Este ano, o Togo deverá receber quatro aeronaves de ataque ligeiro Embraer A-29 Super Tucano no valor de 82 milhões de dólares. Concebida para conflitos de baixa intensidade, a aeronave brasileira deverá reforçar a luta do Togo contra o grupo terrorista Jama’at Nusrat al Islam wal Muslimin (JNIM), afiliado à al-Qaeda, que expandiu as suas operações de Burquina Faso e outras partes da região do Sahel para a costa da África Ocidental.
O acordo relativo ao A-29 inclui formação de pilotos e assistência na manutenção técnica. As aeronaves, conhecidas pela sua eficácia em operações de contra-insurgência em terrenos difíceis, irão operar principalmente a partir da Base de Caças de Niamtougou, no norte do país, para aumentar a vigilância e o poder de fogo numa área de savanas e florestas onde os terroristas se escondem. As aeronaves têm um bom desempenho em bases de operações avançadas e em terrenos acidentados com pistas precárias.
Não se sabe quando os quatro Super Tucanos turbopropulsores serão entregues, mas a aquisição representa “a modernização mais significativa da Força Aérea do Togo em décadas” e “uma transição deliberada e acelerada na doutrina militar togolesa: da monitorização passiva das fronteiras para uma postura de ataque de contra-insurgência activa e com capacidade de precisão,” escreveram os investigadores do site African Security Analysis.
Os A-29 são utilizados em vários países africanos, incluindo a Nigéria, que recebeu uma dezena de Super Tucanos em Julho de 2021. Em Agosto de 2024, a Força Aérea Nigeriana tinha registado 10.000 horas de voo com a aeronave, que utiliza em operações de combate ao terrorismo contra o Boko Haram e outros grupos. A Nigéria recebeu os aviões dos Estados Unidos num negócio de 500 milhões de dólares que incluiu peças sobressalentes para suportar vários anos de operações, apoio logístico contratado, munições e um projecto de construção plurianual para modernizar as infra-estruturas na base de Kainji, no Estado do Níger.
Características do Super Tucano
O A-29 possui uma estrutura reforçada e tanques de combustível auto-vedantes para resistir a disparos de armas ligeiras a partir do solo, o tipo de munições comumente usadas pelo JNIM. Inclui um motor de 1.600 cavalos de potência capaz de transportar uma carga útil de 1.550 quilogramas em cinco “pontos de fixação,” que são pontos estruturais em aeronaves militares que transportam cargas externas, geralmente nas asas ou na fuselagem.
Os Super Tucanos representam um afastamento da aeronave de treino Socata TB-30 Epsilon que as forças togolesas têm utilizado desde a década de 1980. Os Epsilons ofereciam capacidade básica ar-terra, mas careciam de autonomia e integração de sensores, segundo relatou a revista Military Africa.
Os sensores do A-29 incluem pods optrónicos, que são sistemas de sensores electroópticos e de infravermelhos utilizados para operações de reconhecimento, vigilância e localização de alvos. Estes pods ajudarão as tripulações togolesas a identificar e rastrear alvos a longas distâncias.
“Esta capacidade altera fundamentalmente a dinâmica táctica na região de Savanes, onde as unidades do JNIM têm explorado as limitações dos meios de reconhecimento e ataque existentes do Togo para conduzir operações de ataque relâmpago com relativa impunidade,” de acordo com a African Security Analysis.
A Ameaça do JNIM
Entre outras áreas, o JNIM opera a partir da província de Kompienga, no sudeste do Burquina Faso, que faz fronteira com o Togo. Devido à fronteira porosa, a prefeitura togolesa de Kpendjal tem sido cada vez mais alvo de ataques terroristas, embora a violência tenha começado a alargar-se para além das zonas fronteiriças no ano passado.
Num estudo para a Fundação Konrad Adenauer, o especialista em segurança Mathias Khalfaoui disse, em Agosto de 2025, que a expansão do JNIM para o Togo estava a “tornar-se evidente.” Não foram relatados ataques de grande envergadura do JNIM este ano no Togo, mas mais de 60 pessoas, incluindo 54 civis e oito soldados, foram mortas em 15 incidentes terroristas entre 1 de Janeiro e 30 de Julho de 2025.
O politólogo togolês, Madi Djabakate, disse à Agence France-Presse que as prefeituras de Kpendjal e Kpendjal Ocidental, no norte do Togo, são particularmente vulneráveis devido à ausência de forças estatais.
“Os funcionários públicos destacados para estas áreas encaram a sua missão como um castigo, dadas as condições de vida difíceis e a ausência de serviços públicos,” afirmou Djabakate.
Uma mudança na estratégia terrorista do JNIM ocorreu em Abril de 2025, quando os terroristas utilizaram pela primeira vez um drone kamikaze num ataque na região de Savanes que feriu seis soldados. O grupo é também conhecido por realizar atentados suicidas e utilizar dispositivos explosivos improvisados e equipamento militar avançado apreendido às forças nacionais, particularmente às de Burquina Faso, Mali e Níger.
