Nove meses depois de a Rússia ter substituído e rebaptizado os seus mercenários no Mali como Africa Corps, o envolvimento dos mercenários no combate ao terrorismo no país diminuiu drasticamente, deixando os soldados malianos a arcar com uma parte maior do fardo.
De acordo com o Projecto de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos (ACLED), os combates envolvendo combatentes russos no Mali diminuíram de 537 para 402 entre 2024 e 2025, uma redução de mais de 33%. O ACLED registou apenas 24 incidentes por mês desde o início de 2026.
A redução da presença da Rússia no campo de batalha coincidiu com a mobilização do Africa Corps e a sua abordagem mais discreta, em comparação com o uso frequente de tácticas brutais por parte do Grupo Wagner contra grupos extremistas e os seus suspeitos apoiantes.
Entre Janeiro de 2024 e a saída do Grupo Wagner em Junho de 2025, este e os soldados malianos causaram mais de 1.440 vítimas civis. Esse número foi quatro vezes superior ao de mortos e feridos associados ao grupo terrorista Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) durante o mesmo período.
Enquanto empresa militar privada, o Grupo Wagner tinha, em grande medida, carta-branca para realizar missões como bem entendesse. No Mali, tal como noutros países africanos, o Grupo Wagner foi convidado a entrar no país para treinar as forças de segurança locais, mas os seus mercenários participaram muitas vezes em operações terrestres, como o ataque a Moura que deixou mais de 300 civis mortos.
Apesar da mudança de estratégia, os combatentes do Africa Corps continuam a realizar execuções sumárias e outros actos de brutalidade, apenas em menor escala, de acordo com relatos de testemunhas.
A junta maliana que derrubou o líder eleito do país e expulsou a Operação Barkhane, de longa data, da França, e as forças de manutenção da paz das Nações Unidas, justificou as suas acções culpando a incapacidade do governo civil de travar a violência perpetrada pelos grupos terroristas JNIM e Estado Islâmico na Província do Sahel, bem como pelos separatistas Tuaregues.
Mas os civis não se beneficiaram da nova aliança. O Mali continua a ser o quinto país mais afectado pelo terrorismo a nível mundial, com vastas áreas do país sob controlo terrorista.
“Os resultados têm sido catastróficos para os civis. Massacres documentados. Deslocação em massa. Nenhuma melhoria na segurança territorial. Os grupos jihadistas que o Grupo Wagner deveria derrotar expandiram, na verdade, o seu território operacional desde a chegada dos russos,” o analista Isaac Idemeto, da Nigéria, escreveu recentemente num ensaio publicado na sua página do LinkedIn.
Após a morte do líder do Grupo Wagner, Yevgeny Prigozhin, em 2023, o Ministério da Defesa da Rússia assumiu o controlo do grupo e rebaptizou-o como Africa Corps. O governo também alterou a abordagem do Africa Corps, mantendo os seus combatentes próximos das suas bases, onde operam drones e treinam soldados malianos. A tomada de decisões passou a centrar-se em Moscovo, em vez de no terreno, no Mali.
“Devido às consequências políticas, o Africa Corps pondera a assunção de riscos com mais cuidado do que o seu antecessor,” Lou Osborn, investigador do site All Eyes on Wagner, disse ao The Africa Report. “Os russos entram em combate com menos frequência, o que é mal visto pelo lado maliano. O seu modo de operação mais institucional está a começar a assemelhar-se ao que o Mali rejeitou com a Operação Barkhane francesa.”
Idemento observa que a decisão do Mali de se aliar à Rússia e de se afastar de missões de segurança regionais, como a Força Conjunta do G5 Sahel, prejudicou a capacidade dos países da África Ocidental de colaborarem no combate ao terrorismo.
Entretanto, o JNIM e outros grupos ganharam terreno, assumindo o controlo de grandes partes do Mali e dos seus vizinhos do Sahel, enquanto davam os primeiros passos em países costeiros como o Benin, a Costa do Marfim e o Togo.
“O vazio de segurança criado pelo colapso dos mecanismos de cooperação regional está a empurrar a instabilidade para sul, em direcção à costa da África Ocidental — em direcção aos países com as maiores populações, as economias mais desenvolvidas e mais a perder,” escreveu Idemeto.
