
O Major-General Peter Muteti foi nomeado vice-comandante da força responsável pelo apoio e logística da Missão de Transição da União Africana na Somália (ATMIS) em 2023 e ocupou o mesmo cargo na Missão de Apoio e Estabilização da UA na Somália (AUSSOM) até Dezembro de 2025. Durante uma carreira de 39 anos nas Forças de Defesa do Quénia, desempenhou funções de liderança, incluindo a de chefe-adjunto das forças de defesa responsáveis pelo desenvolvimento das forças, eficácia operacional e desenvolvimento de políticas. Depois de ter sido nomeado para o Corpo de Infantaria, em 1988, ocupou cargos de comando e foi destacado para pontos críticos de segurança nas regiões norte, nordeste e costeira do Quénia. Ele serviu em missões de manutenção da paz na Serra Leoa e na Namíbia e recebeu prémios que incluem o Prémio Presidencial Chefe da Lança Ardente por serviços prestados à nação. Ele planeia aposentar-se do serviço activo em 2026. Ele falou com a ADF durante o Silent Warrior 2025, um simpósio de segurança em Nairobi. Esta entrevista foi editada para maior clareza e concisão.
ADF: O que o seu tempo na AUSSOM lhe ensinou sobre a importância da interoperabilidade entre os países contribuintes de tropas (TCCs)?
Muteti: Não se pode subestimar o valor da interoperabilidade. Todos os TCC e os contingentes provêm de culturas diferentes, são treinados com base em doutrinas diferentes e a língua também pode ser uma barreira. O objectivo final é cumprir o mandato da missão e garantir o sucesso da missão para permitir que as Forças de Defesa da Somália assumam a sua responsabilidade pela segurança. Ao trabalhar com os TCC, o que realmente aprendi é que é preciso muita paciência e que a união faz a força. Cada um dos TCC tem a sua singularidade em termos de antecedentes e cultura, modo de vida e interesses estratégicos nacionais, mas no final das contas percebi que a maior vantagem que temos é que a maioria dos contingentes opera de forma independente dentro do seu próprio sector, e a comunicação ocorre entre eles e o quartel-general. Em termos de integração para operações conjuntas com os somalis, sempre houve a necessidade de intérpretes que soubessem exactamente como eles operam. A sua forma de operar é diferente do modo convencional que todos nós aprendemos, por isso, é necessário um esforço para garantir que haja um planeamento conjunto e que todos compreendam, quer se fale em Francês, Amárico, Inglês ou Somali. Leva tempo para alcançar a eficácia das operações conjuntas. Sem essa interoperabilidade, pode ser um problema.
ADF: Disse que as Forças de Operações Especiais Danab da Somália desempenham um papel importante nas operações de combate ao terrorismo. Como as viu evoluir durante o seu tempo na Somália?
Muteti: Já estou há três anos na Somália, o que é um pouco mais do que qualquer outro líder sénior na nossa missão específica. Durante o meu tempo aqui, testemunhei muitas operações conduzidas pela Força de Defesa da Somália. Os Danabs são uma força bastante especial entre os outros elementos das forças armadas somalis. Eles são treinados, orientados, apoiados logisticamente e também recebem apoio em termos de partilha de inteligência pelos americanos. É por isso que os Danabs se tornaram uma força de elite. Eles têm operado como parte da Força de Defesa da Somália e se tornaram tão críticos e vitais em operações ofensivas que se tornou necessário que todas as operações incluíssem um elemento dos Danabs. A única questão é que a brigada Danab é composta por apenas 2.000 pessoas, o que é pouco em comparação com o que deve ser feito para derrotar o al-Shabaab. Mesmo que fossem destacados por todo o país, estariam tão dispersos que a sua eficácia diminuiria. Mas têm feito bastante em termos de moldar operações e ajudar na libertação de territórios.

ADF: A estratégia tradicional de contra-insurgência é “limpar, manter e construir.” Mencionou que as forças somalis conseguiram eliminar os terroristas do al-Shabaab de certas regiões, mas o processo de manter o território e construir tem sido um desafio. O que acha que é necessário para concluir este processo e derrotar o al-Shabaab?
Muteti: Os somalis têm uma cultura de operações ofensivas. São móveis. Mas, quando fazem isso, percebe-se que não têm forças para manter o território e construir. A parte da construção não é liderada pela Somália; requer o apoio de parceiros internacionais. Mas, antes que a construção possa ocorrer, é necessário limpar e manter. E o elemento de manutenção tem sido difícil. Eles realizaram operações ofensivas, mas não desbloquearam o potencial que poderia existir nas suas comunidades, nas suas forças de defesa comunitárias e nas forças que pertencem aos Estados-membros federais. Pode não ser um requisito imediato que a Força de Defesa da Somália seja suficientemente grande para realizar operações ofensivas, bem como manter o território e assim por diante. Mas há muitas forças diferentes na Somália e, no final das contas, o que eles podem querer fazer é integrá-las para garantir que esse potencial seja desbloqueado. Se isso acontecer, os clãs podem olhar além das suas milícias e ser capazes de cooperar e sinergizar com outras forças para que possam manter o território quando a ofensiva for concluída.
ADF: Como podem a Somália, a UA e outros parceiros internacionais trabalhar para desmantelar as redes que financiam o al-Shabaab?
Muteti: Penso que uma das coisas que o governo federal fez, para o seu crédito, foi adoptar uma abordagem multidimensional e abrangente de todo o governo. O al-Shabaab não pode ser derrotado apenas por meios militares. E penso que isso tem sido destacado na maioria das resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Eles reconhecem a necessidade de usar outros meios, sejam eles políticos, económicos ou diplomáticos. Há um grande esforço por parte dos parceiros internacionais e existe uma colaboração estreita. Recentemente, promulgaram legislação para congelar todo o financiamento ao al-Shabaab. Não sei quão eficaz tem sido, mas pelo menos há um esforço para congelar o financiamento. Se isso tiver impacto, pelo menos podemos isolar o que vem de fora e, dentro da Somália, usar operações conjuntas para limitar a cobrança de impostos pelo al-Shabaab. Uma boa parte das receitas do al-Shabaab provém dos impostos que cobram nas auto-estradas ou que impõem às comunidades.
ADF: Quão perto estão o Exército Nacional da Somália e outras forças de segurança somalis de estarem prontos para assumir todas as responsabilidades de segurança e permitir a saída da AUSSOM?
Muteti: O prazo para a AUSSOM é de 2025 a 2029, o que dá aos somalis tempo para desenvolverem a sua própria capacidade de assumir a responsabilidade pela segurança. Sei que, politicamente, eles fizeram progressos e estão a envolver parceiros internacionais e regionais — estão activos em todos os fóruns. Em termos de segurança, trata-se de implementar o Plano de Desenvolvimento da Segurança da Somália, que inclui etapas para a geração de forças e o apoio de parceiros internacionais. No final das contas, a ambição da Somália é gerar tropas e garantir que elas possam assumir a responsabilidade pela segurança até 2029 ou mesmo antes.

ADF: Fora da Somália, há uma série de insurgências persistentes em locais como o Sahel, a Bacia do Lago Chade e Moçambique. O que acha que é necessário para acabar com estas insurgências? É necessária mais cooperação regional?
Muteti: Há pontos alguns críticos. Acredito que todas essas insurgências têm as suas causas profundas. Temos de compreender quais são, pois muitos dos grupos insurgentes têm ambições políticas e, nesses casos, só podem ser eliminados através do diálogo. Temos de garantir que, a nível regional, haja mais compromisso político e diálogo. Tal como o al-Shabaab não pode ser derrotado apenas por meios militares, o mesmo se aplica à Bacia do Lago Chade, ao Sahel e a Moçambique.
ADF: Teve uma carreira ao serviço da sua nação e de todo o continente em missões de manutenção da paz e outras funções importantes. Ao olhar para trás, o que espera ter conseguido durante a sua carreira?
Muteti: Quando entrei, o meu juramento foi para a defesa da nossa república. Isso motivou o meu serviço ao longo de 39 anos. O Quénia ainda está seguro, pelo menos de fontes externas. Talvez não estejamos tão seguros contra o terrorismo, porque ele é de natureza transfronteiriça e continua a ser uma das ameaças mais prementes. Ao olhar para trás, acho que sim, a minha contribuição para a nação não foi em vão. Fui destacado para várias missões e contribui para o desenvolvimento de capacidades de liderança como formador e como comandante, desenvolvendo as capacidades das tropas para sair e realizar operações. Estive lá como soldado da paz e tenho orgulho de estar associado à paz na Serra Leoa. Também participei na missão na Namíbia e fico feliz hoje quando encontro oficiais da Namíbia e eles olham para trás e dizem: “Estamos gratos pela contribuição do Quénia.” Tenho orgulho de ver o Quénia onde está em termos de segurança e tenho orgulho do que posso ter contribuído em África e no mundo.
ADF: Quais são os maiores desafios de segurança que o Quénia e a região da África Oriental ainda enfrentam e quais são as suas esperanças para que estes possam ser superados?
Muteti: A segurança é a base do desenvolvimento socioeconómico. Sem segurança, não se pode realmente falar dos avanços que se querem fazer em termos de crescimento económico e desenvolvimento. Portanto, quando olho para a região, sei que ela está conturbada, particularmente o Corno de África e o Sudão. De um modo geral, a maioria dos problemas parece estar relacionada ao desenvolvimento democrático. O Quénia fez alguns avanços em termos de democracia. Somos capazes de nos acomodar uns aos outros, e a constituição é a base do país. Gostaria de ver uma região estável, porque o mundo não vai esperar por nós enquanto continuarmos a ter inseguranças e assim por diante. Gostaria de ver uma região segura para se viver, que esteja em paz consigo mesma e que seja competitiva com o mundo internacional. Essa é a aspiração pela qual as gerações futuras irão julgar a geração actual. Eles perguntarão: “ O que vocês fizeram?” e “Como vocês se prepararam para o futuro?” Portanto, quando olho para a região, gostaria de ver uma Somália estável, uma Etiópia estável, um Sudão estável, um Sudão do Sul estável e um Quénia estável, que possam colaborar em questões de desenvolvimento socioeconómico.
