No dia 7 de Outubro de 2025, um grupo de homens fortemente armados, vestidos com fardas militares, visitou uma mesquita em Mocímboa da Praia, uma cidade costeira na província de Cabo Delgado. Dirigindo-se a uma multidão de homens, mulheres e crianças, um dos homens apresentou o grupo, o Estado Islâmico de Moçambique (ISM), como uma autoridade legítima em oposição ao governo de Moçambique.
Ele disse-lhes que tinham o dever de apoiar a jihad do grupo e que existiam “dois governos: um dos não crentes e outro dos muçulmanos.” Advertiu-os para que não colaborassem com as autoridades nem participassem nas suas reuniões.
Nos últimos anos, o ISM alterou a sua abordagem em Cabo Delgado, passando a apresentar-se como um governo alternativo sectário e religioso, com o objectivo de ganhar legitimidade e construir uma base de apoio entre as comunidades locais. Peter Bofin, analista sénior para o Sudeste de África no Projecto de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos (ACLED), disse que o grupo está a criar uma área de influência distinta que se estende ao longo de mais de 100 quilómetros da costa e 50 quilómetros para o interior.
“O ISM está empenhado num projecto político,” escreveu num relatório de 26 de Junho.
Dentro deste enclave, o grupo militante procura uma maior ligação com a população, mantém uma base e dispõe de alguma liberdade de movimento, apesar da presença das forças de segurança do Estado e de um contingente da Força de Defesa do Ruanda. Desde 2023 que o Estado Islâmico global tem incentivado a mudança de abordagem do ISM e tem-na destacado através dos seus canais de comunicação social.
“Nesta área de influência, os insurgentes têm tentado definir uma base de apoio civil às suas acções,” escreveu Bofin. “Estabeleceram também uma posição política abrangente que rejeita o Estado laico e defende um governo baseado na sua interpretação da lei islâmica. … Embora formulados em termos sectários religiosos, estes padrões são igualmente influenciados por configurações étnicas e políticas de longa data. Consequentemente, a sua presença será difícil de eliminar apenas por meios militares.”
No final de 2023, o grupo tinha-se estabelecido como um afiliado do Estado Islâmico, contava com uma nova liderança e tinha adoptado uma abordagem menos violenta para com as comunidades na sua área de influência, o que se reflectiu nos dados do ACLED relativos a ataques contra civis. Ao mesmo tempo, as actividades não violentas do ISM aumentaram acentuadamente, incluindo visitas a comunidades para angariar apoio ou dissuadir a cooperação com as forças do Estado, a pregação ocasional e a compra de provisões nas aldeias, por vezes, impondo preços e valores aos bens trocados.
“Os ataques contra civis têm-se mantido insignificantes junto à costa, apesar de a base principal do ISM se situar nessa zona, enquanto os ataques contra civis noutros locais, particularmente no sul, continuam a ser um elemento significativo do conflito,” escreveu Bofin, acrescentando que “os ataques do ISM contra civis levaram à fuga dos cidadãos e, sem população, o controlo territorial tem pouco valor.”
Embora a mudança táctica do ISM tenha revelado as suas ambições políticas e territoriais, Bofin disse que o empreendimento se encontra ainda numa fase inicial de desenvolvimento, sem sinais tangíveis de governação ou envolvimento comunitário, tais como a criação de uma escola. O governo moçambicano faria, portanto, bem em aumentar a sua presença a nível oficial e militar, enquanto melhora as infra-estruturas públicas.
“O desafio para o Estado é garantir que a sua presença mínima nesta área, principalmente através das forças de segurança moçambicanas e ruandesas, seja mantida e que o ISM não possa evoluir para qualquer forma de autoridade quase governamental,” escreveu. “Tal evolução facilitaria grandemente o recrutamento e o financiamento. Para além disso, o próprio Estado deve recuperar a sua autoridade e legitimidade.”
Após visitar Moçambique, o perito em direitos humanos das Nações Unidas, Ben Saul, encorajou o governo a continuar a orientar a sua estratégia antiterrorista para além de uma abordagem altamente militarizada, de modo a abordar as condições subjacentes ao terrorismo.
“Após nove anos de violência terrível, reconheço os esforços significativos envidados por Moçambique e pelos seus parceiros para prevenir e combater o terrorismo, incluindo a recuperação e a estabilização de muitas áreas que permitiram o regresso a casa de muitas pessoas deslocadas,” disse num comunicado de 14 de Agosto.
“É essencial uma abordagem abrangente. O Governo e os parceiros internacionais devem intensificar os esforços para combater a ideologia extremista violenta, reforçar as instituições do Estado e o desenvolvimento humano no norte, garantir que as comunidades de Cabo Delgado beneficiem de forma justa dos ricos recursos naturais da província, regulamentar eficazmente as indústrias extractivas e reforçar a governação inclusiva.”
