O grupo Estado Islâmico está a ameaçar a frágil paz da Líbia e a ganhar terreno no país ao aliar-se a redes de tráfico de pessoas, segundo especialistas.
Estas relações podem facilitar a entrada de terroristas na Líbia através de rotas de contrabando utilizadas por migrantes irregulares no Chade, Mali, Níger e Sudão para o sul da Líbia, informou o jornal libanês An-Nahar.
Embora o grupo Estado Islâmico (EI) esteja presente em toda a Líbia, representa um perigo maior no sul, com ligações ao Sahel, de acordo com a The Jamestown Foundation. A sua presença é mais consistente na região sul de Fezzan, onde as suas redes logísticas são utilizadas para transportar pessoas, veículos e armas do Sudão, passando pelo Chade, até à zona da tríplice fronteira entre o Burquina Faso, o Mali e o Níger.
As autoridades locais têm “sérias preocupações quanto ao regresso da organização, tal como qualquer Estado que procure estabelecer segurança e estabilidade no seu território,” o analista militar líbio, Adel Abdel Kafi, disse ao An-Nahar no final de Janeiro. Kafi caracterizou a Líbia como um “refúgio seguro” para grupos terroristas que cooperam com gangues criminosas e de migração irregular “para recrutar membros, expandir as suas bases e coordenar operações de movimento transfronteiriço.”
Abdel Kafi afirmou que o grupo modificou a sua estratégia na Líbia.
“Após o desmantelamento da sua estrutura central, os seus elementos passaram a viver na clandestinidade, aguardando uma oportunidade para estabelecer uma nova base e renovar as fontes de financiamento para voltarem a estar activos,” disse ao jornal.
Os migrantes, particularmente da Síria e do Iraque, chegam à Líbia em aeroportos por vias legais, mas as gangues de contrabando assumem então o controlo deles. Os líderes do EI e da al-Qaeda também utilizam rotas marítimas para se deslocarem do Iraque e da Síria para a Líbia e outros países africanos.
As tensões políticas agravam a situação. O leste da Líbia é governado pelo General Khalifa Haftar, que lidera o Exército Nacional Líbio (LNA) em Benghazi, enquanto o Governo de Unidade Nacional (GUN), liderado pelo Primeiro-Ministro, Abdul Hamid Dbeibah, governa a parte ocidental da Líbia. Ambas as facções reivindicam legitimidade, mas nenhuma delas conseguiu realizar as eleições nacionais há muito prometidas, originalmente agendadas para Dezembro de 2021.
Os analistas começaram a notar o ressurgimento do EI na Líbia no ano passado. Em Agosto, os Serviços Secretos da Líbia desmantelaram três células ligadas ao EI no sul da Líbia que tinham ligações internacionais em África e na Europa.
De acordo com relatos da imprensa, a primeira célula recrutava combatentes e transferia-os do Norte de África para a Somália e o Sahel, utilizando passaportes falsificados e esconderijos. A segunda geria operações de branqueamento de capitais que apoiam membros do EI que fogem da Síria para a Líbia. Esta célula utilizava empresas fantasmas disfarçadas de organizações humanitárias. A terceira célula tratava de transferências financeiras transfronteiriças através de criptomoedas e investimentos, e foi descrita como a mais perigosa.
As detenções seguiram-se à descoberta de um depósito de armas do EI em Sabha, onde as autoridades encontraram morteiros, armas antiaéreas, explosivos e grandes quantidades de munições, de acordo com o jornal online Libya Review.
Em Setembro de 2025, o EI escreveu um editorial na sua publicação al-Naba, no qual caracterizou a Líbia como uma “plataforma de lançamento” para o seu regresso e apelou explicitamente a uma nova jihad no país.
