente, muitos dos quais estão provavelmente ligados a remessas de armamento novo.
“Penso que esta é uma explicação bastante razoável para estes voos,” Margaux Garcia, analista sénior da organização global sem fins lucrativos de segurança C4ADS, disse numa reportagem da Defense News.
Duas das companhias aéreas russas envolvidas nestas operações, a Gelix e a Aviacon Zitotrans, são tecnicamente geridas por civis, mas operam em nome do Gabinete de Gestão de Propriedade do Estado do Kremlin e estão directamente subordinadas ao presidente russo, Vladimir Putin.
“O uso de companhias aéreas contratadas dá ao Kremlin mais capacidade e acesso mais fácil aos procedimentos da aviação civil do que voar com aviões do governo ou militares no estrangeiro, para não mencionar uma camada de ofuscação e negação plausível,” escreveu Höller.
Em Janeiro de 2025, navios de carga russos sujeitos a sanções transportaram cerca de 100 veículos militares russos, incluindo tanques ligeiros e veículos blindados, da Guiné para o Mali. Helicópteros de combate e de transporte de tropas russos, bem como caças Sukhoi e L-39, foram entregues no Mali em 2023, segundo noticiou o jornal francês, Le Monde.
Desde que convidaram mercenários russos para o Mali em 2021, tanto as forças malianas como as russas cometeram atrocidades contra civis, enquanto a junta governante de Bamako combate os rebeldes Tuaregues e os grupos terroristas Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) e Estado Islâmico no Sahel. O JNIM impôs um bloqueio ao abastecimento de combustível a Bamako, a capital nacional, desde Setembro de 2025.
Os mercenários russos, agora conhecidos como Africa Corps, também estão activos no Níger, país rico em urânio e liderado pela junta. No final de 2025, a Rússia começou a transportar 1.000 toneladas métricas de urânio através de um transporte aéreo em Niamey, a capital do Níger. No início de Dezembro, uma aeronave que responde directamente a uma unidade de voo militar russa fortemente sancionada partiu do Níger com urânio antes de voar para a Líbia. O transponder da aeronave foi desligado durante partes da viagem, de acordo com o jornal italiano, Il Foglio.
A aeronave, que também operou a partir do Mali, foi detectada por duas vezes a voar da Líbia para o Burquina Faso antes de aterrar novamente na Líbia nos dias 7 e 8 de Dezembro. Mercenários russos apoiam a junta militar do Burquina Faso, enquanto Moscovo há muito que utiliza a Líbia como porta de entrada para ajudar a alargar a sua influência no norte e na África Subsariana. O avião reabasteceu na Síria antes de regressar à Rússia.
“Estas aeronaves têm um alcance máximo de cerca de 5.000 quilómetros, pelo que têm de fazer várias paragens em viagens tão longas entre a Rússia e o Sahel,” um especialista em inteligência de fontes abertas que acompanha os voos russos no Sahel disse ao Il Foglio. “Mas não sabemos se o urânio foi descarregado em algum momento durante estas paragens ou se foi todo transportado para a Rússia.”
De acordo com a Defense News, as aeronaves russas também utilizam a Argélia, a Guiné e, ocasionalmente, a Mauritânia como escalas em voos para o Brasil, a Bolívia, a Colômbia, a Venezuela, o México e Cuba antes de regressarem à Rússia. As aeronaves também voavam, por vezes, de bases aéreas militares argelinas para aeroportos dos Emirados Árabes Unidos antes de regressarem à Rússia.
