Por toda a região do Sahel, está a regressar uma antiga medida de segurança: as barreiras fortificadas. Os habitantes das localidades rurais estão a construir anéis de muros de terra e trincheiras, numa tentativa de impedir os ataques de grupos terroristas.
Um novo estudo realizado por investigadores da Universidade da Flórida revelou que, nos últimos 15 anos, as comunidades construíram centenas de quilómetros de fortificações de terra em torno dos centros populacionais. De facto, no nordeste da Nigéria e nas zonas em redor do Lago Chade, todas as cidades com mais de 10.000 habitantes estão agora rodeadas por barreiras suficientemente grandes para serem visíveis em imagens de satélite.
Este investimento em segurança de baixa tecnologia coincide, em grande medida, com o aumento do terrorismo no Sahel. Também remete para as tradicionais paredes de barro que protegiam as habitações há centenas de anos em comunidades como a região de Hausaland, na Nigéria, e a Senegâmbia costeira. No entanto, os investigadores afirmam que as barreiras actuais foram concebidas para retardar os atacantes e não são necessariamente capazes de os deter.
“Estas trincheiras são muito diferentes das muralhas das cidades da África pré-colonial,” Dr. Olivier Walther, professor associado da UF e investigador principal do projecto, disse à ADF. “São, na sua maioria, fossos e bermas, e foram construídas para retardar os insurgentes, que são extremamente móveis e transportam armas ligeiras.”
Os projectos são financiados pelo governo ou por agências internacionais. São normalmente construídas com retroescavadoras ou outro equipamento mecanizado, embora algumas sejam escavadas à mão. São mais eficazes para obrigar os atacantes a descerem das motas e canalizá-los para pontos de entrada mais seguros, onde guardas armados possam ser capazes de os deter.
“É uma forma muito eficaz de abrandar os insurgentes e impedir ataques suicidas. Além disso, dá tempo aos defensores para se organizarem e, talvez, pedirem ajuda,” afirmou Walther, cujo projecto de investigação é financiado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). “É uma infra-estrutura defensiva, mas não é um muro como os que se viam na Idade Média.”
Alguns países estão a alargar esta estratégia às suas fronteiras. Os Camarões fortificaram quase 200 quilómetros da sua fronteira com a Nigéria. O Togo construiu mais de 36 quilómetros de trincheiras de segurança ao longo das suas fronteiras com o Burquina Faso e o Benin para dissuadir os insurgentes. Christopher Musa, Ministro da Defesa da Nigéria, propôs proteger a fronteira terrestre de 4.000 quilómetros do seu país com uma combinação de barreiras físicas e vigilância tecnológica.
Mas estas barreiras cada vez mais numerosas têm um custo. Os habitantes sentem-se mais seguros dentro do perímetro defensivo das suas cidades, mas continuam a ter de sair para transportar mercadorias, cultivar a terra e pastorear o gado. Em alguns casos, os grupos jihadistas limitam-se a esperar que as pessoas saiam de uma área fortificada para poderem atacar.
“Ao concentrar as pessoas em cidades fortificadas, também se expõe mais pessoas a ataques quando estas procuram meios de subsistência fora dos perímetros,” afirmou Walther. “Isso cria grandes problemas logísticos e de segurança para os civis. Quando querem viajar entre cidades, ficam muito mais expostos a raptos do que antes.”
Esta estratégia ad hoc reflecte também um esforço para concentrar a segurança em determinados pontos-chave, cedendo a maior parte do território rural aos insurgentes. A Nigéria, por exemplo, construiu “superacampamentos” militares fortificados no nordeste, mas tem-se revelado incapaz de garantir a segurança nas áreas rurais circundantes.
Há também dúvidas quanto à viabilidade da estratégia a longo prazo. A chuva e a erosão podem degradar as barreiras, que requerem manutenção regular. Num acontecimento particularmente horrível em 2024, em Barsalogho, no Burquina Faso, cerca de 300 pessoas que cavavam uma trincheira defensiva foram mortas por terroristas do Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin. Tratou-se do pior ataque deste tipo na história do país.
O escritor Anwar El Mourjani disse que existe um “risco de fragmentação” no Sahel, à medida que os cidadãos se refugiam atrás de muros. “Sem uma governação local mais forte, serviços públicos fiáveis e meios de subsistência viáveis para além das cidades protegidas, as barreiras defensivas poderão tornar-se características permanentes de uma região cada vez mais dividida,” escreveu para o site Africa Eye.
O objectivo, escreveu, deve ser promover a interligação e construir redes que permitam o florescimento do comércio e da cooperação.
“O teste a longo prazo é … não só se as cidades conseguem resistir a ataques, mas se os governos conseguem voltar a ligá-las às comunidades rurais e às redes económicas das quais depende a sua estabilidade,” escreveu El Mourjani.
