Os combatentes das Forças de Apoio Rápido (RSF), uma milícia paramilitar, continuam a desertar e a juntar-se às Forças Armadas do Sudão (SAF), levantando questões sobre se estes movimentos se devem a pequenas disputas internas ou a uma erosão mais significativa da confiança no seio do grupo rebelde.
Abubakr Hamouda Dahloub, chefe dos serviços de informação das RSF no Estado do Cordofão do Norte, desertou em Agosto com 200 combatentes em Omdurman. Os homens trouxeram as suas armas e equipamento e afirmaram estar prontos para combater ao lado das SAF e das suas forças aliadas, segundo noticiou a Agência de Notícias do Sudão.
Dahloub disse que ele e os seus combatentes se aperceberam do “erro que cometeram ao seguir o projecto que está a ser implementado pela milícia RSF” e exortou os restantes comandantes das RSF a abandonarem a força paramilitar e a lutarem “pelas reivindicações do povo sudanês no sentido de eliminar a milícia rebelde RSF.”
Agosto foi um mês crítico em termos de deserções. No dia 12 de Agosto, o governador da região do Cordofão, no Sudão, nomeado pelas RSF, Hamad Mohammad Hamad Khalifa, demitiu-se do seu governo paralelo, que, segundo ele, “lamentavelmente se tornou meramente uma fachada política para as práticas das Forças de Apoio Rápido.”
“O povo sudanês não tem hoje outra escolha senão unir-se contra todas as tentativas de legitimar forças paralelas ou milícias rebeldes que desperdiçaram a vida de toda uma geração ao serviço de interesses individuais,” acrescentou.
No dia seguinte, 21 comandantes e 270 combatentes abandonaram as RSF.
No dia 19 de Agosto, as autoridades sudanesas anunciaram que 318 combatentes e quatro comandantes, com 50 veículos de combate, tinham mudado de lado. Estavam liderados por Musa “Khamsin” Ali Ahmed, que se juntou a outros desertores de destaque nos últimos meses, incluindo comandantes de campo e responsáveis políticos da Aliança Fundadora do Sudão, liderada pelas RSF, conhecida como Tasis.
Khamsin disse que, após chegarem ao território controlado pelo exército, o seu grupo tinha vindo do Estado do Darfur do Norte e que Al-Nour “al-Qubba” Ahmed, um dos desertores mais proeminentes das RSF, os tinha ajudado a chegar à capital sudanesa, Cartum.
“Também referiu a sua desilusão com o projecto Tasis, afirmando que, inicialmente, tinham acreditado que este iria estabelecer um novo Estado, mas que mais tarde chegaram a uma conclusão diferente,” o proeminente jornalista sudanês, Ahmed Younes, disse num artigo de 20 de Agosto para o jornal Asharq Al-Awsat. “Ao dar as boas-vindas a Khamsin e aos seus combatentes, al-Qubba disse que esperava que mais comandantes e forças desertassem. Exortou os combatentes das RSF em Darfur e no Cordofão a alistarem-se no exército.”
A desilusão com as RSF é comum entre os desertores. Ao anunciar a sua demissão durante uma entrevista em directo no canal de televisão saudita Al Arabiya, Khalifa criticou veementemente as condições humanitárias no território controlado pelas RSF, afirmando que o grupo paramilitar demonstrava uma “incapacidade total de satisfazer até mesmo as necessidades humanitárias mais básicas da população de Cordofão e Darfur.” Acusou ainda as RSF de prosseguir “uma política de destruição de cidades e de assassinato de civis sem consciência nem restrições morais.”
O projecto de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos (ACLED) afirmou que as ondas de deserções ocorrem no contexto de importantes avanços terrestres do exército, designando-as como “o início de uma terceira fase da guerra.”
Numa análise de 13 de Agosto, Nohad Eltayeb, responsável pela metodologia de risco do ACLED, e Ali Mahmoud Ali, investigador especializado em assuntos do Sudão, disseram que as Forças Armadas do Sudão (SAF) pretendem avançar sobre os bastiões das RSF, enquanto o grupo paramilitar tenta aliviar a pressão nas suas frentes ocidentais através de ofensivas no Estado do Nilo Azul e de ataques com drones contra Cartum e o Estado do Nilo.
“A par de uma tendência constante de deserção de combatentes das RSF para as SAF, estas tendências apontam para uma perturbação significativa das linhas de abastecimento e da capacidade de ataque das RSF,” escreveram. “É, por conseguinte, improvável que as RSF consigam resistir a ofensivas em três frentes paralelas.”
