A junta governante do Mali e os seus apoiantes russos lançaram recentemente ataques aéreos sobre Kidal, a cidade do norte controlada desde o final de Abril pela Frente de Libertação do Azawad, dominada pelos Tuaregues e conhecida pela sua sigla francesa, FLA.
O ataque foi uma resposta à perda do controlo da cidade depois de uma força conjunta de combatentes da FLA e do Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) ter expulsado o Exército do Mali e o Africa Corps da Rússia, que controlavam a cidade desde 2023.
Kidal é o coração da pátria Tuaregue, que se estende por partes do Deserto do Sahara e do Sahel e inclui secções da Argélia, Mali, Mauritânia e Níger. Embora grupos Tuaregues anteriores tenham colaborado com grupos terroristas, a operação para expulsar as forças militares de Kidal foi a primeira vez que a FLA e o JNIM trabalharam em conjunto contra o governo. O governo do Mali declarou a FLA como um grupo terrorista ao mesmo nível do JNIM e do Estado Islâmico na Província do Sahel — uma alegação que a FLA nega.
“A FLA é simplesmente a continuação de uma luta que há muito é travada por esta população, que sofreu tantos massacres e agora resiste,” afirmou o porta-voz da FLA, Mohamed Elmaouloud Ramadane.
Há mais de 60 anos que os Tuaregues do norte do Mali exigem um Estado independente a que chamam Azawad. O seu movimento assumiu vários nomes e formas ao longo dos anos, sendo o mais recente a FLA.
O acordo de paz dos Acordos de Argel de 2015 pôs fim à revolta Tuaregue que teve início em 2012. Ao abrigo desse acordo, os rebeldes Tuaregues evitaram confrontos armados com o governo e afastaram-se de grupos violentos.
Apesar do crescimento do JNIM e do Estado Islâmico no centro do Mali, a junta centrou a sua atenção na subjugação do norte. Conquistou Kidal no final de 2023 com a ajuda do Africa Corps. Pouco tempo depois, anulou os Acordos de Argel e reacendeu a rebelião Tuaregue.
A FLA declarou-se oficialmente a 30 de Novembro de 2024. No dia seguinte, drones militares malianos mataram Fahad Ag Almahmoud, um dos principais líderes do grupo. Com isso, a junta passou de combater dois grupos, o JNIM e o ISSP, para combater três, uma vez que a FLA pegou em armas contra o governo.
Em Julho de 2024, seis meses depois de a junta ter rasgado os Acordos de Argel, combatentes da FLA emboscaram uma operação conjunta do Mali e do Africa Corps (então conhecido como Grupo Wagner) nos arredores da cidade de Tinzouatin, na fronteira com a Argélia. As forças em retirada viram-se rapidamente em território controlado pelo JNIM. Dezenas de soldados e mercenários morreram. Pouco depois, o Grupo Wagner declarou que estava a abandonar o Mali para ser substituída pelo Africa Corps.
A associação da FLA com o JNIM é um casamento de conveniência, segundo o analista Bulama Bukarti.
“Os dois grupos têm um inimigo comum, que é o governo maliano,” Bukarti disse ao programa Focus on Africa da BBC. “Mas não têm um projecto comum.”
A FLA procura a independência da região de Azawad, enquanto o JNIM quer expulsar a junta no poder e, em última instância, assumir o controlo do governo. A FLA, que conta com apoio popular no norte, confere ao JNIM uma aparência de legitimidade, pois este se envolve em bloqueios económicos, tomada de reféns e outras acções destinadas a reduzir o apoio ao governo, acrescentou Bukarti.
“Trata-se de uma coordenação militar táctica para enfrentar um inimigo comum,” afirmou Ramadane. “A FLA não é, de forma alguma, responsável pelas acções levadas a cabo pelo JNIM.”
Ahmadou Touré, director do Centro de Investigação sobre Governação, Mediação e Segurança no Sahel, com sede em Bamako, descreveu a aliança FLA-JNIM como “uma hibridização do separatismo e do jihadismo internacional.”
Touré disse à Radio France International (RFI) que a associação da FLA com os terroristas do JNIM mancha a sua pretensão de ser um movimento político.
“Através dos seus métodos violentos, a FLA ameaça a integridade territorial do Mali, provoca o deslocamento da população e compromete a estabilidade nacional,” Touré disse à RFI. “As verdadeiras negociações de paz exigem o desarmamento como condição prévia e uma rejeição clara do terrorismo.”
