Em meados de Outubro, os líderes da comunidade de Bawku, no norte do Gana, celebraram um marco histórico: 150 dias sem violência armada numa região assolada por um conflito étnico de longa data.
Os especialistas afirmam que os cinco meses de calma em Bawku entre os grupos étnicos Kusasi e Mamprusi são o resultado de mediações intensivas por parte do Conselho Nacional de Paz, de uma maior presença de forças de segurança e da promessa de investimentos por parte do governo nacional.
Os grupos Kusasi e Mamprusi estão em conflito há décadas quanto à questão de saber que grupo detém a chefia de Bawku. Em 2021, o seu conflito degenerou em violência que tem continuado de forma esporádica. As autoridades ganesas enviaram soldados para a região em Julho de 2025, depois de homens armados terem matado três alunos perto de uma escola.
Bawku situa-se no nordeste do Gana, perto das fronteiras com o Burquina Faso e o Togo. Há séculos que o mercado ao ar livre da cidade tem sido um ponto de encontro para comunidades de todo o Sahel e das florestas da África Ocidental.
A população de Bawku é maioritariamente muçulmana, o que liga mais estreitamente os 80.000 residentes da comunidade aos seus vizinhos do Sahel e cria uma divisão em relação ao resto do Gana, onde mais de 70% da população é cristã.
Os líderes do Gana consideram a calma em Bawku uma importante protecção contra a potencial propagação do Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) e de grupos violentos provenientes do Burquina Faso, do Mali e do Níger.
O JNIM tem um historial de explorar conflitos étnicos e o sentimento antigovernamental para ganhar terreno em comunidades de todo o Sahel e, mais recentemente, ao longo das regiões fronteiriças que o Burquina Faso e o Níger partilham com o Gana e outras nações costeiras a sul.
Essas regiões fronteiriças tendem a ser negligenciadas no que diz respeito ao investimento governamental, o que gera ressentimento entre os residentes. Para contrariar essa situação, o Gana anunciou recentemente planos para investir fortemente em infra-estruturas públicas através do Fundo de Revitalização de Bawku, um programa de três anos no valor de 85,7 milhões de dólares (1 bilhão de cedis).
Entre 2026 e 2028, o fundo financiará estradas, cuidados de saúde, educação, barragens e instalações de irrigação para a agricultura durante todo o ano, instalações de segurança e infra-estruturas económicas e comerciais, de acordo com um comunicado do governo.
“A insegurança ao longo dos anos tem limitado gravemente o investimento público e privado e paralisado o desenvolvimento de infra-estruturas essenciais,” Felix Kwakye Ofosu, Ministro das Comunicações do Governo do Gana, disse num comunicado a anunciar o fundo.
O objectivo, acrescentou Ofosu, é “restaurar a posição histórica de Bawku como um importante centro económico e comercial no norte do Gana.”
Mubarak Mohammed Muntaka, do Ministério do Interior do Gana, disse recentemente à rádio Joy FM do Gana que, graças à melhoria das condições de segurança em Bawku, o governo flexibilizou o recolher obrigatório nocturno na região e levantou a proibição de circular de motocicletas, em vigor há cinco anos.
George Amoh, secretário-executivo do Conselho Nacional da Paz, acredita que a calma actual poderá ser um sinal de que o conflito entre os dois grupos está a esmorecer.
“À certa altura do conflito, as pessoas ou os intervenientes no conflito ficam fartos,” Amoh disse ao The African Report.
No entanto, o analista de segurança, o Coronel Festus Aboagye, adverte que as fronteiras porosas da região, os mercados de armas ilícitas, as redes transfronteiriças de parentesco e o crime organizado poderão dar ao JNIM e a outros grupos armados uma oportunidade para fomentar a agitação, caso o conflito interno de Bawku permaneça por resolver.
“A calma é real, mas ainda não é o mesmo que paz,” Aboagye disse ao The African Report.
