Os especialistas alertam que a Iniciativa de Governação Global (GGI) recentemente lançada pela China representa uma ameaça para as nações em desenvolvimento, ao promover o autoritarismo através da vigilância digital e da repressão.
A adopção do “tecno-autoritarismo,” definido como o uso da tecnologia da informação digital por parte dos governos para vigiar, reprimir e manipular as populações, representa riscos significativos para os países africanos, principalmente ao minar os processos democráticos, os direitos humanos e a estabilidade política a longo prazo.
O coronel reformado DCS Mayal, antigo oficial de informações do Exército indiano, assinalou uma grave falta de transparência que permeia o modelo de governação da China, afirmando que a iniciativa transforma o poder suave em “bordas afiadas invisíveis.”
“As estratégias da GGI cultivam dependências do Sul Global, implantam redes de informações omnipresentes e normalizam as normas chinesas,” escreveu num relatório de 13 de Abril para a Observer Research Foundation, sediada em Nova Deli.
E acrescentou: “Pequim promove normas que legitimam infra-estruturas de vigilância a nível estatal, enquanto posiciona os padrões tecnológicos chineses como modelos globalmente aceites.”
Enquanto quadro político, a nova iniciativa da China procura reestruturar as relações internacionais a seu favor, tentando alterar instituições internacionais multilaterais como as Nações Unidas. No entanto, os especialistas afirmam que o seu objectivo é substituir as estruturas globais por um modelo centrado na China que prioriza o poder do regime no poder em detrimento das normas democráticas africanas estabelecidas.
A iniciativa é uma das quatro que a China introduziu desde 2021, abrangendo sectores-chave como o desenvolvimento, a segurança e a cultura. Mas Mayal considera a governação “a mais recente vertente de um projecto mais vasto para remodelar a ordem internacional de forma a favorecer o poder, as normas e os interesses chineses.”
A China tem fornecido um financiamento significativo para infra-estruturas no continente nos últimos anos, mas muitas nações africanas enfrentam dificuldades com enormes reembolsos de empréstimos. Políticos em alguns países, como o Quénia e Angola, manifestaram preocupação com o facto de a China ter criado dependência financeira e de poder potencialmente confiscar activos estratégicos nos seus países. Os modelos de governação de segurança que a China promove também suscitam preocupações de que minem o princípio de um exército apolítico e procurem fortalecer partidos governantes de tendência autoritária no continente.
“Ao utilizar as forças armadas para dizimar a oposição, os partidos no poder em alguns países da África Subsariana criam efectivamente Estados de partido único,” o blogueiro especializado em relações África-China, Amodani Gariba, disse ao Centro de Estudos Estratégicos de África em 2025. “Embora a cooperação económica da China com África tenha tido um impacto tremendo nos africanos, as ambições da China de alargar os seus laços à cooperação militar podem agravar a situação de governação já precária no continente.”
Samir Bhattacharya, investigador associado da fundação, afirmou que a sua investigação se centra na forma como a China influencia a governação africana através da exportação do seu modelo autoritário.
“A abordagem distinta da China caracteriza-se por investimentos liderados pelo Estado, visando a industrialização e o crescimento rápido, juntamente com um modelo de governação que, muitas vezes, dá prioridade ao desempenho económico em detrimento das instituições democráticas,” escreveu num artigo de 2025 para o site do East Asia Forum. “Através de investimentos em sectores-chave, como os meios de comunicação africanos, a China incentiva subtilmente os países beneficiários a adoptarem normas e modelos de governação chineses.”
Fazendo eco das preocupações de Mayal, Bhattacharya afirmou que os países africanos fariam bem em ver além da promoção ostensiva da China destas iniciativas e analisá-las de perto para identificar a agenda oculta de Pequim, que, muitas vezes, entra em conflito com a soberania e os valores democráticos das nações africanas.
