EQUIPA DA ADF
Desde que convidou mercenários russos para o Mali em 2021, a junta governante do país tem centrado a sua atenção em subjugar os rebeldes Tuaregues do norte. Os analistas acreditam que a decisão permitiu que os grupos terroristas Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) e Estado Islâmico no Sahel expandissem a sua presença no país e ameaçassem a economia do Mali com bloqueios.
Apoiada pelo Africa Corps, da Rússia, a abordagem de mão pesada das forças armadas malianas matou milhares de pessoas suspeitas de serem rebeldes ou terroristas, simplesmente devido à sua etnia. Essas mortes — muitas delas execuções sumárias — ajudaram, por sua vez, esses mesmos grupos a recrutarem novos membros.
“Enquanto concentravam os seus esforços contra os rebeldes em pequenas cidades no deserto, o JNIM estava a ficar cada vez mais forte nos arredores de Bamako,” o analista Wassim Nasr disse à ADF numa entrevista. “Eles acharam que seria uma boa ideia reconquistar o norte e alimentar a propaganda. Isso saiu pela culatra.”
A junta reabriu as hostilidades contra os Tuaregues em Janeiro de 2024, quando abandonou os Acordos de Argel de 2015, um acordo de paz entre o então governo democraticamente eleito do Mali e o que se tornou a Frente de Libertação do Azawad (FLA). Meses antes, em Novembro de 2023, as forças armadas do Mali tinham retomado o reduto Tuaregue de Kidal com a ajuda de mercenários do Grupo Wagner, da Rússia.
A campanha contra os Tuaregues e outros grupos no norte ocorreu mesmo enquanto terroristas do JNIM, apoiado pela al-Qaeda, e do Estado Islâmico no Sahel ganhavam terreno na parte central do país, acabando por cercar a capital e bloquear o tráfego de camiões provenientes do Senegal e da Costa do Marfim.
A junta maliana convidou mercenários russos a entrar no país após pôr fim à relação do Mali com a França, cujas operações de combate ao terrorismo, Barkhane e Serval, duraram mais de uma década. A Operação Barkhane ajudara o governo a restabelecer o controlo sobre as províncias do norte, lançando as bases para os Acordos de Argel.
A junta também expulsou a missão de manutenção da paz das Nações Unidas, a MINUSMA, no final de 2023. No seu lugar, mercenários russos e soldados malianos lançaram campanhas brutais contra suspeitos de terrorismo. A mais notória delas foi um ataque de três dias contra a comunidade de Moura, no centro do Mali, onde combatentes do Grupo Wagner executaram centenas de homens da etnia Fulani.
O massacre de Moura e os ataques subsequentes a comunidades suspeitas de abrigar terroristas viraram a população civil contra tanto a junta como o Grupo Wagner, levando mais pessoas a juntarem-se ao JNIM, ao Estado Islâmico no Sahel e à FLA. Entretanto, a junta não está a fazer nada para ganhar a confiança do público, considerou Nasr.
“Eles não construíram alguma escola,” acrescentou. “Não construíram alguma estrada. O único projecto que têm é ‘Odiamos a França. Odiamos o Ocidente.’”
A campanha de brutalidade do Grupo Wagner terminou na comunidade de Tinzouatin, no norte, em Julho de 2024, quando combatentes Tuaregues emboscaram uma força conjunta do Mali e do Grupo Wagner, empurrando-os para o território controlado pelo JNIM, que também os atacou. No final, quase 50 soldados e mais de 80 mercenários morreram.
“Foi então que o Grupo Wagner deixou de ser Wagner e a designação mudou,” explicou Nasr. Nas semanas que se seguiram, o Grupo Wagner anunciou que estava a sair do Mali. O novo Africa Corps, composto por muitos veteranos do Grupo Wagner, tomou o seu lugar.
“Embora os objectivos a longo prazo da FLA e do JNIM não sejam claros, a parceria está, por enquanto, a enfraquecer efectivamente ainda mais o governo,” os analistas do Soufan Center escreveram recentemente.
O Mali continua a pagar ao Africa Corps cerca de 10 milhões de dólares por mês pelos seus serviços. Esses serviços, no entanto, tornaram-se mais limitados. O Africa Corps prefere permanecer nas suas bases, operando drones em apoio às patrulhas malianas.
“Eles ainda saem, mas estão menos confiantes,” disse Nasr.
No final de Abril, quando o Africa Corps se juntou aos soldados malianos numa tentativa de defender Kidal contra um ataque conjunto do JNIM e da FLA, os mercenários fugiram, deixando Kidal nas mãos da FLA. Um ataque separado no mesmo dia matou o Ministro da Defesa do Mali.
Perante a derrota no campo de batalha, o Africa Corps mudou o seu objectivo principal para a protecção da junta, numa altura em que o JNIM expande o seu controlo para além de Bamako, segundo Nasr. Isso inclui proteger o aeroporto internacional de Bamako e obter combustível e outros recursos através dos bloqueios do JNIM. A junta não dá sinais de querer negociar com o JNIM ou a FLA. Em vez disso, os líderes do Mali dependem de mercenários para a sua sobrevivência, observou Nasr.
“Eles não têm escolha. Estão em conflito com toda a gente. Estão encurralados,” disse Nasr. “Continuam a pagar porque o Africa Corps é o seu seguro de vida.”
