No dia 3 de Maio, as Forças de Apoio Rápido (RSF) do Sudão lançaram um ataque com drones contra uma instalação de armazenamento de combustível na Kenana Sugar Co. Ltd., no Estado do Nilo Branco, incendiando uma das infra-estruturas económicas mais importantes do país e enfraquecendo a segurança alimentar da nação.
“O ataque a instalações que tinham acabado de retomar as operações após anos de paralisação demonstra uma guerra económica sistemática que agrava a crise humanitária do Sudão,” a Rede de Darfur para os Direitos Humanos publicou num comunicado sobre o ataque no X.
O ataque a Kenana ocorreu semanas depois de a guerra civil do Sudão ter entrado no seu quarto ano. Seguiu-se a ataques com drones pelas Forças Armadas do Sudão (SAF) contra a passagem fronteiriça de Adre, entre o Chade e o Estado de Darfur Ocidental do Sudão, e contra o mercado de al-Wihda, no Cordofão Ocidental, numa tentativa das forças armadas de expulsar as RSF da região.
Os ataques contra Adre, al-Wihda e a Kenana Sugar Co. ilustram a natureza implacável da guerra civil no Sudão, na qual ambos os lados utilizam cada vez mais drones para atacar civis e infra-estruturas civis.
De acordo com as Nações Unidas, quase 700 civis morreram desde o início deste ano em ataques das SAF e das RSF, enquanto os dois lados lutam pelo controlo do território.
Três anos após o início da guerra, ambos os lados permanecem em igualdade de condições graças ao apoio de fontes externas — os Emirados Árabes Unidos no caso das RSF e a Turquia no caso das SAF. Enquanto as batalhas continuam, as linhas de controlo parecem estar a solidificar-se, com as RSF a controlarem em grande parte o oeste e o sul do Sudão, enquanto as SAF controlam o norte e o leste.
As recentes incursões das RSF nos Estados do Nilo Azul e do Nilo Branco, alegadamente a partir de bases na Etiópia, até agora não conseguiram colocar essas áreas sob o controlo das RSF.
“Não há sinais de que qualquer um dos lados consiga derrotar totalmente o outro, nem de que se esteja próximo de um impasse,” o analista Ahmed Soliman escreveu recentemente para a Chatham House.
Apesar das repetidas tentativas dos mediadores internacionais para negociar uma solução pacífica, ambos os lados se recusam a depor as armas.
Num discurso proferido no final de Abril, o líder das Forças Armadas do Sudão (SAF), o General Abdel Fattah al-Burhan, presidente de facto do Sudão, reiterou a sua recusa em negociar com as RSF, que classificou de “milícia rebelde.”
Os drones tornaram-se fundamentais nos ataques de cada lado às posições do outro, com as RSF a recorrerem frequentemente à tecnologia comercial pronta a usar fornecida pelos Emirados Árabes Unidos, enquanto as SAF utilizam uma mistura de drones comerciais e veículos aéreos não tripulados (VANT) fornecidos pela Turquia.
As RSF alegaram ter abatido um drone turco Bayraktar Akinci envolvido no ataque das SAF ao mercado de Wihda, que matou três mulheres e seis crianças. Entretanto, as RSF utilizaram drones para atacar hospitais e outras infra-estruturas civis durante o seu cerco de vários meses a el-Fasher, a capital do Darfur do Norte, no ano passado. No dia 2 de Maio, combatentes das RSF mataram cinco civis num ataque com drones contra um carro numa comunidade perto da capital controlada pelas SAF, Cartum.
Enquanto al-Burhan e o líder das RSF, o General Mohamed Hamdan “Hemedti” Dagalo, lutam pelo território, os civis do Sudão ficam presos no fogo cruzado.
Desde o início da guerra, as agências internacionais estimam que mais de 150.000 pessoas foram mortas, cerca de 13 milhões deslocadas e mais de 33 milhões necessitam de assistência humanitária. Os combatentes das RSF foram acusados de genocídio pelos assassinatos em massa que ocorreram após a captura de el-Fasher, em Outubro de 2025.
Muitas vezes, os civis são alvo de ataques quando o território muda de mãos, com os combatentes recém-chegados a lançarem execuções retaliatórias contra pessoas que acusam de colaborar com o outro lado. As forças das SAF também têm como alvo indivíduos que defendem o regresso ao regime democrático, de acordo com o analista Hamid Khalafallah.
“Embora possam diferir em tácticas e motivações, tanto as SAF como as RSF partilham o interesse em reprimir os actores e movimentos pró-democracia que desafiam a sua autoridade,” Khalafallah escreveu recentemente para o Tahrir Institute for Middle East Peace.
