Moçambique tem sido, há muito, um ponto de trânsito fundamental para o tráfico de drogas como a cocaína, a heroína, a metanfetamina e os opiáceos, mas detenções recentes e dados governamentais mostram que o negócio da droga está a expandir-se a par de preocupações crescentes com problemas de dependência a nível nacional.
Após meses a investigar provas e rumores sobre a actividade de cartéis internacionais e, pelo menos, dois laboratórios clandestinos de drogas na capital do país, a polícia deteve três homens — um moçambicano e dois cidadãos mexicanos — durante uma operação antidrogas realizada a 11 de Abril no Aeroporto Internacional de Maputo.
“Existem fortes indícios que ligam os três detidos ao tráfico internacional de drogas, à falsificação de documentos e à associação criminosa,” o Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC) disse num comunicado de 16 de Abril. “Os dois mexicanos foram identificados como membros do Cartel de Sinaloa, no México, e pretendiam estabelecer-se no território nacional, especificamente no distrito de Matutuine, na província de Maputo.”
Cartel dominante no México, Sinaloa foi fundado em 1987 e é considerado uma das maiores organizações criminosas transnacionais do mundo. A sua actividade principal é a distribuição de cocaína, heroína, metanfetamina, fentanil, canábis e MDMA.
Em Novembro de 2025, o Ministro do Interior de Moçambique, Paulo Chachine, anunciou que a Interpol tem uma equipa no país a trabalhar com as autoridades locais para combater o crime organizado e o tráfico de drogas. A Interpol também está a realizar operações conjuntas com forças locais simultaneamente na Namíbia, na África do Sul e no Zimbabwe.
Após as detenções em Maputo, a polícia revistou a casa do detido moçambicano e encontrou vestígios de produtos químicos utilizados como precursores de drogas. Suspeitando que grandes quantidades tivessem sido movimentadas durante a noite, a polícia realizou, a 21 de Abril, uma rusga a um armazém, onde apreendeu 10 toneladas métricas de ácido em pó e mais de 2.000 litros de produtos químicos líquidos comumente utilizados na produção de drogas.
“O SERNIC está a cooperar com as autoridades sul-africanas e mexicanas para esclarecer o caso, e há suspeitas do envolvimento de alguns cidadãos nigerianos, bem como ligações a um potencial traficante de droga sediado na África do Sul,” afirmou o porta-voz nacional do SERNIC, Hilário Lole, de acordo com a agência de notícias portuguesa, Lusa. “De acordo com análises forenses derivadas de contactos telefónicos extraídos dos detidos, foi possível identificar conversas com contactos mexicanos, incluindo imagens de pacotes de droga.”
Em Janeiro, as autoridades do Botswana detiveram seis homens mexicanos por entrarem ilegalmente no país. A polícia localizou-os após receber alertas da Interpol que ligavam os homens a acusações de tráfico de drogas em Moçambique, onde violaram a sua liberdade condicional sob caução. Estão a ser extraditados para Moçambique.
“A linha de investigação mais forte sugere que têm ligações ao Cartel de Sinaloa, dado que dois deles possuem certidões de nascimento emitidas naquele Estado,” disse uma fonte da Interpol ao jornal mexicano Milenio para um artigo de Janeiro.
Em Maio de 2025, a polícia do Malawi em Lilongwe colaborou com agentes de combate a drogas dos Estados Unidos para deter seis homens mexicanos no Aeroporto Internacional Kamuzu, quando se dirigiam para Moçambique, alegadamente para instalar laboratórios de droga que serviriam de centros de distribuição para vários países africanos.
As autoridades afirmam que os cartéis mexicanos estão cada vez mais a contrabandear matérias-primas através da África Ocidental e a fabricar droga na África Austral. Esta mudança está a criar uma epidemia de abuso de drogas na região.
Em 2025, as autoridades moçambicanas apreenderam aproximadamente 4,4 toneladas métricas de drogas ilícitas no valor de mais de 2,8 milhões de dólares em operações que também levaram à detenção de mais de 600 pessoas, de acordo com um relatório de 15 de Abril do Gabinete Central de Prevenção e Combate à Droga (GCPCD). Em 2025, o número de pessoas tratadas em hospitais moçambicanos por consumo de drogas aumentou 38%, para 32.281, e o governo gastou quase 1,4 milhões de dólares no tratamento de consumidores de drogas.
“A localização geográfica de Moçambique, como corredor que liga a África Oriental e a África Austral, torna o país particularmente vulnerável ao tráfico ilícito de drogas,” lê-se no relatório.
O relatório também indica que Maputo se situa no meio de importantes rotas de drogas que se estendem do Afeganistão à África do Sul para anfetaminas, metanfetaminas e heroína, e de São Paulo, no Brasil, à África do Sul para a cocaína. Em 2025, 42 cidadãos moçambicanos foram detidos no estrangeiro sob acusação de tráfico de drogas em 13 países, incluindo 22 no Brasil.
“As rotas são conhecidas e permanentes, o que exige o reforço contínuo das acções de controlo,” o porta-voz do GCPCD, José Bambo, disse numa conferência de imprensa, no dia 15 de Abril.
