Soldados-Sombra da Rússia

O Grupo Wagner Concede ao Presidente Russo, Vladimir Putin, Influência Estrangeira com Recurso à Negação

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Equipa da ADF

A Rússia, apesar de uma tentativa frenética de mostrar a sua força, obter acesso a recursos naturais e aumentar a sua importância geopolítica, depende muito das empresas militares privadas (EMPs). Esta estratégia tem um fraco impacto estrangeiro e oferece ao Kremlin uma negação plausível, ao mesmo tempo que enriquece um pequeno grupo de pessoas.

A Rússia, do Presidente Vladimir Putin, privilegia a utilização de EMPs, como o Grupo Wagner, ao assinar contratos de treino e segurança com nações africanas, ao mesmo que se posiciona para ter acesso a minas e a outros vastos depósitos de recursos.

“Agem como multiplicadores de força, comerciantes de armas, formadores de pessoal de segurança e militares locais e consultores políticos,” de acordo com o artigo da Fundação Carnegie para a Paz Internacional, “Implausible Deniability: Russia’s Private Military Companies” (Negação Implausível: Empresas Militares Privadas da Rússia), do membro-sénior Paul Stronski. “Nominalmente, actores privados expandem o alcance geopolítico do Kremlin e promovem os seus interesses. Versáteis, económicos e negáveis, são o instrumento perfeito para uma superpotência em declínio, ansiosa por se afirmar sem correr demasiados riscos.”

O Grupo Wagner, a EMP mais proeminente do conflito da Rússia, surgiu do conflito na Ucrânia, em 2014, tendo começado com cerca de 250 homens e expandido para um número 10 vezes superior, de acordo com um artigo de Setembro de 2020, do investigador Sergey Sukhankin. Foram enviados para a Síria, onde apoiaram as forças do Presidente Bashar al-Assad e conseguiram entrar em África.

Yevgeny Prigozhin, à esquerda, serve o jantar ao então Primeiro-Ministro Russo, Vladimir Putin, em 2011. Prigozhin é conhecido pela alcunha “cozinheiro de Putin.” REUTERS

“Além da Ucrânia, Síria e Líbia, o Grupo Wagner apareceu em países da África Subsariana como uma ‘faceta obscura’ da cooperação militar/técnica entre a Rússia e os Estados locais,” Sukhankin escreveu no artigo “Russian Private Military Contractors in Sub-Saharan Africa: Strengths, Limitations and Implications” para o Institut Français des Relations Internationales.

Apesar das negações e da ofuscação das fontes governamentais russas oficiais, os observadores normalmente concordam que o Grupo Wagner é um representante do governo com ligações ao aparelho de segurança nacional, aos amigos ricos de Putin e ao próprio presidente. Todavia, pode ser difícil fundamentar estas ligações.

Apesar disso, é do conhecimento geral que as forças do Grupo Wagner operam em várias nações africanas, incluindo Líbia, Madagáscar, Moçambique, República-Centro Africana (RCA) e Sudão. A sua presença coincide frequentemente com os interesses comerciais de um dos aliados mais próximos de Putin, o oligarca Yevgeny Prigozhin.

O COZINHEIRO DE PUTIN

Apesar da estreita ligação com Putin, não foi Prigozhin quem criou o Grupo Wagner. Isso deve-se a Dmitry Utkin, um veterano das guerras da Chechénia e antigo membro do serviço secreto russo, conhecido como GRU.

Utkin trabalhou para o Moran Security Group, na Síria, e saiu em 2014 para fundar o Grupo Wagner, cujo nome é homenagem ao seu antigo sinal de chamada, “Vagner.” Era uma referência ao compositor alemão, Richard Wagner, cuja obra foi apropriada por Hitler para o Terceiro Reich.

Embora não tenha sido o fundador da empresa, afirma-se que a influência de Prigozhin tenha sido essencial para a implementação das forças do grupo. A história pessoal de Prigozhin é extraordinária: um tribunal soviético condenou-o por roubo e outros delitos e esteve preso durante nove anos. Quando saiu em liberdade, vendeu cachorros-quentes na rua e acabou por abrir um restaurante num barco atracado. Depois de servir uma refeição a Putin, Prigozhin caiu nas graças do líder russo e pouco depois estava a servir refeições no Kremlin, tendo ficado conhecido como o “cozinheiro de Putin.”

O homem de negócios Yevgeny Prigozhin, à direita, mostra a sua fábrica de restauração escolar ao então Primeiro-Ministro da Rússia, Vladimir Putin, nos arredores de São Petersburgo, em 2010. AFP/GETTY IMAGES

À medida que a Rússia fazia a transição do passado soviético para novos empreendimentos capitalistas na década de 1990, Prigozhin abriu a primeira cadeia de mercearias de São Petersburgo e, pouco depois, restaurantes de luxo, segundo um relatório da agência turca de notícias, TRT World.

Prigozhin acabou por entrar no círculo interno de Putin, onde teve acesso a contratos muito lucrativos de restauração escolar e militar. Pouco depois, mudou para a área da construção e vários outros interesses. Muitas vezes, os seus interesses e os do Kremlin tinham em comum países tão remotos como a Síria, a Líbia e a África Subsariana.

“Dito de uma forma simples, a presença da empresa em pontos geopolíticos importantes esclarece a coordenação entre as ambições comerciais de Prigozhin e a prossecução dos interesses nacionais do Kremlin,” escreveu Aruuke Uran Kyzy, do Centro de Pesquisa da TRT World.

EXPANDIR O ALCANCE DE PUTIN

O que poderia fazer uma pequena empresa de segurança privada para atingir os objectivos geopolíticos da Rússia em África e noutras regiões?

O recurso mais valioso que o Grupo Wagner possa oferecer a Putin talvez seja a negação plausível. A Constituição da Rússia indica que todas as funções de defesa e segurança são da responsabilidade do governo, o que significa que é ilegal criar EMPs. No entanto, as lacunas da lei permitem o registo de empresas no estrangeiro e que as empresas estatais possam ter forças de segurança privadas. No caso do Grupo Wagner, não há qualquer prova de que esteja registado em algum lugar.

A colocação de Putin do Grupo Wagner fora da Rússia dá ao presidente e ao seu governo influência sem a publicidade e a responsabilidade resultantes de intervenções militares nacionais.

Por exemplo, quando o Grupo Wagner é enviado para um conflito num país africano e sofre uma derrota humilhante, como aconteceu durante o combate com militares islâmicos no norte de Moçambique, o governo russo não tem de sofrer a humilhação pública associada à perda de tropas militares nacionais durante uma investida fracassada em terreno estrangeiro. 

Os militares russos chegaram a Moçambique quando os dois países firmaram acordos que iriam proporcionar a empresas russas acesso a gás natural liquefeito, que existe em abundância no norte do país.

Igualmente elevados são os ataques de insurgentes violentos perpetrados pelo Ansar al-Sunna, um grupo terrorista relativamente recente, alinhado ao Estado Islâmico. As forças do Grupo Wagner bem equipadas, utilizadas para ajudar um exército em menor número, resultou, pouco depois, em perdas consideráveis e embaraçosas devido ao seu desconhecimento do terreno local e à sua incapacidade de comunicação de forma eficaz com as forças governamentais. Partiram logo a seguir.

Apesar de o envolvimento em Moçambique ter corrido mal, os militares do Grupo Wagner têm tendência de ser combatentes com experiência de batalha, por oposição aos reformados ou veteranos. Isso fornece uma força de combate preparada que permite ao governo russo atingir os seus objectivos de política externa sem deixar marcas.

Talvez não seja surpreendente que a presença do Grupo Wagner esteja em conformidade com os interesses económicos de Prigozhin. A sua empresa de produção de energia, Evro Polis, firmou um contrato com a empresa estatal síria, General Petroleum Corp. Em Dezembro de 2017, a Associated Press noticiou que o contrato garantia à Evro Polis 25 por cento dos lucros da produção de petróleo e gás e protecção contra o Estado Islâmico.

“Da mesma forma, à medida que a Rússia reforça o seu envolvimento em África, as operações do Grupo Wagner expandem-se para todo o continente, onde protegem os investimentos de Prigozhin,” escreveu Alexander Rabin para o Foreign Policy Research Institute, em 2019. 

Em 2017 e em 2018, Prigozhin viajou várias vezes no seu avião pessoal para diversos países africanos. Os destinos incluíram Angola, RCA, República Democrática do Congo, Guiné, Guiné-Bissau, Líbia, Madagáscar, Moçambique, Sudão e Zimbabwe, de acordo com o relatório da Jamestown Foundation, redigido em Janeiro de 2020 por Sergey Sukhankin, “The ‘Hybrid’ Role of Russian Mercenaries, PMCs and Irregulars in Moscow’s Scramble for Africa.”

O relatório indica que todos estes países tinham três aspectos em comum:

Todos são conhecidos pela instabilidade social e política.

Todos estão “amplamente dotados de recursos naturais estrategicamente importantes.”

Todos pertenciam às áreas de influência de potências coloniais, como a Bélgica, França e Portugal – países que a Rússia já não considera capazes de impedir o seu envolvimento neles.

A corrupção e as operações de iniciados em breve seguiram situações semelhantes às da Síria, de acordo com Sukhankin: Moscovo assina em segredo um acordo bilateral com os líderes da nação e oferece apoio militar e segurança, em troca de concessões de recursos naturais. 

Presidente russo, Vladimir Putin, aperta a mão do Presidente da República Centro-Africana, Faustin-Archange Touadéra, durante uma reunião nos bastidores da Cimeira Rússia/África, em Sochi, Rússia, em Outubro de 2019. Reuters

“Segundo este esquema, uma parte dos lucros alegadamente vai para o orçamento do Estado da Rússia (através de empresas/corporações envolvidas) e o resto é distribuído entre indivíduos privados que, na realidade, podem estar estreitamente ligados ao governo,” escreveu Sukhankin.

No final de 2017, depois de surgirem rumores de que mercenários russos tinham sido enviados para a RCA e para o Sudão, duas empresas ligadas a Prigozhin, a Lobaye Invest e a M-Invest, receberam licenças para extrair ouro, diamantes, urânio e muito mais, escreveu Sukhankin. Os relatórios indicam também que o pessoal do Grupo Wagner fornece um destacamento de segurança para o Presidente da RCA, Faustin-Archange Touadéra, e protecção para as minas de ouro. 

Em 2018, três jornalistas russos foram assassinados depois de investigarem a entrada das forças do Grupo Wagner na RCA a partir do vizinho Sudão, onde o Grupo Wagner tinha treinado as forças de segurança locais. Em 2019, ouviram-se rumores sobre uma potencial base russa na RCA. 

À primeira vista, a RCA parecia ser um alvo improvável da presença e da influência russas. Contudo, a constante instabilidade da nação e os ricos jazigos de diamantes, ouro, urânio e petróleo tornaram a RCA um atraente centro de influência para a Rússia. Putin explorou habilmente a situação ao implementar um modelo da época da Guerra Fria soviética, baseada na “cooperação técnico-militar,” segundo um estudo da Jamestown Foundation. A RCA e a Rússia assinaram um acordo, em Agosto de 2018, e, desde então, a Rússia tem expandido a sua presença no país, através da aplicação de dois métodos.

Primeiro, em Março de 2018, foi assinado um acordo de consultoria/treino militar, com a chegada de um grupo de consultores, composto por cinco militares e 170 “instrutores civis,” segundo a fundação. Apesar de afirmações em contrário, estes instrutores são, de facto, forças do Grupo Wagner. 

Soldados de manutenção da paz das Nações Unidas em Bangui, na República Centro-Africana. A nação vem sendo assolada pela violência e pela instabilidade desde 2013. AFP/GETTY IMAGES

Segundo, a Rússia forneceu ao governo da RCA equipamento militar e técnico, que inclui armas, munições e veículos militares. Grande parte dessa assistência é prestada a um preço reduzido, uma vez que muito do equipamento está obsoleto. Além disso, os objectivos da Rússia estão mais direccionados para benefícios económicos do que ideológicos, de acordo com a Jamestown.

Apesar desta alegada assistência, há provas de que a Rússia pode estar a utilizar o Grupo Wagner para desempenhar ambas as funções na RCA.

Por exemplo, em Agosto de 2020, a plataforma Geopolitical Monitor indicou que mais de 80 por cento do país estava sob o controlo dos rebeldes. “Wagner, além de dar treino militar, alegadamente colabora com estes rebeldes para explorar a população local,” escreveu Daniel Sixto. “Segundo algumas fontes, as forças do Grupo Wagner estavam coordenadas com forças rebeldes para permitir que uma empresa mineira russa pudesse ter acesso às minas de diamantes em território insurgente, prejudicando o seu objectivo mais amplo na região.”

Na Líbia, a Rússia recorreu ao Grupo Wagner para intervir no conflito, ao lado do Marechal Khalifa Haftar, contra o Governo do Acordo Nacional, reconhecido pelas Nações Unidas, que precedeu o governo provisório de Abdul Hamid Dbeibah, conhecido como o Governo de Unidade Nacional. A Líbia também possui ricos jazigos de petróleo, e a proximidade com a costa mediterrânica torna este país numa área de influência com um elevado potencial estratégico.

O Comando dos Estados Unido para África acusou as forças do Grupo Wagner de colocar minas e outros dispositivos explosivos na Líbia, por vezes, escondendo-os em brinquedos, segundo o Business Insider.

O Grupo Wagner e Prigozhin também aumentaram a sua influência na internet. Relatos indicam que o Grupo Wagner tem sido responsável por campanhas de influência online na Líbia, que visam atacar cidadãos e apoiar Haftar e Saif al-Islam Gadhafi, o filho do falecido ditador. Da mesma forma, o grupo é conhecido por ter tentado influenciar as eleições de 2018, em Madagáscar.

O Grupo Wagner não é apenas vantajoso para Putin, Prigozhin ou para o governo russo. Os que trabalham no estrangeiro para o Grupo Wagner também beneficiam, especialmente em termos financeiros. Segundo a TRT World, as tropas do Grupo Wagner podem ganhar 1 milhão de rublos em três meses, o equivalente a 16.000 dólares. Isso significa que receberiam 10 vezes mais do que um soldado russo. Os comandantes do Grupo Wagner podem ganhar o triplo. Se morrer em combate, a família do combatente pode receber cerca de 56.000 dólares.

Num funeral, em Moscovo, pessoas lamentam a morte de um dos três jornalistas russos assassinados durante a investigação à volta do Grupo Wagner, na República Centro-Africana. REUTERS

“O Grupo Wagner foi destacado pela Rússia como uma extensão das suas ambições militares e estrangeiras, mas coincidentemente alguns regimes autoritários têm sido seus clientes,” Ahmed Hassan, PCA da Grey Dynamics, uma empresa de consultoria de inteligência, disse ao Business Insider. “Claro que esse tipo de regimes, muitas vezes, procura resolver a instabilidade civil através da violência, e o Wagner é a tal ferramenta.”  

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