Movimentos de tropas, ataques com drones e uma retórica cada vez mais agressiva levam a Eritreia e a Etiópia de volta à beira da guerra. Os analistas alertam que, sem uma reviravolta drástica, o conflito corre o risco de custar milhares de vidas e envolver países de toda a região.
Os especialistas apontam para o histórico devastador de conflitos fronteiriços entre os dois países e apelam a uma solução diplomática.
“Um impasse ao longo da fronteira entre os dois países constituiria uma reviravolta sinistra nos acontecimentos,” o International Crisis Group (ICG) escreveu numa avaliação de 12 de Outubro. “O último grande conflito interestatal no Corno de África, no qual centenas de milhares de pessoas pereceram em guerra de trincheiras, foi travado precisamente ao longo da mesma fronteira.”
Testemunhos e observadores independentes relataram que tropas eritreias atravessaram a fronteira no norte da Etiópia, perto da cidade de Zalambessa, por volta de 7 de Outubro. Numa carta dirigida ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, o governo etíope acusa o seu vizinho do norte de ter enviado tropas 60 quilómetros para dentro do seu território.
O Ministro dos Negócios Estrangeiros da Etiópia, Gedion Timothewos, descreveu a incursão como “um acto flagrante de agressão que acciona o direito inerente da Etiópia à autodefesa.”
Em resposta, a Etiópia lançou ataques com drones contra veículos militares eritreus perto da cidade de Adi Grat, a 8 de Outubro, de acordo com o Projecto de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos (ACLED). A Etiópia também destacou forças para o norte e retomou várias cidades que estavam nas mãos da Frente de Libertação do Povo do Tigré (TPLF), um partido político e grupo armado que se aliou recentemente à Eritreia.
As tensões surgem na sequência de um período de várias semanas em que vários grupos armados da Etiópia, incluindo a TPLF e a Fano, uma milícia de etnia Amhara, lançaram ataques contra posições do governo federal etíope. A Etiópia acusa a Eritreia de apoiar estes grupos com armas e treino.
A Eritreia tem motivos para recear que a Etiópia, país sem litoral, tenha ambições de invadir e ocupar a cidade portuária de Assab para obter acesso ao Mar Vermelho. O Presidente da Eritreia, Isaias Afwerki, parece acreditar que pode proteger o seu país armando rebeldes no interior da Etiópia.
“Para a Eritreia, a continuação do conflito no interior da Etiópia reduz a ameaça a Assab,” Hafte Gebreselassie Gebrihet, investigador da Universidade de Oslo, escreveu para o The Conversation. “Um governo federal a combater nas regiões de Amhara, Oromia e Tigré dispõe de menos tropas, menos recursos financeiros e menos margem de manobra política para pressionar a Eritreia.”
As tensões surgem quase quatro anos após a assinatura do Acordo de Pretória, que pôs formalmente fim à guerra civil da Etiópia com a TPLF. No entanto, escreve Hafte, o acordo não foi implementado de forma a garantir uma paz duradoura. O território disputado do Tigré Ocidental não foi devolvido à administração tigrenha, a região do Tigré não foi reintegrada na política federal e o prometido desarmamento das milícias está estagnado.
O fracasso do Acordo de Pretória torna menos provável que os grupos se desarmem e dá a actores externos, como a Eritreia, uma oportunidade para formar alianças e desestabilizar a Etiópia.
“A paz no Tigré depende de tornar a implementação mais valiosa do que a incerteza contínua,” recomendou Hafte.
Num artigo escrito para o The New Humanitarian, o jornalista Daniel Berhane referiu que existem três cenários possíveis para o conflito no norte da Etiópia e na Eritreia.
- Proliferação de grupos armados: a Eritreia deixa de enviar tropas através da fronteira, mas continua a apoiar grupos armados como a TPLF e a Fano.
- Um impasse: a região do norte continua a ser palco de um conflito por procuração, com os insurgentes a controlarem partes do território rural e o governo federal a controlar os centros populacionais.
- Guerra entre Estados: a Etiópia e a Eritreia voltam à guerra devido a questões fronteiriças por resolver e ao controlo do porto de Assab. A guerra envolveria provavelmente nações da região e os Estados do Golfo.
Os especialistas apelam à desescalada, salientando que um milhão de pessoas continuam deslocadas devido ao último conflito e que quatro milhões necessitam de ajuda. O impacto humanitário de um regresso ao conflito poderia ser muito pior.
“Afastar a Etiópia e a Eritreia da beira da guerra deve ser a prioridade para todos aqueles que estejam interessados em impedir que uma cadeia mortal de conflitos interligados se espalhe pelas regiões do Corno de África e do Mar Vermelho,” escreveu o ICG.
