O Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) acumula cerca de 100 milhões de dólares por ano através de uma rede de actividades ilícitas que ilustra a forma como o terrorismo, o crime organizado e a corrupção pública estão interligados.
“Não se enganem: actualmente, as economias ilícitas no Sahel e na África Ocidental constituem criminalidades interligadas que ultrapassam as fronteiras,” David M. Luna, director-executivo da Coligação Internacional contra as Economias Ilícitas (ICAIE), disse num webinar recente organizado pela Unidade de Informação Financeira da Nigéria (NFIU).
Fronteiras porosas, a rápida expansão da tecnologia digital e a falta de segurança nos chamados espaços não governados em países como o Burquina Faso, o Mali, o Níger e a Nigéria, por exemplo, permitem que as operações criminosas prosperem, relatou Luna.
Grupos terroristas como o JNIM, o Estado Islâmico e o Boko Haram exploram essas fraquezas para angariar milhões de dólares e impor a sua autoridade em substituição dos governos locais.
“Os lucros de origem criminosa provenientes do tráfico de bens ilícitos e do contrabando têm uma influência prejudicial no desenvolvimento económico, na prosperidade, na paz e na segurança,” observou Luna.
O JNIM, por exemplo, desenvolveu um complexo conjunto de crimes, incluindo mineração artesanal, extorsão, sequestro, roubo de gado, bloqueios de estradas e pagamentos forçados de zakat, para sustentar o seu extremismo violento em toda a região.
A título de ilustração da escala em que o JNIM opera, o grupo acumulou quase 740.000 dólares com o roubo de gado num único distrito do Mali em 2021, de acordo com a analista Elena Martynova, do boletim informativo Insight Threat Intelligence.
Enquanto o JNIM depende do ouro e do dinheiro distribuídos pela sua rede de comandantes, o Estado Islâmico na Província da África Ocidental tem vindo a experimentar a utilização de criptomoedas para armazenar e transferir fundos, segundo Martynova.
Esses fundos ilícitos sustentam a capacidade dos grupos terroristas de atacar civis e forças de segurança. Ajudam também o grupo a corromper funcionários públicos, minando a confiança nos governos locais, segundo Luna.
É um ciclo vicioso, acrescentou ele num artigo publicado pela Homeland Security Today.
“A insegurança enfraquece a governação e a fiscalização da lei, criando mais oportunidades para os mercados ilícitos,” escreveu Luna. “Esses mercados geram, por sua vez, recursos que permitem aos grupos armados e criminosos expandir a sua influência, adquirir armas, subornar funcionários e desafiar a autoridade governamental.”
Se não forem controladas, as economias ilícitas que alimentam o JNIM e outros grupos terroristas subvertem as instituições públicas, tornando-se fontes de caos e insegurança que se auto-alimentam, observou Luna.
É provável que o JNIM e outros grupos terroristas continuem financeiramente resilientes, a menos que as principais fontes de receita, tais como o contrabando de ouro, o roubo de gado e os sequestros para obtenção de resgate, sejam interrompidas, escreveu Martynova.
Grupos como a NFIU desempenham um papel vital na derrota dos grupos terroristas, ao localizar e destruir a sua infra-estrutura de financiamento, Luna disse no webinar.
“Atacar as suas bases financeiras é o ponto de gravidade,” afirmou Luna. Isso inclui privar os grupos dos seus fundos ilícitos; isolá-los dos sistemas financeiros legítimos e da banca clandestina; expor crimes ocultos por trás de fachadas legítimas; e proteger mercados estratégicos da infiltração criminosa.
No entanto, as unidades de informação financeira não podem realizar este trabalho sozinhas. Devem trabalhar além-fronteiras para partilhar informações com outras FIU e com as forças policiais, as agências de segurança e as autoridades civis, acrescentou Luna.
“Para derrotar as redes criminosas transnacionais que representam a maior ameaça à segurança regional, é necessário visar a sua infra-estrutura, a sua logística e privá-las dos meios financeiros que lhes permitem operar,” afirmou Luna. “Trata-se de uma responsabilidade partilhada entre parceiros de confiança.”
