A Rússia necessita de efectivos para apoiar a sua invasão à Ucrânia e implementou uma campanha de recrutamento elaborada para atrair jovens africanos para a linha da frente.
No Zimbabwe, os sindicatos do Kremlin recorrem a antigos militares, polícias e agentes dos serviços secretos zimbabweanos para ajudar a recrutar e a dar formação básica a jovens para que sejam destacados, segundo noticiou o jornal Bulawayo 24 News do Zimbabwe.
Atraídos por anúncios online, aos potenciais recrutas são oferecidos salários entre 7.000 e 10.000 dólares, com as despesas de viagem pagas antecipadamente. A verificação de antecedentes e a formação táctica básica estão alegadamente a ser conduzidas por ex-militares em Bulawayo, Harare e Masvingo. Um oficial superior do Exército Nacional do Zimbabwe disse que antigos colegas foram contactados em 2024 e receberam ofertas de honorários de consultoria para identificar jovens para trabalho de segurança privada na Rússia.
”Quando os rapazes aterram, o contrato já terá mudado,” o oficial disse, anonimamente, ao Bulawayo 24.
As autoridades zimbabweanas procederam recentemente a uma série de detenções por acusações de tráfico de seres humanos, no âmbito da investigação a este esquema de recrutamento. Os investigadores acreditam que Edward Kachingwe, um cidadão do Zimbabwe de 36 anos, recrutou cinco homens antes de ter sido detido no Terminal Rodoviário de Roadport, em Harare, e acusado de tráfico de seres humanos e de gerir uma agência de emprego não registada, no final de Junho.
Os procuradores afirmam que Kachingwe colaborou com um cúmplice russo identificado como “Roman,” que ainda não foi detido e que alegadamente planeia “recrutar ilegalmente vítimas para se alistarem no exército russo, onde serão forçadas a combater no conflito armado entre a Federação Russa e as forças ucranianas.” Ainda em Junho, o cidadão russo Leonid Koftev compareceu em tribunal sob a acusação de tráfico de pessoas, após ter alegadamente organizado a viagem de um homem do Zimbabwe para a Rússia.
O Ministro da Informação do Zimbabwe, Zhemu Soda, disse que os recrutas recebem pouca formação de combate antes de serem destacados.
As autoridades afirmam ter resgatado cidadãos zimbabweanos na Tanzânia e na África do Sul que se encontravam em trânsito para a Rússia.
”Alguns dos recrutados eram, na sua maioria, motoristas da Uber recrutados na África do Sul, sem qualquer experiência militar, que recebem formação durante sete dias e são depois destacados,” um recruta local, que agora combate ao serviço da Rússia, disse ao jornal The Zimbabwean.
É difícil para os recrutas escaparem à sua situação.
”Quando chegam à linha da frente, eles [os russos] retiram-lhes o passaporte e prometem devolvê-lo apenas ao fim de um ano,” disse o recruta.
Em Dar es Salaam, as vítimas terão fornecido aos familiares endereços falsos de hotéis para evitar serem detectadas, mas a sua localização foi revelada através de análise forense digital. Alguns homens resgatados disseram aos investigadores que tinham viajado com ex-militares que também foram vítimas das redes russas, segundo noticiou o Bulawayo 24.
Na Tanzânia, as investigações revelaram que, em vez de utilizar aplicativos de mensagens e redes sociais para atrair recrutas, a Rússia recorre a ex-soldados, segundo Chidawa.
De acordo com uma investigação realizada em Setembro, pelo menos 3.066 africanos de 40 países foram recrutados para as forças armadas russas desde Outubro de 2022. Até Junho de 2026, 502 deles tinham falecido, segundo noticiou o jornal queniano The Star.
O Serviço Nacional de Informações do Quénia tinha anteriormente informado que mais de 1.000 dos seus cidadãos tinham sido recrutados. Autoridades quenianas afirmaram que os recrutadores visavam ex-militares, ex-polícias e civis, com promessas de empregos bem remunerados, bónus e cidadania russa.
Em Março, Musalia Mudavadi, secretário-chefe do Governo do Quénia e secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Diáspora, anunciou que a Rússia tinha concordado em deixar de recrutar quenianos e que iria colocar o Quénia numa “lista de exclusão” do recrutamento militar. Embora alguns quenianos tenham sido repatriados, outros permanecem na linha da frente.
No dia 6 de Outubro, mais de 30 famílias de quenianos vítimas de tráfico para a Rússia reuniram-se em Nairobi para instar o presidente William Ruto a pressionar pelo regresso dos sobreviventes, pela recuperação dos corpos dos quenianos mortos na guerra e pela divulgação do que aconteceu aos que continuam desaparecidos. Espera-se que Ruto participe na Cimeira África-Rússia, em Moscovo, no final de Outubro. As famílias afirmaram que o recrutamento de quenianos continua.
”Ainda no mês passado, surgiram informações de que o recrutamento continua a decorrer,” um representante de uma das famílias disse ao jornal The Star. “No entanto, sabemos que outros países já repatriaram os seus cidadãos.”
Este ano, a Rússia planeia recrutar 18.500 combatentes estrangeiros, o que representa um aumento de quase seis vezes desde o início da guerra, de acordo com um relatório da organização de vigilância de crimes de guerra Truth Hounds.
