Há décadas que os governos africanos lutam contra os efeitos desestabilizadores das empresas militares privadas (EMP), mercenários e grupos paramilitares, que são pagos para proteger líderes ou lutar ao lado das forças governamentais em zonas de conflito —, muitas vezes, sem ter em conta as populações locais.
Mercenários como o Africa Corps da Rússia, anteriormente Grupo Wagner, são acusados de cometer atrocidades contra civis na República Centro-Africana, Líbia, Mali, Moçambique e Sudão. Estas tropas veteranas lutam e divulgam a agenda geopolítica do Kremlin em troca de remuneração. No entanto, uma nova reviravolta na guerra contra o terrorismo no continente está a surgir, à medida que terroristas estrangeiros experientes oferecem os seus serviços a insurgentes, muitas vezes, por razões ideológicas.
Aries D. Russell, da Aries Intelligence, com sede em Londres, caracterizou essas organizações, sobretudo aquelas treinadas no Iraque e na Síria, como “EMP do mercado negro.” Eles têm girado entre conflitos terroristas no Corno de África e no Sahel.
Esses grupos são “entidades organizadas e operacionais que oferecem serviços de estilo militar — treino, aconselhamento, apoio táctico — a grupos jihadistas, mesmo que tenham uma estrutura informal ou uma administração flexível,” Russell disse à ADF. “Embora esses grupos sejam ideológicos e interligados, em vez de corporações que maximizam lucros no sentido ocidental, eles se comportam como contratados ou subcontratados num ecossistema militante. Estes diferem dos mercenários convencionais na sua orientação ideológica e transaccional. Nem sempre lutam puramente por dinheiro.”

IMAGO/HAMZA ALI VIA REUTERS CONNECT
A LIGAÇÃO ENTRE O AL-SHABAAB E OS HOUTIS
Os laços entre os rebeldes Houthis do Iémen, apoiados pelo Irão, e o al-Shabaab, o grupo terrorista que controla áreas no centro e sul da Somália, exemplificam esta tendência. Em 2024, os Houthis concordaram em fornecer armas e assistência técnica ao al-Shabaab em troca do aumento da pirataria e dos sequestros para obtenção de resgate no Golfo de Áden e na costa da Somália, que estão entre as rotas marítimas mais movimentadas do mundo.
Os Houthis intensificaram os ataques a navios que transitavam pelo Mar Vermelho em resposta à guerra de Israel contra o Hamas, que começou em Outubro de 2023. Isso chamou a atenção dos recursos navais internacionais de combate à pirataria destacados na região e serviu como uma distracção, permitindo que os piratas somalis voltassem ao activo. Em 2024, o al-Shabaab chegou a um acordo para fornecer protecção aos piratas somalis em troca de 30% de todos os rendimentos dos resgates e uma parte de qualquer saque. O caos instalou-se.
Após um período de seis anos sem grandes ataques piratas somalis, mais de 20 ataques foram registados entre Novembro de 2023 e Abril de 2024, embora o número tenha caído para três no primeiro semestre de 2025. Dois membros de gangues somalis disseram que estavam a aproveitar a distracção dos Houthis para voltar à pirataria.
“Eles aproveitaram esta oportunidade porque as forças navais internacionais que operam ao largo da costa da Somália reduziram as suas operações,” um financiador pirata que usa o pseudónimo Ismail Isse disse à Reuters.
Como observou Russell, os Houthis receberam treino militar avançado no Irão, Iraque e Líbano, onde adquiriram competências como montagem de mísseis e coordenação de drones. Observou que eles passam esse conhecimento para o al-Shabaab e o Estado Islâmico na Somália (ISSOM), que opera principalmente em áreas montanhosas na região semiautónoma da Puntlândia.
Os combatentes do al-Shabaab também viajaram para portos controlados pelos Houthis no Iémen, onde instrutores do Hezbollah e dos Houthis os introduziram ao uso de drones, coordenação de mísseis e técnicas de guerra assimétrica.

“Esta difusão ajuda a explicar por que razão as tácticas insurgentes do Médio Oriente são cada vez mais vistas em África e noutros locais,” escreveu Russell.
Os Houthis fornecem aos terroristas drones armados, mísseis terra-ar e outros materiais que foram rastreados até aos arsenais iranianos. O Irão fornece estas armas, o que viola o embargo de armas das Nações Unidas ao Iémen. Em Janeiro de 2025, o ISSOM lançou dois ataques com drones contra as forças de segurança da Puntlândia. Esta foi a primeira utilização conhecida da tecnologia pelo grupo, de acordo com o Projecto de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos.
“A adopção desta tecnologia por um grupo terrorista significa que as ideias se proliferarão na região e serão adoptadas por outros, mesmo que não existam ligações directas entre esses grupos,” Taimur Khan, da organização Conflict Armament Research, disse à página da internet de notícias somali Hiiraan Online.
‘NOVA FRONTEIRA NA COLABORAÇÃO INSURGENTE’
Em Julho de 2025, os Houthis utilizaram mísseis de longo alcance, drones suicidas, drones navais carregados de explosivos e barcos de ataque rápido num ataque sofisticado contra navios comerciais. De acordo com Russell, a complexidade e coordenação da operação sugerem que parceiros regionais, incluindo o al-Shabaab, podem ter ajudado com vigilância, dados de alvos ou coordenação de ataques marítimos.
“Esta troca transaccional, habilidades de combate trocadas por acesso ou logística, representa uma nova fronteira na colaboração insurgente,” escreveu Russell. “O que começou como um investimento iraniano num representante iemenita está agora a influenciar conflitos a centenas de quilómetros de distância.”
O al-Shabaab e os Houthis formaram uma aliança apesar das suas diferentes posições religiosas e políticas. Os membros do al-Shabaab seguem o Islão sunita e estão filiados na al-Qaeda. Os Houthis são xiitas, tal como os iranianos. Analistas da Fundação Carnegie para a Paz Internacional alertaram que os laços entre os Houthis e o al-Shabaab conferem ao Irão “profundidade estratégica,” ao mesmo tempo que desestabilizam a África Oriental, ameaçando o Djibouti, a Etiópia e o Quénia. Contrabandistas da Somália e do norte do Quénia também oferecem aos Houthis maiores oportunidades de enviar armas para fora do Oceano Índico ou por terra para o Golfo de Áden.

Russell disse que o modelo jihadista de EMP poderia ser replicado na Líbia, em torno do Corno de África, em todo o Sahel e na África Ocidental.
“As condições de mercado existem: fronteiras porosas, procura jihadista enraizada, drones COTS [comerciais prontos a usar] baratos e formação monetizável,” disse à ADF. “Espere crescimento onde quer que haja acesso a infra-estruturas de contrabando e alinhamento ideológico ou transaccional.”
A LIGAÇÃO ENTRE TURQUIA E SÍRIA
Combatentes sírios afiliados ao Exército Nacional Sírio (SNA), uma coligação de grupos armados da oposição que trabalha em estreita colaboração com a Turquia no norte da Síria, têm sido contratados nos últimos anos para lutar e garantir a segurança no Burquina Faso, no Níger e na Nigéria. Alguns desses combatentes, mas não todos, são jihadistas. Um combatente do SNA que usa o pseudónimo Deyri disse ao meio de comunicação Middle East Eye (MEE) que os recrutas operam em grupos, e não individualmente.
“O comando não está nas mãos dos sírios,” Deyri disse ao MEE. “Às vezes, alistamo-nos para proteger empresas turcas, outras vezes, para combater o Estado Islâmico e, outras ainda, para guarnecer minas ou fábricas.”
A maioria desses combatentes teria sido recrutada pela SADAT International Defense Consultancy, uma empresa militar privada turca, embora a SADAT negue isso. De acordo com o MEE, os sírios assinam contratos de seis meses a um ano e recebem 1.500 dólares por mês. Alguns dos combatentes disseram que concordaram em trabalhar como mercenários em África, devido ao alto desemprego no norte da Síria, causado pela longa guerra civil no país.

“A principal razão pela qual parti foi porque a vida é difícil na Síria,” Omar, um jovem combatente sírio no Níger, disse à Agence France-Presse. No norte da Síria, “não há oportunidades de emprego além de se juntar a uma facção armada e ganhar não mais do que 1.500 liras turcas (46 dólares) por mês.”
O Observatório Sírio dos Direitos Humanos e amigos de mercenários que trabalharam no Níger disseram à BBC que os sírios acabaram sob o comando russo a lutar nas zonas fronteiriças entre o Burquina Faso, o Mali e o Níger.
A vida como combatente estrangeiro na região do Sahel é difícil. Os seus telemóveis são confiscados à chegada. Um combatente sírio disse que eles podem contactar as suas famílias uma vez a cada duas semanas, ou menos, e que as suas comunicações devem passar pelos seus superiores nigerinos.
De acordo com o site de notícias Nordic Monitor, a Turquia transportou milhares de combatentes jihadistas sírios para a Líbia para reforçar as facções apoiadas pela Turquia. A MIT, a agência de inteligência da Turquia, ficou responsável pelo processo de verificação e selecção dos combatentes. O Nordic afirmou que a MIT colabora com grupos jihadistas na Síria desde 2011.
‘A PRIMEIRA EMP JIHADISTA DO MUNDO’
Russell atribuiu o aumento das EMP no mercado negro à Malhama Tactical, uma organização sediada na Síria fundada por veteranos uzbeques ligados a afiliados da al-Qaeda. Conhecida como “a primeira EMP jihadista do mundo,” a Malhama Tactical opera como uma unidade independente de operações especiais jihadistas. Fundada em 2016, treinou militantes da Jabhat Fateh al-Sham e outras facções insurgentes, combinando experiência na linha da frente com uma presença sofisticada nas redes sociais para publicitar os seus serviços.
Conhecida por ser bem treinada e bem equipada, a Malhama Tactical criou um precedente que foi seguido por unidades como a Muhojir Tactical, composta principalmente por combatentes uzbeques, chechenos e outros da Ásia Central; a Yurtugh Tactical, uma EMP jihadista liderada por uigures; e o grupo jihadista Albanian Tactical, todos operando na Síria. Os grupos mais recentes profissionalizaram o modelo da Malhama Tactical, oferecendo instrução em tiro de precisão e combate corpo a corpo, além de treino em operações nocturnas, medicina de trauma e guerra com drones.

Esses grupos treinam juntos, “criando uma rede transnacional de instrutores de operações especiais jihadistas,” escreveu Russell. “As suas tácticas agora circulam não apenas nos campos de batalha, mas também em ecossistemas digitais, Telegram, Instagram e fóruns fechados, onde vídeos instrutivos funcionam como ferramentas de propaganda e recrutamento.”
As unidades mercenárias jihadistas podem em breve tornar-se uma característica regular dos conflitos globais, oferecendo capacidades de “forças especiais” a clientes extremistas em futuras insurgências, o investigador Sean McFate escreveu num artigo publicado pela National Defense University Press.
Russell escreveu que o panorama militante actual se assemelha cada vez mais a um “sindicato global,” baseado em ideologia, logística, consultoria e especialização transfronteiriça, alimentado por EMP jihadistas.
“O resultado é um mundo onde um bombardeamento no Burquina Faso pode espelhar tácticas aperfeiçoadas em Idlib [Síria], ou onde um técnico de drones somali replica os alvos marítimos Houthis,” escreveu. “Esta não é uma adaptação aleatória, é o surgimento de uma economia do conhecimento de combate, onde os combatentes trocam doutrina, não apenas ideologia.”
