Está a decorrer uma guerra de informação no Mali, na internet e nas plataformas das redes sociais. Um novo estudo descreve como a inteligência artificial generativa está a ser utilizada por entidades estatais, não estatais e estrangeiras para divulgar propaganda e desinformação.
Um relatório de 9 de Setembro do Instituto Tombuctu, com sede em Dakar, intitulado “Algoritmos em Guerra: Como a IA Generativa Está a Remodelar o Conflito no Mali,” analisou o Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), afiliado à al-Qaeda, o governo do Mali, o Africa Corps da Rússia e o grupo separatista Tuaregue, Frente de Libertação do Azawad (FLA).
“É perfeitamente possível que o Mali se torne um verdadeiro laboratório da guerra de informação assistida pela IA,” lê-se no relatório. “Embora as aplicações cinéticas mais avançadas continuem, por enquanto, a ser em grande parte especulativas, a batalha das narrativas já está em curso. Num panorama informativo cada vez mais saturado, a capacidade de distinguir o real do fabricado está, por si só, a tornar-se uma questão de segurança.”
A FLA tem utilizado a IA como ferramenta de anonimização e para criar, divulgar e amplificar conteúdos baseados em personagens geradas pela IA nas redes sociais, com o objectivo de impulsionar a causa do Azawad e facilitar o recrutamento de combatentes. O relatório identificou uma rede de contas do TikTok que partilham publicações umas das outras, criando uma ilusão de apoio popular.
“Estas personagens geradas pela IA oferecem à FLA várias vantagens,” afirmou o Instituto. “Ajudam a humanizar o movimento, a adaptar mensagens a públicos específicos (uma personagem adolescente consegue chegar mais facilmente aos jovens) e a facilitar a divulgação de uma narrativa favorável à independência do Azawad. Acima de tudo, proporcionam uma segurança operacional inigualável: é impossível capturar ou interrogar um combatente que não tem existência física.”
O JNIM utiliza a IA generativa para criar material visual que acompanha as suas campanhas de propaganda existentes, tais como vídeos que celebram os seus ataques de Abril em Bamako e no centro do Mali. Os investigadores alertam que a utilização desta tecnologia pelo grupo terrorista ainda se encontra numa fase inicial, mas tem implicações de longo alcance num ambiente mediático confuso.
“O JNIM demonstra uma experimentação limitada, mas notável, com a IA generativa, em comparação com as capacidades aperfeiçoadas do Estado Islâmico,” lê-se no relatório.
No outro extremo do espectro, o Africa Corps conta com todo o peso da máquina de guerra de informação da Rússia. “O grupo paramilitar integrou a IA num aparelho de desinformação já bem oleado,” lê-se no mesmo relatório.
Com a ajuda e o apoio dos seus aliados do Africa Corps, as autoridades militares malianas têm acesso aos recursos e aos conhecimentos especializados necessários para integrar a IA em operações de informação sofisticadas. Uma conta no TikTok com mais de 436.000 seguidores publica conteúdos gerados pela IA que elogiam efusivamente as Forças Armadas do Mali (FAMa) e o Africa Corps.
Um vídeo acumulou 4,7 milhões de visualizações ao mostrar soldados das FAMa e mercenários russos a reconquistar a cidade de Kidal, no norte do país. Como o conteúdo é pró-junta e pró-Rússia, não mostrou os mercenários russos a abandonarem a cidade semanas mais tarde.
“As autoridades do Mali adoptaram os métodos russos como se fossem seus,” lê-se no relatório. “Ao controlar o espaço mediático nacional e apoiar-se nestes canais digitais, a junta procura reforçar a sua legitimidade e desviar a atenção da deterioração da situação de segurança.”
A utilização da IA generativa não constitui uma surpresa no panorama complexo que é o Sahel, com os seus governos liderados por militares, campanhas de influência russas obscuras e grupos insurgentes cada vez mais sofisticados.
A popularidade dos líderes da junta e dos mercenários do Africa Corps depende destes temas, segundo Jacob Boswall, um analista de segurança que acompanha a actividade militante para o serviço de monitorização de meios de comunicação social da BBC.
“[O Níger está] a minimizar o papel que o Africa Corps desempenha nestes países e a exagerar a narrativa do nacionalismo dos recursos — a ideia de que o governo está no controlo e a combater os jihadistas,” disse num artigo da BBC de 5 de Setembro. “Está a decorrer uma enorme guerra mediática no Sahel para controlar a narrativa em torno disso.”
O vasto aparelho de guerra de informação da Rússia tem feito tudo o que está ao seu alcance para apoiar os governantes militares do Sahel. Imagens e vídeos deepfake gerados pela IA, que retratavam o líder da junta burquinabê Ibrahim Traoré como um herói de culto pan-africano, tornaram-se virais em 2025. Muitos deles alegavam acordos económicos e desenvolvimentos que nunca ocorreram.
“É populismo algorítmico; emocional, visual, antiocidental e hipercompartilhável,” o investigador burquinabê Alidou Werem disse ao The Africa Report. “É uma questão de vibração e visão, e não de factos ou políticas. As plataformas das redes sociais recompensam o espectáculo, e a imagem de Traoré encaixa-se perfeitamente nesse ecossistema.”
Com o terrorismo ainda a grassar no Sahel, há uma desconfiança crescente em relação às narrativas oficiais do governo. No entanto, os analistas afirmam que esse tipo de desconfiança pode levar as pessoas a recorrerem a outras fontes opostas de desinformação.
O relatório do Instituto Tombuctu concluiu que cabe aos jornalistas, cidadãos e grupos da sociedade civil do Sahel ajudar a identificar e a combater a desinformação.
“Para os Estados do Sahel em geral, a resposta já não pode limitar-se a medidas convencionais de combate à desinformação; deve também reforçar a literacia digital, as capacidades de detecção e as estratégias de prevenção face a uma tecnologia destinada a remodelar permanentemente a natureza dos conflitos em causa,” lê-se no relatório.
